Maldito Seja – Henry Jaepelt

Por Paulo H. Cecconi
Data: 6 junho, 2014

Maldito Seja – Henry JaepeltEditora: Ugra Press – Edição especial

Autores: Henry Jaepelt (roteiro e arte).

Preço:R$ 25,00

Número de páginas: 80

Data de lançamento: Outubro de 2013

Sinopse

Maldito Seja é um trabalho de garimpo de autores nacionais independentes com trabalhos produzidos entre 1980 até o início dos anos 2000. Neste volume, o escolhido é Henry Jaepelt.

Positivo/Negativo

Resenhar os trabalhos de Henry Jaepelt é escrever sobre o próprio autor. Sua obra e sua postura caminham de mãos dadas, impossibilitando comentar a primeira sem o aspecto pessoal de seus procedimentos.

Jaepelt é um brasileiro que escolheu o caminho dos autores independentes, mais propriamente os fanzines, aquelas publicações de custo baixo, geralmente em preto e branco, que circulam pelos âmbitos do underground e sofrem muito preconceito por parte de parte do público. Afinal, só valem a pena os quadrinhos pomposos, de estética imponente e que passam pelo crivo de uma editora estabelecida, certo? Errado.

Os zines surgiram na década de 1930, e sempre foram uma maneira de artistas autopublicarem seus materiais, característica que abre espaço para toda uma sorte de assuntos, formas de linguagem e opções estéticas.

No Brasil, os fanzines são fortes representantes da rebeldia e da contracultura. Temas ligados ao punk, à distopia e reformas sócio-políticas e não são incomuns. Por isso, mesmo com as facilidades atuais da autopublicação, muitos autores da velha guarda ainda optam pelo zine de raiz, mais “tosco” e esteticamente representativo da subversão.

É claro que essa iniciativa possui um lado negativo: por ser um trabalho autofinanciado, possui distribuição e alcances limitados. Com o advento da internet, esse limite foi encurtado, mas, ainda assim, os zines não são publicações populares, o que nunca preocupou muito os autores, que estão confortáveis com as vantagens que a autopublicação propicia. Liberdade é, possivelmente, a principal.

Um fanzineiro não possui prazos e não deve satisfações. Cria quando pode e quer, e faz do jeito que gosta. E é bem assim que atua Henry Jaepelt.

Ele é e sempre foi um artista independente. Colabora com fanzines dos mais variados temas há mais de 30 anos, e é uma forte referência no underground brasileiro. É prolífico e atuante, e sempre que pode, participa de eventos, como o Mutação, que acontece em Porto Alegre.

Henry, como muitos fanzineiros, não ganha a vida diretamente com a sua arte. Mais precisamente, ele não tira seu sustento dessa atividade. Porém, a vida não se limita a isso, e se o autor fosse questionado sobre suas escolhas artísticas com certeza diria que não faria as coisas de outro jeito.

Em vez de cumprir com prazos impostos, Henry trabalha tranquilo em seu estúdio, onde tem total controle sobre seu tempo, escolhas estéticas e roteiros; e raramente se furta de colaborar com algum zine, seja no Brasil ou em outros países onde se trabalho é conhecido.

Mas como conhecem o trabalho de Jaepelt fora daqui se fanzines têm alcance limitado? Isso se explica pelo empenho do autor em conectar o máximo que pode o cenário underground. Para isso, Henry se vale do quase obsoleto envio de correspondência, troca cartas, desenhos, zines e materiais diversos com qualquer um que esteja disposto.

Essa prática o tornou conhecido em vários círculos, e seu talento garantiu o reconhecimento e respeito adquiridos nos meios que veiculam seus desenhos.

Nas cartas, que escreve à mão, Henry dedica várias linhas a encorajar os amigos a tomar iniciativas criativas e a não abandonar a arte. Essa atitude transforma o procedimento artístico em uma experiência de conexão, e as missivas nunca são desfalcadas de atenção, orientação crítica e muita simpatia.

A arte de Henry é uma exposição de fragmentos da sua mente. Suas histórias são curtas, sem uma trama desenvolvida seguindo um roteiro padrão. Os personagens não possuem pai, mãe ou background. São meras encarnações de ideias, desejos, contemplações e confissões, que ganham seus contornos exclusivamente para expressar o que o autor sente no momento em que está criando.

Seja uma hora de tristeza, na qual o efêmero protagonista coloca seu coração à venda, ou o simples tesão de encontrar aquele disco de vinil especial, todas as histórias desnudam Japelt.

Seus desenhos são expressivos e inconfundíveis, e dão dicas de como o autor vê o mundo: cheio de seres amorfos, desproporcionais e bizarros. São criaturas dispostas em páginas com layouts criativos e fora dos padrões.

Maldito Seja é uma coleção da Ugra Press que compila os trabalhos de artistas nacionais com publicações independentes e fanzines em uma única edição, e já possui dois volumes: este e Maldito Seja – Law Tissot (outro fanzineiro e amigo de Japelt).

A iniciativa da Ugra (dona de um acervo que salta aos olhos) é exemplar. O garimpo desses trabalhos é uma opção que se destaca para quem estiver cansado de super-heróis e roteiros repetitivos e comuns, e pode ser o primeiro passo para mudar o jogo e mostrar ao público que os fanzines não são sinônimos de trabalhos de baixa qualidade. É só olhar os desenhos de Henry para perceber.

Não é a intenção desta resenha exaltar o trabalho independente como o único tipo de caminho que vale a pena para um quadrinhista, mas sim mostrar um pouco do ponto de vista dos criadores de fanzines e sugerir uma opção valiosa além das que circulam exclusivamente em livrarias e bancas.

Maldito Seja e as demais edições vendidas pela Ugra podem ser compradas aqui.

Classificação

3,5

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