Lôcas – Maggie, a Mecânica

Por Audaci Junior
Data: 22 março, 2013

Lôcas - Maggie, a MecânicaEditora: Gal – Edição especial

Autor: Jaime Hernandez (roteiro e arte).

Preço: R$ 39,90

Número de páginas: 144

Data de lançamento: Julho de 2012

Sinopse

As aventuras de Maggie e Hoppey, duas amigas em um mundo maluco, que quase poderia ser o nosso.

Ao mesmo tempo em que têm problemas para conseguir dinheiro e pagar o aluguel, elas ainda convivem com super-heróis desmiolados, romances confusos, dinossauros, irmãos chatos, bilionários mulherengos e foguetes quebrados.

Positivo/Negativo

No começo dos anos 1980, em paralelo aos sucessos dos super-heróis mais realistas e “sombrios”, os irmãos Gilbert e Jaime Hernandez (com ajuda ocasional de Mario, o mais velho) decolavam em meio à herança da contracultura de nomes como Robert Crumb, Gilbert Shelton, Spain Rodriguez e Victor Moscoso com Love & Rockets.

Foi Mario que incentivou os irmãos a juntar as economias e lançar, quase artesanalmente, uma revista produzida pelo trio. Um dos 800 exemplares caiu nas mãos do implacável editor da revista Comic Journal, Gary Groth, que convidou os chicanos para lançar o título de forma mais profissional pela sua editora, a Fantagraphics.

Basicamente, o universo da série se dividia em dois: Palomar (com HQs produzidas por Gilbert assinando como Beto, seu apelido), que conta as crônicas de um vilarejo sul-americano com um pé no realismo fantástico de García Márquez, e Lôcas (com os traços e ideias de Jaime), que acompanhava a cena punk californiana por meio de jovens latinas.

No Brasil, ocasionalmente, o nome de Jaime Hernandez fazia parte da coletânea da antológica revista Animal (VHD Diffusion), um dos escassos oásis do cenário alternativo gringo – norte-americano e europeu – nas bancas dos anos 1980 e 1990.

Em 1991, a série ganhou força com vários álbuns da Record. Foram lançadas quatro edições de Love & Rockets, enquanto Lôcas teve duas, e Crônicas de Palomar recebeu um especial.

Mesmo a editora fazendo propaganda na passageira Revista HQ (antes Jornal HQ, da Palermo), divulgando matérias e ostentando frases elogiosas de nomes respeitáveis como Alan Moore, Moebius e Howard Chaykin, Love & Rockets não passou daquele ano.

Muito tempo depois, a Via Lettera esboçou uma tímida volta do material dos Hernandez com os lançamentos dos álbuns Sopa de Gran Peña (2004) e Pés de pato (2007), mas ficou apenas nisso.

Depois de 30 anos da criação máxima dos californianos, a série volta a ser publicada por aqui pela Gal, com o volume Lôcas – Maggie, a mecânica.

Diversos motivos colocam esses quadrinhos em destaque por ser cativante e fazer legiões de fãs por onde são publicados: as personagens são “gente como a gente” e vivem dramas adornados de paixões, tensões pré-menstruais e gordurinhas a mais, misturando surrealismo, metalinguagem e aventura de ficção científica, formando uma narrativa única.

Quem não viveu ou não tem ciência do movimento punk dos anos 1980, vai achar esquisito pessoas zombarem na rua do estilo e agressividade de Hoppey. Mas Love and Rockets não é “datado”. A obra, na verdade, é um retrato de uma época e de uma geração.

Outro tópico a ser notado é a história girar em torno de mulheres. Reflexo do movimento feminista e da liberação sexual, Jaime Hernandez mostra os poderes das protagonistas, ora decididas e fortes, ora vulneráveis e frágeis.

Mulheres como Maggie, que emagrece, engorda, muda a cor do cabelo e de opinião, além de ser mecânica Protosolar de foguetes que nunca funcionam em regiões que mais parecem com elos perdidos; a bela e impulsiva Penny Century, que não hesita em deixar seu bilionário namorado literalmente chifrudo para se aventurar colocando o pé na estrada; e a Rena Titañon, a veterana campeã de luta livre feminina.

Tudo isso bem antes de séries “queridinhas” como Estranhos no Paraíso.

A leveza e a despretensão da narrativa imprime um bom humor bastante incomum. Um bom exemplo é quando a ruborizada protagonista, pendurada em um helicóptero em pleno voo, pede para “virar a página”, pois a sua calcinha está à mostra.

Na arte em preto e branco, o estilo de Jaime é bem diferente do seu irmão Gilbert, que é mais cartunesco. Dentre os detalhes enriquecidos pelas hachuras, o seu realismo ganha balanço em ser limpo e bastante expressivo entre suas linhas leves e elegantes.

Já o trabalho da Gal se mostra bastante competente em termos de edição, com bom acabamento e uma impressão de qualidade.

Destaque para a tradução do editor Maurício Muniz, a bela capa (recolorizada especialmente para a edição brasileira por Eliane Gallucci) e a “montagem” de Muniz, reorganizando os capítulos da aventura de Maggie na selva com interlúdios de Hopey e Penny criados posteriormente por Jaime em relação ao original, preenchendo algumas lacunas ou pontas soltas.

Além da nítida diferença de traços (Jaime ficaria mais estilizado nas suas hachuras), percebe-se também outros caminhos narrativos que o autor irá tomar ao longo da série, sendo também mais econômico no texto.

A editora promete continuidade com Lôcas – As mulheres perdidas, o segundo volume de Love & Rockets, também assinado por Jaime Hernandez.

Maggie, a mecânica é uma prova de que os quadrinhos podem ser inteligentes, ter personalidade e – tão importante quanto essas qualidades – lançar o entretenimento à estratosfera.

Tudo isso atesta a paixão representada na apresentação calorosa do jornalista e escritor Antero Leivas, como também no posfácio do editor, afirmando acertadamente que é “o gibi mais legal do mundo”.

Na verdade, melhor dizer que é um dos mais legais do mundo. Assinado embaixo, com muito amor e soltando foguetes.

Classificação

4,5

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