Maria Erótica – Nova Fase

Por Gonçalo Junior
Data: 19 dezembro, 2008

Maria Erótica - Nova FaseEditora: Edrel – Edição especial

Autor: Cláudio Seto.

Preço: Cr$ 2,00 (preço da época)

Número de páginas: 64

Data de lançamento: 1971

Sinopse

Reúne duas das primeiras histórias da mais famosa personagem de humor de Cláudio Seto (1944-2008) publicadas nas revistas As mais quentes piadas e Garotas & Piadas, ambas da editora Edrel, de São Paulo.

Positivo/Negativo

A história da editora paulistana Edrel – que existiu entre 1967 e 1975 e foi fundada por Minami Keizi e Jinki Yamamoto – só agora começa a ser descoberta, depois que seus principais artistas e editores terem sido homenageados na edição 2008 do troféu HQ Mix.

Infelizmente, a morte de seu maior artista, Cláudio Seto, pouco depois, em novembro, também trouxe o nome da Edrel para o noticiário. E foi Seto quem criou uma das mais inteligentes e divertidas personagens satíras dos quadrinhos brasileiros: Maria Erótica.

Se os grandes e pequenos concorrentes insistiam havia uma, duas ou até três décadas em fazer quadrinhos seguindo os gêneros norte-americanos de faroeste, aventura, policial e de terror, a Edrel optou por gibis que divertiam, com humor em situações do momento e certa picardia.

Maria Erótica foi um de seus maiores sucessos nesse gênero, criada em 1969, quando Valentina ainda era inédita no Brasil. E é inevitável que se lembre da heroína de Guido Crepax (1933-2003), uma vez que a deliciosa mocinha nipo-brasileira vive suas aventuras em mundos de sonhos e fantasias, em situações de intimidade e repressão sexual. A relação, no entanto, termina aí.

Fortemente influenciado pelo traço do mangá nas primeiras HQs, o autor brasileiro conseguiu fazer de Maria Erótica um caldeirão dos mais importantes temas que predominavam no comportamento ocidental, com ênfase na sexualidade e na contracultura: a psicanálise, o quadrinho underground, a metalinguagem dos gibis, a revolução sexual (e a sua ainda marcante repressão tipicamente brasileira), com ênfase na castidade e na crítica à instituição do casamento.

No ritmo alucinante em que produzia histórias com sua pequena equipe na cidade de Lins, interior paulista, Seto foi aos poucos moldando a personagem, que nasceu como coadjuvante do tarado e trapalhão Beto Sonhador. Ela apareceu pela primeira vez numa aventura publicada em As mais quentes piadas, quando Beto, num de seus devaneios eróticos, vai aos Estados Unidos e conhece uma jovem de cabelos loiros (depois ficaria morena) e compridos que se chamava Mary Erotic – logo abrasileirada para Maria Erótica. Então ele acorda e descobre que beijou na boca o companheiro de quarto.

Ainda em 1969, ela ganhou revista própria, que chegou às bancas ao mesmo tempo que a revolucionária Estórias Adultas – Gibi Moderno, de setembro, na qual Minami começou a escrever um novo capítulo dos quadrinhos no Brasil.

Assumidamente de conteúdo erótico, dirigida a “adultos”, com 132 páginas, a revista era uma óbvia influência dos gibis japoneses. Até então, os almanaques em quadrinhos tinham, em média, 64 páginas, o dobro de uma edição regular. As exceções ficavam com os tradicionais almanaques com histórias inéditas de Natal, publicados desde o início do século, em formato tablóide (O Tico-Tico, O Suplemento Juvenil e O Globo Juvenil, entre outros), com 96 páginas e que haviam desaparecido na década de 1950.

Maria Erótica, então, simbolizava o comportamento médio do pensamento moralista brasileiro: vivia cercada de um lado pela extrema moral beata e, de outro, pelos instintos naturais de seus hormônios.

Na luta entre a castidade e o prazer, ora dando vazão traumática aos seus recalques, ora atuando em sua moral conservadora, fazia surgir as mais mirabolantes situações de humor, como destacou Fukue no editorial da edição de estréia da segunda fase. Enfim, era “pura, fria e ingênua”. Ao mesmo tempo, “sexy, maliciosa e quente”.

Nessa fase da personagem, com um traço mais maduro, Seto começou a estabelecer seu modelo definitivo de garota extremamente sensual, que daria vida a diversas personagens ao longo dos 13 anos seguintes: curvas de mulher brasileira, cintura fina, quadris largos, seios fartos, cabelos louros europeus e olhos típicos dos mangás. Uma salada de gêneros das mais tropicalistas.

As histórias que fazem parte deste volume mostram um Seto mais distante do mangá, a não ser no acabamento de alguns quadrinhos. São aventuras que satirizam as próprias HQs, ao apresentar famosos personagens como convidados. Um deles é Namor, que aqui vira Príncipe de Namonia.

Ao relê-las quase 40 anos depois, a impressão ainda é de frescor de um tipo de humor inteligente e picante, uma das marcas de um artista de grande versatilidade que modernizou os quadrinhos brasileiros naquela época.

Classificação

5,0

Gonçalo Junior, jornalista e autor dos livros A Guerra dos GibisTentação à ItalianaO Homem-Abril e outros

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