MARVEL- 40 ANOS NO BRASIL

Por Sidney Gusman
Data: 1 dezembro, 2007


Título: MARVEL- 40 ANOS NO BRASIL (Panini
Comics
) – Edição especial

Autores: Quarteto Fantástico – A incrível saga do Surfista Prateado – Stan Lee (roteiro), Jack Kirby (desenhos) e Joe Sinnott (arte-final);

Os Vingadores – O assassino de deuses – Jim Shooter (roteiro), John Byrne (desenhos) e Pablo Marcos (arte-final);

Homem de Ferro – Demônio na garrafa – David Michelinie (roteiro), John Romita Jr. (desenhos) e Bob Layton (arte-final);

X-Men – Dias de um futuro esquecido – Chris Claremont (roteiro), John Byrne (desenhos) e Terry Austin (arte-final);

Demolidor – Roleta Russa – Frank Miller (roteiro e arte) e Terry Austin (arte-final);

Homem-Aranha – O menino que colecionava Homem-Aranha! – Roger Stern (roteiro), Ron Frenz (desenhos) e Terry Austin (arte-final);

Capitão América – Lar em chamas – Roger Stern (roteiro), Frank Miller (desenhos) e Joe Rubinstein (arte-final);

Wolverine e Chispinha – Animal ferido – Chris Claremont (roteiro) e Barry Windsor-Smith (argumento e arte);

Estigma – Jim Shooter (roteiro), John Romita Jr. (desenhos) e Al Williamson (arte-final);

Homem-Aranha 2099 – Peter David (roteiro), Rick Leonardi (desenhos) e Al Williamson (arte-final);

Hulk – Para que as trevas não sobrevenham – Peter David (roteiro), Gary Frank (desenhos) e Cam Smith (arte-final);

Homem-Aranha 2099 – Peter David (roteiro), Rick Leonardi (desenhos) e Al Williamson (arte-final);

X-Men Millennium – Não tem de ser assim – Mark Millar (roteiro), Adam Kubert (desenhos) e Danny Miki (arte-final);

Esquadrão Supremo – Contato – L.M. Straczynski (roteiro), Gary Frank (desenhos) e Jon Sibal (arte-final).

Preço: R$ 49,00

Número de páginas: 336

Data de lançamento: Setembro de 2007

Sinopse: Em julho de 1967, Capitão América, Thor, Homem de Ferro, Hulk e Namor, o Príncipe Submarino, estrearam no mercado brasileiro, pela Ebal. Era o início da trajetória da bem-sucedida carreira dos quadrinhos Marvel no país.

Para comemorar os 40 anos dessa data tão relevante, a Panini preparou esta edição especial com histórias de diversos personagens, em diferentes períodos cronológicos.

Além disso, a revista traz como brinde um fac-símile de Dois Super Heróis Shell – Capitão América e Homem de Ferro, de 1967.

Positivo/Negativo: Extremamente oportuno o lançamento deste especial para comemorar as quatro décadas de presença da “Casa das Idéias” em bancas brasileiras. Bela idéia da Panini, apesar de a edição ter atrasado e chegado aos leitores dois meses após a data do “aniversário”. E a sacada de resgatar a edição fac-símile também merece elogios.

O principal mérito de Marvel 40 Anos no Brasil é oferecer um heterogêneo mix de histórias que dão bem a idéia de alguns fatos marcantes dessas quatro décadas. É bacana para o leitor conferir o quanto as HQs da editora mudaram nesses anos todos, no que tange ao excesso de texto, à diagramação das páginas e aos desenhos.

Por isso, se a edição traz verdadeiros clássicos dos super-heróis, também vêm no “pacote” algumas histórias que não passam de medianas. Mas isso era esperado. Não dava pra fazer um mix só com preciosidades.

Afinal, por se tratar de uma “reconstituição histórica”, era preciso mostrar também coisas que não deram certo, casos específicos de Estigma e Homem-Aranha 2099, que mesmo tendo alguns bons momentos, entraram para a história como fracassos editoriais da Marvel. Isso é inclusive comentado nos providenciais textos que antecedem as aventuras, sempre acompanhados da capa da revista original norte-americana e da informação de onde ela saiu no Brasil.

Mas a edição tem cinco clássicos incontestáveis:

1) A incrível saga do Surfista Prateado, que mostra o momento em que o ex-arauto de Galactus se rebela contra o “patrão” e é condenado a não mais vagar pelas galáxias, ficando confinado apenas à atmosfera da Terra;

2) Demônio na garrafa, com a luta de Tony Stark contra o alcoolismo atingindo seus piores momentos;

3) Dias de um futuro esquecido, uma das maiores aventuras dos X-Men em todos os tempos, que mostra um futuro apocalíptico para os heróis mutantes;

4) Roleta Russa, na qual Frank Miller deixa o leitor ansioso para virar logo as páginas, na “brincadeira” do Demolidor com o Mercenário;

5) O menino que colecionava Homem-Aranha!, um tocante conto em que o “amigão da vizinhança” recebe tanto carinho de um jovem admirador portador de câncer, que até revela a ele sua identidade.

Completam o mix as boas aventuras dos X-Men Millennium, do Hulk e do Esquadrão Supremo; as medianas dos Vingadores (que tem vários problemas de cores “vazando” por cima dos traços, algo que veio da edição norte-americana), do Homem-Aranha 2099, do Estigma e do Wolverine com a Chispinha, integrante do Quarteto Futuro; e a piegas ao extremo do Capitão América – o discurso dele a respeito da América é de embrulhar o estômago e curioso de ser lido hoje, em tempos de Guerra Civil, evento no qual o Sentinela da Liberdade é caçado por ex-companheiros e pelo governo norte-americano.

O outro ponto alto da edição é também o seu calcanhar de Aquiles: o artigo A História Secreta da Marvel no Brasil, assinado pelos jornalistas Gonçalo Júnior (A Guerra dos Gibis) e Fernando Lopes, editor dos títulos da “Casa das Idéias” na Panini, que ficou encarregado da edição final do texto. Nunca se viu por aqui uma matéria tão extensa (28 páginas muito bem ilustradas) sobre o tema. Nela são mencionadas todas as editoras que publicaram revistas da Marvel no País.

O problema começa quando a reportagem aborda os primeiros anos da longa fase da Editora Abril. O tom do texto, até então bastante sério e documental, bem ao estilo de Gonçalo Junior (basta ler suas obras para notar essa característica), muda para algo esfuziante e perde muito de sua imparcialidade. Não parece escrito por Gonçalo.

O principal entrevistado desse trecho, Helcio de Carvalho, atual editor-chefe da Panini, sem dúvida tem diversos méritos na estruturação dos quadrinhos Marvel no Brasil e na adequação do linguajar dos personagens, mas suas falas só revelam as coisas boas. Os pontos negativos de sua “gestão” são mascarados ou omitidos.

Esta declaração de Helcio em especial chama a atenção: “Às vezes, na intercalação das histórias, era preciso fazer algumas mudanças no original – excluir um quadro aqui, alterar um texto ali – pra não revelar quem ia se casar ou morrer em alguma outra aventura e manter a coerência do todo. Graças a isso, mesmo estando em momentos diferentes, todos os heróis passaram a viver no mesmo continuum de tempo”.

Todo fã de quadrinhos que leu as revistas da Abril naquele período sabe que isto não é verdade. Era prática corriqueira da redação cortar páginas e mais páginas de histórias (foram centenas), para que coubessem mais aventuras por edição. E o texto dos balões era bastante diminuído e, diversas vezes, reescrito de forma totalmente diferente do original, devido aos “ajustes de cronologia”.

Ou seja, era bem mais que “excluir um quadro aqui” ou “alterar um texto ali”. E essas mudanças ocasionaram erros graves em revistas, coisas que merecem uma extensa matéria e que esticariam demais esta resenha.

Helcio ainda destaca que “fazia questão de publicar críticas duras” nas revistas da Abril. Não era bem assim. Era raro isso acontecer. Talvez porque, naquela época, o acesso à informação era menor e poucos leitores soubessem desses cortes excessivos e, portanto, as críticas deviam ser em menor número.

Outro ponto obscuro da matéria foi nem sequer mencionar Sérgio Figueiredo Pinto, o “Figa”, o editor que mais tempo trabalhou nas publicações brasileiras da Marvel. Ele foi sumariamente ignorado, algo imperdoável, pois nas editoras que precederam a Abril até nomes de pouca relevância são citados.

Curiosamente, há frases de Marco Moretti e menções a Mário Luiz Barroso e Sadika Osmann, todos editores que respondiam justamente a Sérgio Figueiredo. Outro profissional conhecido que trabalhou com a Marvel e nem é citado é Leandro Luigi Del Manto, hoje à frente dos álbuns da Devir. Ele, inclusive, virou personagem de uma das HQs da revista Heróis da TV # 100, da Abril, e ainda editou Marvel Force, na Globo, e outros títulos na Pandora Books.

Depois da saída de Helcio de Carvalho da Abril, o texto assume um tom mais crítico, especialmente nas passagens sobre outras editoras e na parte da criação da Linha Premium.

Quando chega à boa fase da Panini, a matéria adquire uma levada mais informativa, com uma ou outra cutucada (por vezes merecida) na sua antecessora, a Abril.

É realmente uma pena que um texto que vai até a metade com tantas informações valiosas e interessantes peque tanto no que se refere à parcialidade nos trechos acima citados. A matéria, claro, é um documento histórico sobre a presença da Marvel no Brasil, mas por possuir ressalvas tão relevantes, não merece o adjetivo “definitiva”.

No aspecto editorial, a edição tem apenas um outro erro de digitação, mas as HQs O menino que colecionava Homem-Aranha! e X-Men Millennium saíram sem os créditos dos autores. Esta última também não tem o título da história.

Por fim, Marvel – 40 Anos no Brasil caracteriza-se com um bom documento histórico. Para leitores mais jovens traz a chance de conhecer clássicos da editora e sua trajetória no Brasil. Mas para fãs veteranos, está longe de ser indispensável.

Classificação:

4,0

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