Life, in pictures – Vida, em quadrinhos

Por Audaci Junior
Data: 28 fevereiro, 2014

Life, in pictures – Vida, em quadrinhosEditora: Criativo – Edição especial

Autor: Will Eisner (roteiro e desenhos) – Originalmente em Life, in pictures: Autobiographical stories (tradução de Iuri Ribeiro).

Preço: R$ 99,00

Número de páginas: 500

Data de lançamento: Janeiro de 2014

Sinopse

Série de crônicas em quadrinhos baseadas ou inspiradas na vida, casos e pessoas que rodeavam Will Eisner.

Positivo/Negativo

Um dos grandes nomes da indústria da arte sequencial, Will Eisner (1917-2005) deixou um imenso legado, tanto do ponto de vista técnico e narrativo, quanto da perspectiva de visão artística do gênero, que até hoje sofre preconceitos de não ser levado a sério por muitos, o velho sofisma “quadrinhos é coisa de criança”.

Ele foi um dos sonhadores que pretendiam elevar as HQs como uma nova forma de arte, além de militar para a profissionalização da categoria nos Estados Unidos nos anos 1930.

Tal qual um documentarista, Eisner se interessava em contar uma história por intermédio das pessoas e do meio onde elas viviam, sempre de maneira clara e objetiva.

O calhamaço em capa dura da Criativo é um apanhado de quatro álbuns: o inédito Crepúsculo em Sunshine City (1986), O sonhador (também de 1986), Ao coração da tempestade (1991) e O nome do jogo (2002), mais uma história curta, O dia em que me tornei profissional (2003), um breve relato em aguada de uma de suas procuras de emprego como quadrinhista, publicado na antologia norte-americana inédita Autobiographix.

Infelizmente, a editora não lista essas características na quarta capa, o que ajudaria o leitor a tomar a decisão de adquirir a edição ou não em virtude do seu conteúdo, visto que três álbuns que tomam boa parte das 500 páginas do volume já foram lançados no Brasil.

Crepúsculo em Sunshine City é a primeira graphic novel – ou romance gráfico, termo cunhado por Eisner desde o lançamento de Um contrato com Deus (1978) – de Life, in pictures. Justificando a característica autobiográfica da coletânea, o autor se vale de um personagem fictício para narrar sua mudança da “selva de pedra” de Nova York para a ensolarada orla marítima da Flórida.

Assim como uma de suas obras mais viscerais, Nova York – A grande cidade (lançada no Brasil pela Martins Fontes, em 1988, e pela Quadrinhos na Cia., na coletânea Nova York – A vida na grande cidade, em 2009), Eisner alicerça as memórias do protagonista na infraestrutura da cidade, uma marca registrada do mestre.

Passeando pela última vez pelas ruas nova-iorquinas, as reminiscências do personagem aparecem associadas ao poste, bueiro, sarjeta, hidrante e tantos outros elementos urbanos.

Na segunda parte da história, Will Eisner coloca os personagens em conflitos familiares com ironia e resignação, outro denominador comum na sua obra.

A HQ seguinte é O sonhador, publicada anteriormente no Brasil pela Devir, em 2007. Aqui, a formação e os bastidores da indústria dos quadrinhos nos Estados Unidos são destrinchados.

Eisner optou por uma “autobiografia ficcional”, trocando os nomes dos envolvidos. No final da história, há notas do editor original Dennis Kitchen, uma lenda do mercado norte-americano, nas quais são revelados os nomes verdadeiros de edições, personagens e artistas como o criador do Batman Bob Kane, um baixinho e enfezado Jack “King” Kirby, Lou Fine, desenhista que o substituiu nos seus trabalhos quando foi servir na Segunda Guerra Mundial, e Max Gaines, o grande editor da EC Comics usado como bode expiatório na caça às bruxas do Macartismo, dentre outros.

Junto com O sonhador, a veia mais autobiográfica se mostra em Ao coração da tempestade, um apanhado de três gerações do quadrinhista que conta com sua “memória intuitiva”.

Um jovem recruta Eisner relembra as histórias de sua vida e da sua família pela janela do trem que o leva para se juntar ao seu batalhão durante a Segunda Guerra Mundial, época em se dedicou à produção de quadrinhos com conteúdo educativo para a revista Army motors.

Novamente, o autor faz a associação imagética utilizando o requadro da janela como conexão com o passado: o crescimento do garoto judeu Will em meio à intolerância nos Estados Unidos no começo do Século 20, a vida de seus avós no final da Era Vitoriana e a trajetória do seu pai, que passou de um aspirante a artista a um homem de negócios fracassado em plena Depressão.

Eisner não poupa nem os próprios judeus, que também tinham preconceitos com outros do seu próprio povo, porém oriundos de outras regiões do globo. Seu pai era um judeu com lábia, que não entrava em uma briga e mostrava o gene de sonhador herdado pelo filho e criticado pela mãe.

Muitas dessas passagens mais detalhadas podem ser encontradas no livro Will Eisner – Um sonhador nos quadrinhos (Globo), do biógrafo Michael Schumacher.

Essa história foi lançada sob o título No coração da tempestade pela Abril Jovem, em 1996, dividida em duas partes e, no mesmo ano, em um encadernado numerado e em capa dura com autógrafo do autor. Em 2010, a Quadrinhos na Cia. a republicou como Ao coração da tempestade, tradução mais próxima do original, To the heart of the storm.

O nome do jogo é inspirado na família de sua esposa, Ann. A saga de um clã de imigrantes durante quase um século, mostrando quatro gerações em luta com problemas econômicos, traições e desavenças conjugais.

O autor escancara a poderosa elite judia, separada dos influentes americanos brancos protestantes de origem anglo-saxã. Um mundo de joguetes comerciais e de queda de braço do poder, em que a única maneira de ingressar é pelo matrimônio.

De acordo com a introdução de Dennis Kitchen, bem no início de Life, in pictures, o artista faz um exercício de possibilidades no enredo, focado em um jovem poeta, alter ego do quadrinhista, que aceita tocar os negócios da família da futura esposa e abandonar a carreira artística.

Assim como O sonhador, esta história ganhou uma edição da Devir, lançada em 2003.

Life, in pictures conta ainda com texto de Scott McCloud (de Desvendando os Quadrinhos), introduções para cada álbum do próprio Eisner e um artigo assinado pelo pesquisador Álvaro de Moya, contando sua relação com o mestre e uma série de curiosidades com o Brasil. Um exemplo é o testemunho de Eisner, que afirmava que o país foi o primeiro a reconhecer seu trabalho fora dos Estados Unidos.

Moya ainda revela, em primeira mão, que a Criativo lançará suas memórias com o criador de The Spirit em um livro intitulado Almanaque de Will Eisner.

A edição é bem cuidada, com papel off-set e impressão em sépia, capa dura com aplique de verniz e formato 21 x 28 cm. A editora poderia tomar mais cuidado com a revisão, pois ao longo das HQs são apresentados vários escorregões, como uma falta constante do uso do vocativo nos textos. Outro problema consiste nos retoques na arte, pois as manchetes dos jornais – quando são traduzidas – não casam com a perspectiva do desenho.

Apesar disso “arranhar” – e feio – o brilho do volume, Life, in pictures é uma obra digna e à altura de um dos autores que mais ajudou as histórias em quadrinhos a serem reconhecidas também como a Nona Arte.

Classificação

5,0

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