Mágico Vento – Graphic Novel Deluxe – Volume 1

Por Audaci Junior
Data: 25 maio, 2018

Mágico Vento – Graphic Novel Deluxe – Volume 1Editora: Mythos – Edição especial

Autores: Gianfranco Manfredi (roteiro), José Ortiz, Giuseppe Barbatti e Bruno Ramella (arte), Connie Daidone, Elisa Moriconi e Sergio Algozzino (cores) – Originalmente em Magico Vento # 1 e 2 (tradução de Júlio Schneider).

Preço: R$ 69,90

Número de páginas: 204

Data de lançamento: Outubro de 2017

Sinopse

Na década de 1870, em virtude de uma explosão, um fragmento de metal no cérebro apagou a sua memória, mas deu-lhe o poder da visão. Para os índios, seu nome é Mágico Vento, porque a corrente de ar o guiou até eles. Mas ele era o soldado Ned Ellis, sobrevivente da explosão do comboio militar em que viajava.

Qual a conspiração que se esconde por trás daquele que, oficialmente, foi um trágico acidente? Para descobrir, Ned deverá iniciar uma atormentada viagem pelo seu passado, e, só no fim do caminho, entre os fantasmas do Forte Ghost, poderá saber a verdade.

Após retornar à aldeia Sioux com o jornalista Willy Richards – mais conhecido como Poe –, Mágico Vento só encontra tristeza e dor em todos os indígenas, devido ao rapto do pequeno Pena Cortada. A depressão atinge bem mais em Mata-a-si-próprio, que não conseguiu salvá-lo das garras de uma águia gigante.

Positivo/Negativo

Há 16 anos, quando a primeira edição de Mágico Vento chegava às bancas do Brasil, o título ostentava na sua capa um “Tex apresenta” para tentar conquistar os leitores do gênero.

Se a publicidade surtiu ou não efeito, a série teve um adicional no seu “bangue-bangue” não tão usual assim: o sobrenatural.

Apesar de ser um homem branco o protagonista, o cerne é o povo indígena, especificamente os Sioux. Mas isso não implica em dizer que outras séries italianas deixam de abordar com igual importância esse quesito.

No prefácio para esta nova edição, o criador e roteirista Gianfranco Manfredi relembra que sua obra foi criada pós-retomada da Meca hollywoodiana ao tema, em filmes como Danças com Lobos (1990) e O Último dos Moicanos (1992), precisamente no ano de 1997.

Assim como as feições de Ken Parker – personagem do fumetto criado por Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo – foram baseadas no Jeremiah Johnson de Robert Redford em Mais Forte que a Vingança (1972), Ned Ellis plasticamente é inspirado em Daniel Day-Lewis, na versão cinematográfica do clássico de James Fenimore Cooper (1789-1851), O último dos moicanos.

Mágico VentoDaniel Day-Lewis

Mágico Vento seguiu sendo publicado pela Mythos até seu derradeiro número, o 131, lançado em maio de 2013. Agora, está sendo relançado em cores e novo formato (20 x 27 cm, contra os 13,5 x 17,5 cm da versão anterior), com direito a capa dura e papel couché.

Este volume apresenta as duas primeiras edições – Forte Ghost e Garras. Na primeira, com a arte sólida e densa do espanhol José Ortiz (1932-2013), Manfredi segue o protocolo de mostrar a origem do personagem e preparar o terreno para justificar o aparecimento e permanência de coadjuvantes como o jornalista Willy Richards, vulgo Poe.

Do mesmo jeito que o “escada” Groucho, parceiro do “detetive do sobrenatural” Dylan Dog, é baseado em um dos Irmãos Marx, Poe é a homenagem do roteirista italiano ao famoso escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), autor de horror e fantasia, pioneiro da literatura policial.

O apelido, inclusive, parte das suas características físicas, mas o mais interessante é a escolha do temperamento que Manfredi dá ao personagem, herdando o ceticismo da sua profissão perante os testemunhos do fantástico.

Três anos depois da misteriosa explosão do trem no qual viajava a serviço do exército dos Estados Unidos, Ned Ellis/Mágico Vento parte no rastro da sua origem. Manobras e joguetes políticos que renderam as famosas cidades fantasmas na época servem para a trama, assim como outra homenagem ao cinema, apresentando um dos seus “avôs” em questão de projeção, o epidascópio, também conhecido como lanterna mágica.

Essa busca pelo passado não necessariamente é colocada para que o personagem volte ao que era antes. Assim como o personagem de Kevin Costner em Dança com Lobos, ele está à vontade na nova identidade. Isso fica mais explícito no final da primeira história.

Apesar de ser uma trama de busca (parcial) de vingança, o arqui-inimigo do protagonista, que ainda vai lhe render muita dor de cabeça, aparece timidamente neste início.

Outra decisão acertada é a posição xamânica de Mágico Vento na tribo Sioux, sendo o pupilo e “as pernas” do velho curandeiro que o encontrou. Um status que não deixa restrições às faculdades mágicas e divinatórias.

Com isso, Manfredi começa a explorar o lado mais obscuro e gótico da América colonizada, unindo tanto os tiroteios e emboscadas como os espíritos do passado e monstros de má formação genética que poderia pertencer a filmes como O massacre da serra elétrica (1974).

Com toda a trama já amarrada e justificada para as próximas aventuras, a segunda história do volume serve mais como um interlúdio para o que virá mais para frente.

Abandonando o traço mais soturno de Ortiz, a dupla Giuseppe Barbatti e Bruno Ramella deixa o clima mais aventureiro, mas também carrega na tinta quando cobrada.

Nesse aspecto, o destaque também vai para a sutileza das cores feitas pelo trio formado por Connie Daidone, Elisa Moriconi e Sergio Algozzino (não creditados na edição brasileira). Eficaz, ela deixa o clima sombrio, mais fantasmagórico e com cara de faroeste na passagem e na medida certas, sempre respeitando a arte original em preto e branco.

Imagem de Mágico Vento Imagem de Mágico Vento

Garras serve ainda para mostrar o lado mais leve e cômico da série, praticamente ausente na outra HQ. Um fator importante é a presença do sioux Mata-a-si-próprio, uma espécie de palhaço da tribo – o heyoke –, que termina não salvando o garoto raptado por uma águia e mergulha na mais profunda depressão.

Enquanto Manfredi mostra seu trabalho de pesquisa no sofrimento físico dos mais próximos da vítima, o humor involuntário e sarcástico de Poe é mais bem trabalhado. Essa quebra intercala com momentos tensos, desta vez explorando o terror mais animalesco e as reviravoltas.

Não é explicado, mas é interessante tocar que o heyoke não é apenas o “índio que faz tudo ao contrário”. Ele é uma espécie de sacerdote do riso e do bom humor, que une cada vez mais a tribo com isso.

Até no Brasil tem esses “bobos sagrados”, a exemplo do hotxuá – um índio brincante que promove a cura por meio do riso na aldeia dos Krahôs, localizada na região de Palmas, ao norte do Tocantins.

Essa condição de “alívio cômico” é firmada pelo coadjuvante Poe em uma das sequências. Bem menos espalhafatoso e nonsense que o Groucho do Dylan Dog, vale frisar.

Na questão editorial, a Mythos faz um bom trabalho, com exceção de um “Manfred” sem o “i” no final do texto introdutório e duas páginas em branco no final do volume, que poderiam ser mais bem aproveitadas (talvez realocando as biografias dos autores em uma delas para harmonizar, por exemplo).

Com mais artistas bonellianos de peso por vir, Mágico Vento é uma série que não deixa nada a dever para os amantes do bom western e do terror clássico, o melhor dos dois mundos. Para os leitores veteranos e para quem busca histórias constantemente acima da média.

Classificação:

4,5

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