KOKO BE GOOD

Por Zé Oliboni
Data: 1 dezembro, 2011

KOKO BE GOOD

Editora: Leya / Barba Negra – Edição especial

Autor: Jen Wang (texto e arte).

Preço: R$ 29,90

Número de páginas: 304

Data de lançamento: Setembro de 2011

 

Sinopse

Jon, recém-formado, músico, tímido e desajeitado aos vinte e poucos anos, se prepara para deixar toda sua vida para trás e seguir sua namorada Emily, que se mudou para o Peru.

Semanas antes de se mudar, ele conhece Koko, uma garota que vive uma vida caótica e sem rumo e que, repentinamente, decide ser boa, mesmo sem saber exatamente o que é isso.

Positivo/Negativo

Lendo a sinopse, o título e a capa do álbum, pode parecer que esta é mais uma história de amor hollywoodiana, na qual uma garota perdida que quer mudar de vida encontra um rapaz também sem rumo e os dois se apaixonam.

Tudo aponta pra isso, mas não é isso que o leitor encontra.

A garota do título e da capa, Koko, é a coadjuvante de Jon, o verdadeiro protagonista. E esta não é uma grande história de amor, mas sim sobre o fim da juventude e as decisões que levam para a vida adulta.

O tema é antigo, já faz parte de livros, filmes e músicas há anos e, recentemente, vem sendo retomado com certa frequência nos quadrinhos publicados no Brasil.

Só para citar alguns: Mundo Fantasma, Scott Pilgrim, Cicatrizes e Retalhos. Certos álbuns começam a história logo na infância dos personagens; outros, como Koko, se centram no ponto de mudança.

O ponto em comum dessas histórias são personagens à deriva em suas próprias vidas, procurando algo que eles mesmos não sabem o que é.

Isso, inclusive, é o que une os três personagens de Koko be good. Jon, Koko e Faron têm idades, formações e criações bem diferentes; os três viveram histórias com algum tipo de abuso e abandono (em proporções bem diferentes: Jon era envergonhado por seu professor por ser alto e desajeitado, enquanto Faron vivia em um ambiente de violência doméstica); e, no momento que a história deles se tangencia, estão procurando alguma mudança em sua vida.

Koko, uma garota das ruas, que vive de favores e pequenos golpes, decide – como é dito no título – ser uma boa pessoa. Faron é quieto, introspectivo, trabalha para a família e quer ficar fora de encrencas. Já Jon, que ocupa a maior parte da trama, não tem problemas tão sérios. Na verdade, posto em perspectiva perto dos outros, ele nem poderia considerar sua vida dramática.

O interessante da história, e o que justifica a existência dos outros dois personagens, é que o drama de Jon, por mais que possa ser classificado como um “pequeno problema burguês” é muito real.

Jon pertence a essa parcela das atuais microgerações que arrastam sua adolescência até quase 30 anos. Assim, mesmo após terminar a faculdade e ensaiar sua entrada no mercado de trabalho, ele ainda não enxerga um rumo para a sua vida e se apega à figura materna de Emily, uma namorada dez anos mais velha.

Essa relação estranha a que ele se prende cegamente, a ponto de esquecer os próprios sonhos e optar por se mudar para um país distante com ela, é muito bem sintetizada na sequência das páginas 208 a 211, quando ela corta maternalmente o cabelo dele.

Todo esse conceito combinado com uma arte bela, suave e muito fluida de Jen Wang tornam Koko be good uma ótima leitura.

Vale notar as linhas de construção – traços em azul que “sobram” em alguns desenhos -, ou mesmo os pontos que o papel enruga com a pintura aguada do fundo, “defeitos” que poderiam facilmente ser removidas no processo de digitalização da HQ, mas que foram mantidos e fazem sentido para a atmosfera de incompletude e imperfeição da trama.

Esse não é o melhor álbum dessa temática, ou mesmo dessa safra. Isso porque a HQ de estreia de Jen Wang – conhecida por seus trabalhos de ilustração e webcomics – peca quando se olha a história como um todo.

Koko e Faron funcionam para dar ritmo, criar algumas metáforas e pontos de reflexão na trama. Ela é quem garante que a HQ não seja monótona e nem melancólica em excesso. Ele tem um interessante “aparte”, quando é contada, em um estilo de arte diferente, a história da sua infância.

Contudo, as histórias deles estão penduradas na de Jon e acabam ficando incompletas. Principalmente no final, quando Wang tenta amarrar melhor a ponta solta que é Faron, tudo fica meio confuso.

Talvez tenha faltado para a autora dosar mais o quanto de história iria enfocar em cada um. Assim, talvez, pudesse dar mais destaque para Koko, que, apesar de ser uma personagem forte e expressiva, se tornou mera coadjuvante. Justamente da HQ que leva seu nome.

Classificação:

4,0

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