MARTIN MYSTÈRE # 42

Por Rodrigo Emanoel Fernandes
Data: 1 dezembro, 2006


Título: MARTIN MYSTÈRE # 42 (Mythos
Editora
) – Revista mensal
Autores: Alfredo Castelli (roteiro) e Enrico “Henry” Bagnoli (desenhos).

Preço: R$ 7,50

Número de páginas: 96

Data de lançamento: Janeiro de 2005

Sinopse: A Piada Mortal (Conclusão de Morte no Teatro – Prosseguindo em sua investigação sobre o desafortunado Wilbur, Martin Mystère acaba localizando o insuspeitado criador de todas as piadas que circulam no mundo, bem como uma conspiração orquestrada dez mil anos atrás.

Positivo/Negativo: Enfim, a triste confirmação: após 42 edições a revista Martin Mystère, da Mythos, é cancelada e, pela terceira vez, os fãs brasileiros se tornam órfãos das aventuras do personagem. Sem cerimônias, sem despedidas, sem rodeios para dourar a pílula, apenas um título como tantos outros chegando às bancas, porém com a mórbida ausência do anúncio do próximo número.

Os eventuais leitores sem acesso à internet talvez até aguardem, esperançosamente, pelo número 43 que nunca virá, já acostumados com a carência de informações que sempre caracterizou o tratamento editorial da Mythos ao personagem.

Talvez seja melhor falar dos erros agora, antes de comentar os acertos – que não foram poucos – para tentar amenizar o peso que esta última resenha não poderá evitar ter. Pra começar, é triste que o episódio de despedida de Martin seja tão fraco, uma das histórias mais decepcionantes escritas por Castelli (em alguns momentos chega a parecer obra de Pier Paolo Prosperi).

O mistério da origem das piadas era tão original e inusitado, que despertava um mais do que razoável interesse pelo desfecho. Em virtude da inventividade habitual de Castelli, imaginava-se uma solução inesperada e exótica, invertendo as expectativas de um tema potencialmente tão ridículo. Ao contrário, entretanto, a trama realmente descamba para o banal, com um final óbvio, patético e cheio de furos, uma verdadeira bola fora de um autor quase sempre brilhante.

É inevitável baixar drasticamente a nota da edição, por mais triste que seja fazer algo assim em circunstâncias tão traumáticas. Uma coincidência infeliz, na verdade, visto que a Mythos apenas seguia a ordem de publicação italiana quando o cancelamento não pôde mais ser adiado, calhando de cair numa história fraca entre tantas excelentes.

Inútil demorar em rememorações dos equívocos da Mythos desde o lançamento do título. Mas a já citada falta de informações necessárias para facilitar a adesão de leitores novos, a insistência na publicação de episódios fora de ordem cronológica sem notas explicativas ou preocupação com pontos obscuros (fato que tentou remediar a partir do número 29, quando começou a tapar os buracos na cronologia e seguir a seqüência original italiana; tarde demais, talvez) e, principalmente, o tratamento editorial excessivamente modesto, tudo isso contribuiu.

Enquanto séries como Mágico Vento e Júlia já aportaram nas bancas com direito a matérias, chamadas de capa e ares de campeãs (merecidamente), Martin Mystère (bem como os também falecidos Dylan Dog, Nick Raider, Mister No e Dampyr) era meramente jogado nas bancas, sem alardes ou pompas, quase como se a Mythos já não acreditasse de antemão na longevidade da série e preferisse concentrar suas atenções nos prováveis títulos “quentes” bonellianos.

Enfim, todos esses pontos foram mais do que discutidos no decorrer desses 42 reviews e será mais proveitoso destacar os méritos obtidos. Apesar de todos os problemas, a Mythos conseguiu ultrapassar largamente os 17 números publicados pela Record e pode se orgulhar de ser a mais longeva encarnação de Martin Mystère em terras brasileiras. Publicou 28 aventuras completas e inéditas (contra 9 da Globo e 16 da Record), sem contar a especialíssima História de Java, em Seleção Tex e os Aventureiros # 5.

Mas o mais importante foi, sem dúvida, acertar a bagunça cronológica datada dos tempos da Record, fechando todos os buracos entre os números 1 e 72 da série italiana, mais alguns episódios esparsos publicados antecipadamente: A Seita dos Assassinos (edições 88, 89 e 90 na Itália, aqui 18 e 19), a já mencionada História de Java (números 111, 112 e 113 na Itália), O Segredo de Maria Madalena (121 italiano, 6 brasileiro) e Recordações Sem Fim (122 italiano, 7 nacional).

Não seria nenhum exagero dizer que a série superou e muito as expectativas mais otimistas, exceto pelo fato de que, em vários momentos, foi possível acreditar que o cancelamento era uma realidade distante.

A cada número, a inesperada longevidade de um personagem que sempre esteve longe de ser “popular” fazia os fãs sonharem mais alto, imaginarem que uma alternativa inteligente e refinada à “mesmice” mensal das bancas poderia realmente ter chegado para ficar. Sonhos, enfim… mas saborosos de qualquer modo.

Entretanto, Martin despede-se com promessas insuspeitadas. No vácuo deixado pelas revistas Bonelli descontinuadas, a editora Pixel materializa-se trazendo o maior clássico dos quadrinhos italianos, Corto Maltese; e a Tutatis acena a possibilidade de séries em venda direta que poderiam – por que não? – incluir o bom e velho tio Martin num futuro próximo.

Talvez seja possível sonhar que esse adeus não será tão duradouro quanto nos cancelamentos anteriores. Afinal, resta um ciclo a ser cumprido: a Record publicou há 15 anos o episódio Agarthi, na sua edição 13, iniciando uma trilogia que desvenda os mistérios da iniciação de Mystère e seu arquiinimigo Sergej Orloff nos segredos esotéricos. A Mythos cumpriu sua parte publicando A Seita dos Assassinos nas edições 18 e 19. Para cumprir adequadamente o ciclo, outra editora deverá fechar a saga com Roncisvalle (edições 94, 95 e 96 italianas). Quem se habilitaria? Talvez até como uma one-shot especulativa?

Por ora, resta aos fãs aguardarem a prometida Seleção Tex e os Aventureiros Especial com o segundo encontro de Dylan Dog e Martin Mystère, La fine del mondo, uma despedida dupla de duas das séries bonellianas mais queridas de todos os tempos, trazendo uma compensação agridoce para todos os fãs de fantasia, aventura, mistério e, acima de tudo, quadrinhos inteligentes.

 

Classificação:

4,0

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