JÚLIA # 2

Por Rodrigo Emanoel Fernandes
Data: 1 dezembro, 2005


Título: JÚLIA # 2 (Mythos
Editora
) – Revista mensal

Autores: Giancarlo Berardi (roteiro) e Corrado Roi (desenhos).

Preço: R$ 6,90

Número de páginas: 128

Data de lançamento: Dezembro de 2004

Sinopse: Objeto de Amor – Continua a perseguição à serial
killer
Myrna Harrod, que conseguiu escapar da polícia na edição
anterior
e agora procura pistas do paradeiro de sua mãe desaparecida,
deixando uma trilha de sangue atrás de si.

Obcecada com o caso, a doutora Júlia Kendall alterna-se entre a investigação
e seus problemas pessoais, mal percebendo que sua busca pela assassina
pode acabar tornando-a seu próximo alvo.

Positivo/Negativo: Depois de uma primeira edição bastante interessante,
a nova série bonelliana da Mythos ganha fôlego com uma trama
ainda mais envolvente. O episódio é o segundo de uma trilogia de estréia
que estabelece as bases do universo da protagonista, ao mesmo tempo em
que se aprofunda na personalidade psicótica de Myrna Harrod.

A personagem, anteriormente vista como uma serial killer unidimensional
e sem maiores sutilezas, começa a revelar uma profundidade insuspeitada,
aumentando o nível de interesse da narrativa. Giancarlo Berardi não faz
concessões ao dissecar a complexa psique da assassina e as origens de
sua crescente violência.

É fascinante testemunhar a ousadia do autor de Ken Parker ao abordar
temáticas ainda espinhosas nos quadrinhos, especialmente no seio de uma
editora de tradição conservadora como a Sergio Bonelli.

Na verdade, o escritor correu o risco de ser considerado preconceituoso
ao apresentar o lesbianismo de Myrna como parte dos desvios psicóticos
de sua mente conturbada. Ainda que uma leitura atenta demonstre claramente
que a atração da personagem por mulheres pouco tem a ver com a homossexualidade
em si (o relacionamento bizarro que a personagem mantém com sua refém
é claramente patológico, com muito mais em jogo do que simplesmente desejo
sexual ou amor), seria bastante provável que leitores extremados acabassem
acusando o autor de má fé, de modo muito semelhante ao que aconteceu na
época do lançamento de Instinto Selvagem, com Sharon Stone. Em
ambos os casos as acusações são injustas. Berardi só poderia ser acusado
de não permanecer no terreno seguro do politicamente correto, mas isso
é motivo de elogios, não de desprezo.

E enquanto a perseguição continua, o leitor é apresentado a novos e importantes
personagens fixos: a problemática irmã mais nova de Julia e a avó, que
a criou após o falecimento dos pais.

Complexos relacionamentos familiares são insinuados: as irmãs tentam uma
cautelosa reaproximação após desentendimentos no passado e a relação de
Júlia com a avó, apesar de aparentemente iluminada, ganha uma conotação
soturna nos pesadelos da heroína. Com certeza, ainda há muito para ser
desvendado.

Na seção O Diário de Júlia, que estréia na página 4, a Mythos,
oportunamente, reproduz uma entrevista com Berardi na qual, entre outras
coisas, o escritor fala da importância dos coadjuvantes numa série como
esta, e é exatamente isso que a leitura do episódio evidencia.

Pouco a pouco os inúmeros personagens da série, tanto fixos quanto ocasionais,
ganham profundidade e tridimensionalidade, tornando-se de fato vivos aos
olhos do leitor, que passa a se importar com seus destinos e o universo
que habitam.

Tal envolvimento ameniza muito o mais sério problema estrutural da série,
já comentado no review anterior: a quase impossibilidade de criar
tramas originais com um tema tão exaustivamente explorado quanto serial
killers
. Apenas as três temporadas da série Millennium, de
Chris Carter, já chegam bem perto de esgotar o filão.

Felizmente, o carisma da Doutora Kendall e dos personagens que a cercam
(todos “interpretados” por grandes astros do cinema, confira qual é qual)
é mais do que suficiente para garantir a identificação do leitor e manter
o suspense durante as macabras investigações.

Este episódio ainda ganha uma valorização extra graças aos desenhos de
Corrado Roi, habitual colaborador de Dylan Dog, dono de um traço
belíssimo e elegantemente realista, o que aumenta ainda mais o vigor e
a credibilidade dos personagens.

Mais comentários na próxima edição, quando a “trilogia Myrna Harrod” chega
ao fim e uma análise mais completa das bases da HQ se tornará possível.
A julgar pela capa já anunciada as coisas ainda nem começaram a esquentar.

Classificação:

4,0

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