Ken Parker # 15 – Tapejara

Por Sidney Gusman
Data: 21 maio, 2007

Ken Parker # 15Editora: Tapejara – Série mensal

Autores: Giancarlo Berardi (texto) e Ivo Milazzo (arte).

Preço: R$ 12,00

Número de páginas: 160

Data de lançamento: 2002

Sinopse

Homens, animais e heróis – Em Dodge City, no sul do Kansas, Ken Parker vai a um saloon em busca de vaqueiros para ajudá-lo a conduzir um rebanho até South Dakota, para as terras da jovem impetuosa Pat O’Shane.

Enquanto faz seu “processo de seleção”, encontra vários tipos esquisitos, que vão sendo apresentados por um senhor ainda mais estranho.

Depois que Pat (e não Parker) consegue reunir alguns homens, eles começam a viagem. E no caminho enfrentarão diversos desafios, como índios, assaltantes e estouros da manada.

Positivo/Negativo

Em sua última visita ao Brasil, Ivo Milazzo declarou ao jornal Diário de S.Paulo que a principal diferença entre o personagem do qual é co-criador e o caubói mais famoso da Sergio Bonelli Editore era que “Tex fazia os leitores sonharem e Ken Parker, os fazia pensar”.

Uma definição interessantíssima, pois Ken Parker é mesmo um personagem de westerndiferente da imensa maioria – o único que talvez se enquadre na mesma categoria que ele é Blueberry, de Jean-Michel Charlier e Jean Giraud. Suas histórias são permeadas muito mais de humanidade do que de ação, mesmo que esta última jamais falte.

Esta edição comprova isso. Trata-se de um clássico do personagem, que começa de modo pra lá de inusitado. No saloon (cujo nome, apropriadíssimo, é Heroe’s rest ou, em português, Repouso do Herói), o homem que conversa com Ken Parker é simplesmente Giancarlo Berardi, que diz: “há anos ganho a vida escrevendo a história do Oeste e já conheço a todos um pouco…”. E é nesses “todos” que está o charme da primeira parte desta história.

Em Homens, animais e heróis, o autor faz uma homenagem inesquecível ao gênero. Os tipos que aparecem no saloon são personagens famosos, que entram e saem da trama rapidamente.

Participam da aventura: Kit Carson (o personagem inspirado no verdadeiro dono do nome), Cisco Kid, Pancho, Pecos Bill, Sargento Kirk, Sunday, Mortimer, Tex, Kit Carson (o parceiro de Tex), Kit Willer, Jack Tigre, Cocco Bill, Rick O’Shay, Rocky Rider, Comanche, Randall, Capitão Miki, Tim Carter, Kit Teller, Kit Hodgkin, Zagor, Larry Yuma, Black Bill, Lucky Luke e Blueberry. Além deles, dão as caras Sergio Bonelli e Decio Canzio (responsáveis na época por controlar os prazos da editora), Bill Adams (personagem de História do Oeste (Epopéia-TRI), enteado de Pat MacDonald, o patriarca da família presente em todo o arco da saga), o ator Matt Dillon e o desenhista Ivo Milazzo. Aliás, ele e o próprio Berardi se retratam como malucos.

Durante as homenagens, Berardi vai soltando, pela boca de Ken Parker, comentários sobre os métodos e as vestimentas de cada um. A melhor é a “cutucada” em Tex, que espanca o cozinheiro folgado que não queria lhe servir bifes: “No lugar deles, eu teria pulado a refeição”. Com certeza. A cena serve para acentuar as diferenças entre os dois clássicos personagens.

A partir da segunda parte da aventura, quando a maioria das homenagens já foi feita, surgem outros pontos que mostram o quão diverso é Ken Parker. Ele despacha o xerife local, dizendo não ter visto um bandido perigoso que estava sendo caçado. O homem em questão era um dos vaqueiros que o ajudavam.

Em outro momento, quando o negro George é morto pelo estouro das vacas, Ken Parker não esconde sua dor. Que outro personagem de western faria isso por alguém que acabara de conhecer?

A história traz ainda dois momentos importantes na trajetória do herói. É nela que Ken Parker recebe, pelo correio, o seu rifle Kentucky, do qual havia se separado na edição # 9. E, no final, após chegar ao seu destino, o protagonista se separa da irrequieta Pat O’Shane, a garota que o acompanhava havia algumas aventuras. O momento da despedida é emocionante.

Na arte, Milazzo dá um banho de narrativa e de contraste de luzes e sombras. O seu traço econômico e preciso é um exemplo perfeito de que, muitas vezes, “menos é mais”. E sua habilidade em retratar expressões faciais também merece destaque. É quase possível “sentir” o que os personagens passam.

Quanto à edição, foi um trabalho impecável Tapejara, sempre sob a batuta do editor Wagner Augusto. A edição brasileira de Homens, animais e heróis ainda corrigiu um erro que havia saído até na Itália. Na época, a página 39 da história foi publicada com o fotolito invertido. Assim, o (pouco) texto que nela havia saiu como se estivesse sendo mostrado num espelho.

Ken Parker é um dos grandes personagens dos quadrinhos mundiais. Infelizmente, não tem tantos fãs quanto alguns de seus pares. No Brasil, num dos projetos editoriais mais valorosos das últimas décadas, a Tapejara publicou as 59 edições do personagem em formato álbum, com tiragens reduzidas e um belo acabamento gráfico. Sorte dos felizardos que as têm na estante, pois algumas histórias são verdadeiros clássicos. Esta é uma delas. Para ler e reler. Várias vezes.

* Agradecimento ao amigo e leitor Júlio Schneider pela valiosa contribuição.

Classificação

5,0

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