Les Dingodossiers – L’Intégrale

Por Pedro Bouça
Data: 18 fevereiro, 2011

Les Dingodossiers - L'IntégraleEditora: Dargaud – Edição especial

Autores: René Goscinny (roteiro) e Marcel Gotlib (desenho).

Preço: € 39,00

Número de páginas: 280

Data de lançamento: Outubro de 2005

Sinopse

Compilação em um único volume de uma série de histórias curtas (de uma a seis páginas, normalmente duas) humorísticas baseadas em elementos do cotidiano.

Positivo/Negativo

René Goscinny é o escritor de quadrinhos de maior sucesso do mundo. Suas HQs mais famosas, como Asterix e Lucky Luke, são publicadas nos quatro cantos da Terra, geralmente com bastante êxito. No entanto, boa parte de sua obra ainda é pouco conhecida, especialmente fora da França. Esta série em particular é provavelmente a mais significativa das “desconhecidas”.

Desenhada por um então iniciante Marcel Gotlib, que mais tarde tornar-se-ia bastante famoso por mérito próprio, Les Dingodossiers é um trabalho claramente inspirado na contemporâneaMad, muito admirada por ambos os autores (Goscinny trabalhara com o fundador da revista, Harvey Kurtzman, durante sua curta estada nos Estados Unidos e Gotlib seria, mais tarde, responsável pela primeira tradução francesa da fase de Kurtzman na publicação).

A influência é particularmente sentida na densidade de texto (bastante alta, mesmo para padrões franco-belgas) e na escolha de temas cotidianos. Telefones, dublagem de filmes, férias, professores, tudo é alvo para o humor afiado de Goscinny e Gotlib.

Infelizmente, isso é também o ponto fraco da série. Criada em meados dos anos 60 (antes dos eventos de maio de 1968, que provocaram uma revolução tanto nos costumes quanto nos quadrinhos franceses), lida com um cotidiano já muito distante, quase alienígena para os leitores modernos, em que não existe internet, telefones celulares, câmeras digitais ou até calculadoras!

Isso para não falar nas numerosas referências à revista Pilote (na qual a série era publicada), extinta há décadas. Para uma série que se propunha mostrar o dia a dia, esse envelhecimento é um problema.

No entanto, ele é contrabalançado pelo humor atemporal de Goscinny, sempre inspirado. Muito dele é bastante francês e praticamente intraduzível (problema que afeta também outros trabalhos do autor), mas a universalidade dos temas ajuda a mitigar o problema.

Ainda assim, é recomendável que o leitor leia no original e possua algum conhecimento da cultura francesa para apreciar a obra ao máximo. Isso explica sua obscuridade fora de terras gaulesas…

Outro problema está na organização da obra. A edição intégrale é uma compilação dos três álbuns da série, aumentada por diversas páginas inéditas em álbum. E o motivo dessas páginas não terem sido publicadas antes é bem simples: elas não são grande coisa!

Gotlib ainda estava descobrindo seu estilo quando começou a desenhar a série. Lida em ordem cronológica, ela permitiria ver sua evolução, inspirado em desenhistas como Mort Drucker, que ele utilizaria posteriormente. Mas os álbuns foram publicados em uma ordem quase aleatória. Possivelmente qualitativa, uma vez que as histórias presentes no primeiro são, em sua maioria, superiores às dos dois seguintes – e estas melhores que o material inédito.

Nas primeiras histórias (ironicamente localizadas mais para o final da edição), a arte de Gotlib é apenas funcional e não consegue mesmo nível de humor visual que demonstraria mais tarde em seu material solo.

No fim das contas, portanto, um leitor ocasional faria melhor em comprar apenas o primeiro álbum da série em vez desta compilação (que, ademais, está esgotada há anos). Da mesma forma, um hipotético editor estrangeiro precisaria fazer uma rigorosa seleção do material antes da publicação, em vez de simplesmente traduzi-lo por inteiro.

No entanto, o material mais inspirado, como a história que mostra os personagens de quadrinhos estrangeiros fazendo turismo em Paris, ainda é muito engraçado, o que justifica a nota.

Fisicamente, a edição é impecável, como é habitual nas publicações francesas. Uma longa introdução biográfica dos dois autores ajuda a contextualizar a obra e as capas, páginas de rosto e até as de guarda são reproduzidas nesta compilação que faz jus ao termo “integral”.

Classificação

4,0

Pedro “Hunter” Bouça é tradutor de obras como XIII e Eu sou Legião e colaborador do Omelete

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