Lazarus – Um

Por Audaci Junior
Data: 25 maio, 2018

Lazarus – UmEditora: Devir – Edição especial

Autores: Greg Rucka (roteiro), Michael Lark com Stefano Galdiano e Brian Level (arte) e Santi Arcas (cores) – Originalmente publicado em Lazarus # 1 a # 4 (tradução de Kleber de Sousa).

Preço: R$ 39,90 (capa cartonada) e R$ 54,90 (capa dura)

Número de páginas: 104

Data de lançamento: Maio de 2018

Sinopse

O mundo agora está dividido não em fronteiras políticas ou geográficas, mas em fronteiras econômicas. Riqueza é poder, e ele está nas mãos de apenas um punhado de Famílias. Os poucos que fornecem serviços para a Família no poder estão protegidos. Todos os outros são Refugos.

Em cada Família, há uma pessoa que recebe o melhor que se pode oferecer em treinamento, tecnologia, recursos e qualquer vantagem científica. Essa pessoa é chamada de escudo e espada da Família, seu protetor, seu Lazarus.

Na Família Carlyle, a Lazarus se chama Forever. Este é o início da sua história.

Positivo/Negativo

União Europeia, Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (a Apec), Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta), Mercosul e o Pacto Andino. Vários exemplos oriundos da globalização, cuja tendência comercial mundial é a formação de blocos econômicos.

Com base nesse conceito, o roteirista Greg Rucka desintegrou fronteiras para fazer seu futuro distópico, no qual famílias – divididas como espécies de reinos – possuem controle sobre tudo que existe no mundo.

Parece simples, mas em Lazarus não se entrega tudo de bandeja. O leitor vai descobrindo as castas (os excluídos Refugos e os obedientes e qualificados Servos, por exemplo) no decorrer da trama. Rucka não tem pressa.

Por isso, como não existe sistema perfeito, o primeiro conflito que testemunhado é o entre os Carlyle – situados onde era a Costa Oeste norte-americana – e os Morray – localizados no México.

O autor chegou a descrever a saga (ainda em desenvolvimento lá fora) como um Poderoso Chefão futurista, referindo-se ao famoso romance sobre a máfia siciliana e a Cosa Nostra norte-americana, escrito por Mario Puzo (1920-1999) e que rendeu a premiada trilogia cinematográfica de Francis Ford Coppola.

Independentemente da curiosidade para desbravar esse universo, algo que não é economizado na série é a ação. Logo de cara, descobre-se um pouco mais das habilidades e limitações dos Lazarus, algo próximo de um guarda-costas definitivo ou um Capo, cargo de importância elevada na hierarquia de uma família mafiosa.

Para garantir a “ressurreição”, como implica sua alcunha bíblica descrita no Evangelho segundo João, implantes de aprimoramento tecnológico e reforço genético são realizados no corpo desses protetores do status quo.

Com conspirações, conflitos e segredos dentro das próprias famílias, o título é conduzido com a habilidade herdada dos romances policiais nos quais Rucka ganhou fama. A ficção científica tem um pé na realidade econômica e política, mas também é conduzida como uma eficiente trama hollywoodiana.

Tanto que, em 2017, a Legendary Pictures e o produtor Matt Tolmach (o mesmo dos últimos filmes do Homem-Aranha) adquiriram os direitos para realizar um seriado para um canal de streaming. Até agora, o projeto não saiu do papel.

Sem dizer muito, o roteiro arma bem as peças no tabuleiro, principalmente com o núcleo do patriarcado do Carlyle e filhos. Forever, a Lazarus desse clã, é colocada à prova para executar sua função, mesmo que interprete como erradas algumas ações. Mais Hollywood que isso, impossível.

Por ser “espada e escudo”, ela é uma verdadeira “máquina de matar”, ao mesmo tempo em que tem emoções reprimidas, controladas e distanciadas, inclusive com relação aos outros irmãos da família.

Essa característica de não conseguir uma “conexão” com as pessoas ao seu redor já gera uma cautela sobre as relações dos personagens e o sistema em si, como também estabelece uma empatia pela solitária Forever.

São nos detalhes que se percebe a sua construção: como ela se sente em fazer seu papel de Lazarus ou o que realmente significa a Família – nome deste primeiro arco – na amplitude da palavra.

O que resta é a curiosidade para saber como o autor vai conduzir a origem da protagonista, bem como responder uma série de “lacunas” na nova ordem mundial, arregimentada em blocos econômicos, porém com ares de regime feudal.

Outra possibilidade que pode ser abordada é o descaso com a casta menos favorecida. Após um terremoto que devastou Los Angeles, é mostrado o descaso do governo dos Carlyle. Aparentemente, a brutal sequência inicial é também o resultado desse abandono.

Com suas linhas grossas e figuras cheias de sombras, Michael Lark (em alguns capítulos ajudado por Stefano Galdiano e Brian Level) realça mais essa pegada de cinema na série. Graficamente violento, Lazarus é forte candidato a ser um dos trabalhos mais bonitos de Lark, que já foi parceiro de Rucka em Gotham DPGC, lançado aqui pela Panini.

As cores regidas por Santi Arcas também conduzem com equidade a narrativa, deixando algumas cenas mais sombrias, frias ou abrasadoras, vide as passagens noturnas ou desérticas, respectivamente.

Publicada pela Image Comics desde 2013, Lazarus foi indicada ao Eisner Awards de Melhor Nova Série. Perdeu para Criminosos do Sexo, de Matt Fraction e Chip Zdarsky, também publicada pela Image lá fora e pela Devir no Brasil.

A edição nacional tem duas versões (capa dura e capa cartonada sem orelhas), aplique de verniz, formato 17 x 26 cm e papel couché de excelente gramatura e impressão. Não há nenhum material extra neste primeiro volume. Na verdade, existe um prelúdio de quatro páginas publicado originalmente como parte da divulgação do título.

Lazarus não mostrou totalmente a que veio neste volume inaugural, mas, pela pequena amostra, o trio Rucka, Lark e Arcas promete uma viagem recheada de intrigas, mistérios, traições e muita ação. No aguardo para o próximo arco.

Classificação:

4,0

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  • Pedro Ivo Dantas

    Uma das melhores, se não a melhor série publicada atualmente. Pra quem curte tramas de intriga familiar (a comparação com O Poderoso Chefão não é gratuita), scifi pesado, com doses generosas de distopia política, é um prato cheio. O roteiro do Rucka é muito bem pesquisado, denso. Não sei se saiu na edição brasileira, mas as edições gringas sempre trazem bastante backmaterial com cartas, artigos, indicação de links, com o Rucka sempre comentando sua visão sobre o desenrolar do cenário internacional (ele não está nada feliz com a política americana no momento, pra dizer o mínimo). E a arte do Lark é um deleite de se ver, uma narrativa muito segura e com ótimas cenas de ação.
    A medida que a série se desenrola e vamos aprendendo sobre as outras famílias e o estado geral do mundo é difícil não pensar que isso pode realmente acontecer, que estamos a poucos passos do mundo de Lazarus – e essa inquietação, essa sensação de inevitabilidade, é a grande força por trás da série.