Kong – The King

Por Milena Azevedo
Data: 20 outubro, 2017

Kong – The KingEditora: Kingpin Books – Edição especial

Autor: Osvaldo Medina (roteiro e arte).

Preço: 14,99

Número de páginas: 144

Data de lançamento: Outubro de 2015

Sinopse

Uma pequena equipe de cinema ruma para uma ilha deserta e remota, na década de 1920. Lá, descobre um misterioso nativo de coração puro. Levado de livre e espontânea vontade para Nova York, ele descobrirá rapidamente que há uma fronteira muito tênue entre a fama e a glória que lhe foram prometidas e o circo midiático do mundo do entretenimento, no qual foi atirado.

Positivo/Negativo

Desde os primórdios do Século 20, o exotismo das antigas culturas autóctones, das Américas, da África, do Extremo Oriente ou da Oceania, tem sido explorado pela mídia, ganhando ainda mais força com as produções cinematográficas.

Muitos dos vestígios de estranhas espécies animais, civilizações “perdidas” e seus costumes, trazidos à tona por paleontólogos, arqueólogos e antropólogos, tinham na imaginação de escritores, roteiristas e cineastas licenças poéticas das mais diversas.

Assim, a história imaginada por Merian C. Cooper e Edgar Wallace – cujo romance foi escrito por Delos W. Lovelace, devido ao precoce falecimento de Wallace –, no início dos anos 1930, de um gorila gigante, adorado como Deus pelos autóctones da Ilha da Caveira, e que cai de amores por uma mulher branca, foi tão icônica que ainda permanece viva nos corações dos mais distraídos habitantes da Terra.

De sua primeira apresentação na telona, em 1933, King Kong ganhou versões e releituras, ora fiéis, ora bastante singulares, no cinema, na TV, na literatura pulp, nos quadrinhos e nos videogames.

Uma delas é Kong – The King, álbum de quadrinhos feito pelo angolano Osvaldo Medina e publicado pela editora portuguesa Kingpin Books, em 2015.

Primeiro trabalho autoral de Medina, Kong – The King faz referência à película de 1933, em suas páginas iniciais. No entanto, trilha um caminho novo ao mostrar o protagonista não como um gorilão, mas, sim, um nativo agigantado, extremamente forte e inocente, amenizando a conotação de “a bela e a fera”, tão característica da trama original. Sem falar que o ponto de virada do final é supimpa.

Como não há hostilidade no contato com o nativo, o diretor da pequena equipe nova-iorquina que está usando a Ilha da Caveira como locação, espertamente convence Kong a seguir viagem com eles, para colher os frutos da fama.

Na Big Apple, Kong é vendido a um ganancioso produtor, que usa e abusa de sua imagem em matérias sensacionalistas, campanhas publicitárias e filmes de faroeste, artes marciais e aventura, lucrando horrores, pois era o dono da atração do momento.

Mesmo sem entender a cabeça das pessoas da “selva de pedra”, Kong vai fazendo as coisas conforme o combinado, e fica feliz ao reencontrar a sua atriz adorada (a única que se importa verdadeiramente com ele). Porém, ao sacar que fora manipulado, se revolta, externando o sentimento de “não pertencimento” àquela civilização de aparências e de consumo exagerado.

A história é contada apenas com narrativa visual (sem texto algum), em tons de sépia, prestando uma homenagem ao cinema mudo dos anos 1920, pegando carona na teoria do “bom selvagem”, de Russeau, e tecendo também uma crítica ao Circo de Horrores, que explorava “o diferente” de forma desumana.

Medina optou por criar personagens caricatos, vivenciando situações clichês, e isso tornou seu Kong uma antítese de todos eles: um ser ingênuo, doce, autêntico, lembrando um caipira perdido na artificialidade das relações da metrópole, sem o menor interesse em ser aceito por ela. E quanto mais é levado a se entorpecer por lá, mais o desejo de regresso aos seus fica evidente.

O know-how de Medina com animação fez com que seu traço cartunesco ganhasse leveza e movimento, tornando a composição das páginas ágil e precisa, dosando bem a mistura entre aventura, humor e drama.

A Kingpin Books caprichou na edição (impressa na Polônia), investindo em capa dura, papel fosco de alta gramatura e uma seção trazendo algumas páginas de esboços.

Kong – The King ficou entre os cinco finalistas do prêmio de Melhor Álbum Português, do Prémio Nacional de Banda Desenhada de 2016, promovido pelo Festival de Amadora. E, no mesmo concurso, Medina faturou o prêmio de Melhor Desenhista pela obra em questão.

Classificação:

4,0

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