Masterpiece Comics

Por Lielson Zeni
Data: 3 dezembro, 2010

Masterpiece ComicsEditora: Drawn & Quartely – Edição Especial

Autor: R. Sikoryak (roteiro e arte).

Preço: US$ 19,95

Número de páginas: 64

Data de lançamento: Setembro de 2009

Sinopse

Adaptações de textos clássicos da literatura usando personagens também clássicos das histórias em quadrinhos.

Positivo/Negativo

No Brasil, por diversas razões de ordem comercial, é possível acompanhar o crescimento e a consolidação de um nicho de mercado para as histórias em quadrinhos: as adaptações literárias.

Vale lembrar que o procedimento é antigo. Na década de 1990, a Abril publicou uma coleção de clássicos da literatura chamada Classics Illustrated, levando ao leitor obras como Moby Dick, no traço de Bill Sienkiewicz, e Cyrano de Bergerac, por Peter David e Kyle Baker.

Antes disso ainda, houve a publicação da Edição Maravilhosa, pela Ebal, no final da década de 1940. A série surgiu para tentar calar acusações sobre a falta de qualidade dos quadrinhos publicados no Brasil e de que os gibis afastavam as crianças dos livros “de verdade”.

Muitos anos se passaram desde então, mas a mentalidade de alguns mudou pouco: quadrinhos são para crianças; e os pequenos devem ser preservadas a qualquer custo. E indo de encontro a essa posição, está o trabalho do artista norte-americano R. Sikoryak.

Sikoryak foi colaborador habitual da revista Raw e produziu várias capas para a prestigiada New Yorker. Nessas publicações, ele se destacou por sua perspicácia e habilidade de emular traços.

Não apenas os traços, mas também as características narrativas e de composição de diversos artistas. Habilidade fundamental para a proposta de Masterpiece Comics.

O artista dá um passo além no conceito de adaptação. Em vez de simplesmente verter um romance em prosa para diversos quadros numa página, Sikoryak optou por unir clássicos dos quadrinhos norte-americanos aos clássicos da literatura ocidental.

Dessa forma, Morro dos ventos uivantes, de Emilly Brontë, é adaptado com o traço característico das histórias de terror da EC Comics, de Contos da Cripta e se torna The Crypt of Brontë; o Batman desenhado por Dick Sprang em Detective Comics encarna o personagem Raskolnikov, do livro Crime e Castigo, de Fiodor Dostoyevski, em Dostoyevski Comics; Charlie Brown vira personagem de Franz Kafka, Garfield, o Mefistófeles do Fausto goethiano e muitos outros. Quem quiser conhecer a lista completa, pode ler este artigo português sobre o álbum.

E na inusitada aproximação entre a arte popular dos quadrinhos e a arte erudita da literatura, Sikoryak traz à tona as similaridades entre elas e, por consequência, uma visão avaliativa sobre as duas obras.

Ao aproximar Raskolnikov de Batman, mostra-se que o personagem da DC, muito mais que vingança e altruísmo, é movido pela culpa. Já Raskolnikov consegue se mostrar mais humano ao ser comparado com um herói já retratado diversas vezes de modo maniqueísta e plano.

A simples possibilidade de aproximá-los já demonstra as similaridades. O Garfield como um demônio cruel, sedutor e manipulador não é novidade para os leitores das tiras criadas por Jim Davis. Mas tudo ganha nova perspectiva no trabalho de Sikoryak.

Dois dos melhores momentos do álbum são Charlie Brown como o protagonista de A metamorfose, de Kafka – quem já leu a ambos certamente vai pensar: “é claro!”; e Little Nemo como corpo para O retrato de Doryan Gray, de Oscar Wilde, com direito à pagina dupla, simulando um jornal.

A arte de Sikoryak é minuciosa e não debocha dos parodiados. Pelo contrário, os homenageia. A proposta do artista é parecer com o artista original. E ele consegue.

Fecha o álbum uma mistura de Esperando Godot, de Samuel Beckett, e Beavis e Butt-head. Genial e divertido.

Outro efeito obtido pela junção criada por Sikoryak é a dessacralização dos clássicos literários.

Aqui, diferentemente da Ebal e sua Edição maravilhosa, a proposta não é usar a literatura como muleta ou como justificativa pra valorizar as HQs, mas sim realmente a criação de uma obra autônoma. Motivação essa que tem faltado em diversas adaptações literárias em quadrinhos que estão no mercado atualmente.

Resta torcer pra que esse material desembarque em terras nacionais, pois Masterpiece Comics é um clássico!

Classificação

4,5

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