Kill Your Boyfriend

Por Eduardo Nasi
Data: 21 dezembro, 2005
MATERIAL IMPORTADO

 

Kill Your BoyfriendEditora: DC Comics – Edição especial

Autores: Grant Morrison (texto), Philip Bond (arte), D’Israeli e Bond (arte-final).

Preço: US$ 4,95

Número de páginas: 60

Data de lançamento: Junho de 1995

Sinopse

Uma garota entendiada. Um cara sem rumo. Quando os dois se encontram, dividem uns goles de água e decidem dar um jeito na chatice da vidinha dela, a começar pelo totem de caretice que é seu namorado, um gordinho que prefere se masturbar diante de filmes pornôs a desvirginar a mocinha.

Depois de assassinar o garoto, os dois partem para uma aventura que envolve transformismo, drogas, bissexualismo, música eletrônica, pop art, assaltos, suicídio e infanticídio.

Positivo/Negativo

Página 10: um cara oferece vodka a uma garota. É a primeira vez que eles conversam.

– Não, eu não bebo – ela responde.

– Quer começar? – o cara revida.

Página 11: eles conversam, ela reclama da vida. Ele diz que a garota está entediada e dá a solução:

– Vamos matar seu namorado.

As duas páginas estão entre as melhores que os quadrinhos norte-americanos produziram nos anos 90 – e repare que seus autores são britânicos. Nesse período, a Grã-Bretanha foi o celeiro das boas HQs que saíram nos Estados Unidos. E se Neil Gaiman e Alan Moore já tinham conquistado espaço cativo de devoção de seus leitores, Grant Morrison estava no caminho.

No seu currículo, o Batman perturbado e perturbador de Asilo Arkham e duas inebriantes revitalizações: Homem-Animal e Patrulha do Destino. E, no meio de trabalhos menores, obras admiráveis como Flex Mentallo, Sebastian O, Aztek.

Nada de X-Men, Liga da Justiça, Invisíveis, WE3 ou Superman. Ele ainda não era um popstar.Vertigo Voices, a coleção que publicou Kill Your Boyfriend, era um lado B dentro do lado B daDC Comics, o selo cult Vertigo. Na coleção, alguns autores foram convidados a desenvolver histórias ainda mais pessoais.

E foi nesse contexto que KYB saiu. Só assim dá para entender como essa história não aparece citada entre as melhores da década passada.

Mais do que um marco para os quadrinhos, ela merece espaço no hall da cultura pop. Foi produzida simultaneamente com os filmes Natural Born Killers e Pulp Fiction, e transita no mesmo universo.

Mais que coincidência, o dado mostra um reflexo do espírito daqueles tempos nas três obras. E, por vezes, esta HQ é mais radical: correndo o risco de estragar uma das grandes surpresas da história, os dois personagens, embora não saibam, são irmãos, o que transforma os ares de fraternidade em um perturbador incesto.

O ritmo é doentio, os coadjuvantes são deliciosos, o desenho de Bond é impecável, mas é nas frases e nos diálogos de Morrison que estão os grandes momentos. Tudo que é dito é imediato, espontâneo e decisivo – o que acabou rendendo um delicioso site de citações randômicas na internet.

A importância do texto foi o que acabou matando a versão nacional da história, publicada em 1999 pela Tudo em Quadrinhos, rebatizada como Como Matar seu Namorado. A tradução não segura a obra, que perdeu o brilho. Definitivamente é outra coisa. Visualmente parecida (embora com cores desbotadas e letras bem tortas), mas está longe de ter a força do original em inglês.

A começar, repare no título: em inglês, é direto, como um soco – “Mate Seu Namorado”. Em português, ganhou ares de manual, o que é exatamente o oposto do que a HQ recomenda: se você quer fazer, vá lá e faça.

Classificação

5,0

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