JÚLIA – AVENTURAS DE UMA CRIMINÓLOGA # 3

Por Rodrigo Emanoel Fernandes
Data: 1 dezembro, 2005


Título: JÚLIA – AVENTURAS DE UMA CRIMINÓLOGA # 3 (Mythos
Editora
) – Revista mensal
Autores: Giancarlo Berardi (roteiro) e Gustavo Trigo (desenhos).

Preço: R$ 7,40

Número de páginas: 128

Data de lançamento: Janeiro de 2005

Sinopse: Na Mente do Monstro – Meses depois dos acontecimentos do número anterior, a psicótica Myrna Harrod continua foragida e ocultando-se sob uma identidade falsa.

Obcecada com a criminóloga Júlia Kendall, a assassina arma um cuidadoso cerco que levará não apenas Júlia, mas também sua irmã Norma, a um definitivo e assustador confronto.

Positivo/Negativo: O episódio fecha a trilogia de estréia da nova série de Giancarlo Berardi, com uma trama tão ou mais interessante do que a do mês passado. Depois dos acontecimentos dessas três edições, a Dra. Kendall se vê de novo integrada à rotina do departamento de homicídios da cidade de Garden City; o que equivale a dizer que as bases da HQ agora estão estabelecidas, os personagens principais e coadjuvantes devidamente apresentados, os conflitos iniciais estabelecidos. A série começa a decolar.

O ponto forte, como já explicado nos reviews anteriores, não é a originalidade, mas sim o realismo e a tridimensionalidade dos personagens e suas relações muito bem estabelecidas por Berardi. É inegável afirmar que Júlia, em três edições, tornou-se incrivelmente real e verossímil para os leitores, com uma personalidade rica e fascinante que outros heróis da Bonelli levaram anos para desenvolver.

A identificação resultante leva ao suspense, sem necessidade de choques gratuitos ou truques sujos. Ler Júlia é uma experiência tensa, mas paradoxalmente suave, na qual o leitor se deixa mover pela história, guiado pelo puro prazer “voyeurístico” de mergulhar nas profundezas íntimas dos personagens, sejam eles os parentes da protagonista ou diabólicos psicopatas.

Berardi leva essa identificação às últimas conseqüências neste episódio. É curioso observar o crescimento de Myrna Harrod na trama. No primeiro número, ela era apenas uma presença sem rosto, como nos clássicos de horror em que o monstro apresenta-se como um ser à parte da humanidade, incompreensível e facilmente isolado como uma ameaça crua e passível de banimento e/ou destruição.

No segundo número, o leitor chega um pouco mais perto, acompanha Myrna em sua jornada de fuga, tenta entender suas motivações, se desconcerta com sua lógica aparentemente absurda e distorcida, se sente traído quando ela conquista sua simpatia e, no momento seguinte, se choca com um ato gratuito de violência.

Ela provoca, assusta e encanta ao mesmo tempo, perturbando qualquer senso de valores e deixando o fã ansioso por saber mais.

Finalmente, esse terceiro número coloca o leitor Na Mente do Monstro, literalmente. O recurso de substituir a habitual narração em off de Júlia pela de Myrna foi particularmente feliz, pois “obriga” uma identificação com uma personagem cujo código de valores é completamente pessoal e diferente do aceito pela sociedade, o que por si só é perturbador.

É como se você estivesse investigando Myrna juntamente com Júlia, se aprofundando no caso a cada etapa, cada vez mais “pensando como o assassino”, descobrindo seus pontos em comum com ele, dando uma boa olhada no abismo e deixando ele nos observar. E, claro, sentindo a famosa “simpatia pelo demônio”, como já dizia Mick Jagger.

Isso sem contar a bizarra irmandade insinuada entre heroína e vilã, obtida nas primeiras páginas, no tempo necessário para o leitor se dar conta de que, desta vez, não é Júlia, mas sim Myrna que está narrando a história; e ficar em choque ao perceber o quanto foi fácil acreditar que aquele passado medonho poderia ser da protagonista.

A única frustração é o desfecho excessivamente rápido e um tanto decepcionante, depois de um suspense cuidadosamente construído ao longo de três edições. O aguardado e temido encontro de Júlia e Myrna é muito breve e explora pouco as perturbadoras possibilidades insinuadas por quase trezentas páginas de trama.

A não ser que isso também faça parte do jogo de espelhos de Berardi que, talvez, queria fazer o leitor surpreender-se quase “torcendo” para que Myrna e Júlia tivessem um confronto mais intenso, cruel… delicioso?

E o fato é que é inevitável sentir uma certa ansiedade em ver a carismática assassina retornar para uma segunda chance, o que infelizmente só vai acontecer no distante número 39 da série mensal. Resta torcer para que a estada da Dra. Júlia Kendall entre nós chegue tão longe…

 

Classificação:

4,0

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