KRIPTA # 1

Por Adilson Thieghi
Data: 1 dezembro, 2008


Autores: Drácula: Bill DuBay (roteiro) e Tom Sutton (arte);

A doença lunar: Doug Moench (roteiro) e Vicente Alcazar (arte)

A espera: Sanho Kim (roteiro e arte)

Satana, a filha de Satã: Doug Moench (roteiro) e Ramon Torrents (arte)

O apocalipse – A guerra: Budd Lewis (roteiro) e José Ortiz (arte)

Preço: Cr$ 5,00

Número de páginas: 64

Data de lançamento: Outubro de 1976

Sinopse: Drácula – O Senhor dos Vampiros deve pagar um preço por toda maldade que causou. Mas nada ou ninguém consegue rivalizar Drácula.

A doença lunar – Uma guerra nuclear na lua provoca graves conseqüências na Terra: um vírus terrivel que deixa as pessoas selvagens e sem controle. Os poucos que escaparam tentam sobreviver e encontrar um antídoto.

A espera – Os últimos dias de um condenado à morte. Qual será o destino final?

Satana, a filha de Satã – Tudo tem uma origem. E a filha de Satã dará início ao primeiro vampiro.

O apocalipse – A guerra – Um bizarro jogo de xadrez traça um paralelo com a guerra no mundo dos homens.

Positivo/Negativo: Em 1976, a RGE (atual Editora Globo) colocou nas bancas uma revista de terror de qualidade inquestionável: Kripta. Sua série original teve 60 edições, no formato 24 x 17 cm até o número 26, passando então para o formatinho e seguindo assim até o final.

Um dos seus grandes méritos foi apresentar diversos quadrinhistas não só norte-americanos, mas de outras nacionalidades (como Esteban Maroto, José Ortiz, Alfredo Alcala). Muitos aportaram em terras brasileiras somente nesta revista, outros voltariam a aparecer muito tempo depois em HQs de super-heróis ou européias.

Esta primeira edição veio acompanhada por um editorial informando os leitores, entre outras coisas, sobre o início da publicação dos quadrinhos de terror nos Estados Unidos, na década de 1950.

No entanto, o surgimento do Código de Ética e a perseguição aos quadrinhos atingiria fortemente este gênero de HQs.

Com o surgimento da revista Famous Monsters of Filmland, em 1958, que trazia reportagens e histórias de filmes de terror, James Warren (da Warren Publishing Co.), tentou “driblar” o Código. Das mãos do mesmo editor, veio a publicação de Monster World, em 1964, que trazia a quadrinização do filme A Múmia (de 1931). Finalmente, ele lançaria as revistas Creepy e Eerie em 1965. A Kripta iniciou sua publicação com histórias desta última.

Quanto às aventuras aqui apresentadas, em Drácula, faltou alguma explicação que poderia ter sido colocada no próprio editorial: a trama começa com o vampiro sendo levado pela entidade conhecida como Exorcista para um lugar decadente, como castigo pelo mal que tanto causou.

E ainda que os desenhos de Tom Sutton ajudem a criar um clima lúgubre, é a história mais fraca da edição.

Já com A doença lunar, o prolífico Doug Moench (Batman, Mestre do Kung Fu) acertou a mão: a trama é similar aos populares filmes de zumbis, com uma doença que leva à loucura os seres humanos infectados, e os poucos que escapam têm que lugar para sobreviver. O problema é que o preto-e-branco da HQ está “desbotado” demais, atrapalhando a leitura em algumas páginas.

A espera traz a aflição pela qual passa um condenado à morte, numa história interessante, mas com desenhos apenas razoáveis.

Gênese da perversão mostra uma nova e interessante origem para a linhagem de Drácula, numa HQ bacana e belamente ilustrada.

Finalmente, O apocalipse – A guerra é uma pequena pérola dos quadrinhos de horror. Com arte do competente José Ortiz, dois homens jogam xadrez enquanto fazem um paralelo com o surgimento da guerra entre os homens e suas conseqüências.

Para o roteirista Budd Lewis, tudo é um jogo cuja única alternativa para a paz é a aniquilação total, ainda que as imagens do penúltimo quadro, ao contrário do texto, deixem escapar uma ponta de esperança.

Escreve Lewis sobre a guerra: “Como seres racionais, desprezamos a guerra. Como homens de negócios, nós a tememos. Como homens de religião e boa vontade, a repudiamos. E, como artistas, nós a amamos”.

Essa é outra característica presente praticamente em todas as histórias publicadas na Kripta: muito, muito texto. Recordatórios e diálogos longos, que fazem de sua leitura uma experiência intensa. Não só isso – a liberdade criativa dos roteiros somava-se à arte, que fugia – e bastante – ao estilo dos quadrinhos tradicionais até então publicados no Brasil.

Três criadores se destacam neste primeiro número: os roteiristas Budd Lewis e Doug Moench e José Ortiz (Mágico Vento), grande mestre do preto-e-branco nos quadrinhos, com sua arte precisa e melancólica.

Apesar de este número # 1 não trazer ainda o melhor da revista, dava uma boa amostra do que estava por vir. Uma coleção em que cada edição merece ser conhecida ou revisitada.

Vale citar também as belíssimas capas, sendo que nesta edição a arte é de Walmir Amaral, cujo desenho era presença constante na RGE, em especial na década de 1970.

Com Kripta, qualquer dia é sexta-feira, qualquer hora é meia-noite” era o slogan de sucesso da revista.

E, para quem não lembra ou não tinha idade para acompanhar, diversas publicações concorrentes que surgiram após a Kripta acusaram-na de ser a “revista dos enlatados”. Pura maldade.

Classificação:

4,0

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