MARTIN MYSTÈRE # 39

Por Rodrigo Emanoel Fernandes
Data: 1 dezembro, 2005


Título: MARTIN MYSTÈRE # 39 (Mythos
Editora
) – Revista mensal
Autores: Alfredo Castelli (roteiro) e Giancarlo Alessandrini (desenhos).

Preço: R$ 6,50

Número de páginas: 96

Data de lançamento: Outubro de 2005

Sinopse: Space Invaders – Conclusão de Fantasmas em Manhattan. Investigando a origem das manifestações poltergeist, Martin Mystère localiza o inventor do insólito aparelho de TV, mas acaba aprisionado numa dimensão bizarra onde até mesmo personagens de jogos eletrônicos podem ser armadilhas mortais.

Positivo/Negativo: Divertidíssima aventura do Detetive do Impossível e um excelente encerramento para a coletânea Martin Mystery, que a editora Dark Horse publicou nos Estados Unidos em 1999, juntamente com Dylan Dog e Nathan Never, numa tentativa de introduzir as séries de temática fantástica da Sergio Bonelli Editore no mercado norte-americano.

Desde o início (no número anterior), Castelli optou por uma abordagem mais surreal para o episódio, sacrificando alguns elementos de verossimilhança em prol de um senso de humor absurdo que, virtualmente, permitiria qualquer solução narrativa, mesmo as mais inusitadas.

Aliado ao desenhista co-criador e capista oficial da série, Giancarlo Alessandrini, cujo olho para excentricidades é notório, Castelli criou uma das histórias mais inventivas e surpreendentes dos primeiros anos da HQ (futuramente essa abordagem “fantástica” ganharia mais e mais espaço, principalmente nos números especiais).

Premissa estabelecida, o leitor é apresentado ao nerdíssimo inventor Mister Henry, que descobriu como associar a ciência com técnicas antiqüíssimas de magia, sendo capaz de criar aparelhos eletrônicos que funcionam segundo princípios místicos. O que ele não esperava era que sua televisão mágica se tornaria um portal pelo qual seres trans-dimensionais (poltergeists) podem invadir nosso mundo, assumindo formas inspiradas na imaginação mítica do homem contemporâneo, como personagens de comerciais, videogames, desenhos animados etc.

Um plot tão absurdo merece um desenvolvimento ainda mais absurdo, com Martin Mystère perdido no “verso da página”, tendo contato com forças malignas oriundas das páginas obscuras desse imensurável “universo em duas dimensões” do qual os quadrinhos são feitos, e chegando ao cúmulo de um duelo com space invaders com sua arma de raios nos céus de Nova York.

Essa trama repleta de metalinguagem, em que Mystère chega muito perto de descobrir que não é passa de um personagem de HQ, inevitavelmente remete o leitor ao excelente trabalho de Grant Morrison em Homem-Animal, no qual o escritor leva o tema às últimas conseqüências. Não apenas o herói descobre e aceita ser apenas uma ficção, como acaba confrontando o próprio autor da série num desfecho inesquecível.

Castelli não alcança um ápice tão grandioso, mas ganha crédito por ter publicado essa história em 1987, um ano antes de Morrison assumir os roteiros de Homem-Animal. Sem contar o fato de que criar uma trama tão ousada, repleta de experiências narrativas curiosas, trabalhando dentro das limitações impostas pela política conservadora da Sergio Bonelli Editore, não é um mérito pequeno.

Na verdade, é fascinante observar como um desenhista inventivo como Alessandrini consegue quebrar deliciosamente as convenções e, ao mesmo tempo, respeitar a obrigatoriedade das páginas de cinco a seis quadros (na verdade, subvertendo a regra a seu favor) como se pode observar nas páginas 73 e 74.

Felizmente, não há conservadorismo que resista a um bom número de notas verdinhas. O sucesso de vendas obtido pelos autores ousados de Martin Mystère, Dylan Dog, Nathan Never e outros foi, pouco a pouco, derrubando as regras e abrindo espaço para experiências narrativas e temáticas de séries novas como Júlia, atendendo os gostos de leitores que ansiavam por algo mais do que Tex e Zagor têm a oferecer.

Nota importante: Martin Mystère em dobro no mês de outubro, graças à publicação
de A História de Java, aventura especial completa em 213 páginas,
no número 5 de Seleção Tex e os
Aventureiros
.
 

Classificação:

4,0

• Outros artigos escritos por

.

.

.