Maus – A História de um Sobrevivente

Por Ricardo Malta Barbeira
Data: 21 dezembro, 2005

Maus - A História de um SobreviventeEditora: Companhia das Letras – Edição especial

Autores: Art Spiegelman (roteiro e arte).

Preço: R$ 39,00

Número de páginas: 296

Data de lançamento: Junho de 2005

Sinopse

Esta é a história de como Vladek Spiegelman sobreviveu à perseguição nazista durante a Segunda Guerra Mundial, e de como isto afetou a vida de sua esposa e de seu filho.

Positivo/Negativo

Em 1980, Art Spiegelman resolveu começar o ambicioso projeto de transpor para os quadrinhos a história de seu pai, Vladek, um sobrevivente do holocausto. Para isso, passou a visitá-lo freqüentemente, algo que raramente fazia, pois não eram muito próximos.

Com o passar do tempo, ele adquire um contato mais íntimo com seu pai, enquanto o escuta narrar importantes fatos de sua vida: como conheceu sua mãe, Anja, na Polônia, poucos anos antes da Grande Guerra; como ambos sobreviveram à perseguição nazista e aos campos de concentração; e, por fim, como chegaram à América.

Quanto mais se conhece o passado de Vladek, melhor se entende suas atitudes presentes: o porquê de sua avareza, os motivos de sua sensação de culpa e o amor incondicional ao filho.

Em meio a isso, Spiegelman revive certos traumas de sua infância e juventude, assim como encara profundamente o difícil relacionamento que sempre teve com o pai. E do mesmo modo que o autor vai descobrindo mais sobre seu “velho”, também consegue entender um pouco mais a respeito de si próprio.

Neste processo, o leitor é agraciado com um enredo envolvente, que enfatiza aquilo que moldou as personalidades de pai, mãe e filho. O mesmo ocorrendo com Spiegelman, que por vezes não suporta as neuroses de Vladek, e explode com ele, para em seguida desculpar-se, compreendendo e aceitando mais e mais a relação que compartilham.

É o retrato de uma família que foi construída durante a Segunda Guerra Mundial, e que ao focar a atenção no patriarca, acaba por destrinchar grande parte dos horrores ocorridos no período.

Deixando o roteiro um pouco de lado, e concentrando-se na arte, o efeito alcançado pelo autor é igualmente magistral.

Spiegelman retrata os judeus como ratos, os nazistas como gatos, os poloneses como porcos, os norte-americanos como cachorros, e o único francês do livro como um sapo. Além disso, em dado momento faz uma espécie de “aparte”, ao mostrar sua dificuldade em conseguir sequer visualizar o que era um campo de concentração. Neste trecho – que por sinal tem uma sublime constatação acerca do sentimento de culpa que tanto o aflige – ele retrata a si mesmo com uma máscara de rato.

É possível, numa observação mais atenciosa, notar que, apesar dos nazistas serem os verdadeiros “vilões”, a maior parte dos poloneses não-judeus mostrados são até mais passíveis de repulsa, com atitudes quase sempre mesquinhas e expressões extremamente desdenhosas.

Num recente artigo para a Folha de S.Paulo (07/12/2005), Marcelo Coelho cita uma dupla ironia no fato dos personagens serem retratados como animais: a primeira é que aquele mundo nazista não tinha nada que pudesse ser classificado como humano, daí a arte seria em certos aspectos conseqüência direta do tom irreal das circunstâncias; a segunda é que, apesar de caracterizados desta forma, há em todo a obra um forte realismo, que contrastaria com Mickey Mouse e o restante do universo de fantasia criado por Walt Disney.

Na página 242 há uma passagem que ainda proporciona um novo ângulo à questão. Nela, Vladek fica impressionado ao ver um judeu ser alvejado por um soldado nazista. Ele pula, se contorce e rola, até por fim perecer. Isto o faz se recordar imediatamente de sua infância, quando presenciou um vizinho matar o próprio cachorro, que havia enlouquecido. Enquanto morria, o cão agia da mesma maneira que o homem. Ele conclui, com seu sotaque: “Impressionante um ser humano reagir do mesmo jeito que cão da vizinho”.

Talvez a questão principal aí não seja tratar o ser humano como um animal a ser abatido, mas sim familiarizar-se tão facilmente a esta condição.

É bom ressaltar que, apesar de o mote principal ser a sobrevivência de Vladek nos tempos de guerra, o presente tem uma enorme importância. Ao constantemente alterar o foco das décadas de 1930 e 40, para a de 80, Spiegelman deixa a impressão de que o mais difícil é a constante necessidade em entender os porquês de tamanha atrocidade.

Nesta edição em formato livro, a Companhia das Letras realiza um belíssimo trabalho, compilando os dois volumes que compõe Maus (que significa rato em alemão).

O volume 1, Meu Pai Sangra História, foi publicado pela primeira vez na íntegra em 1986 . Nele é mostrado desde o momento em que Vladek e Anja se conhecem, até a chegada de ambos a Auschwitz.

Já o volume 2, E Aqui Meus Problemas Começaram, saiu integralmente em 1991 e mostra, além do que ocorre com o casal no campo de concentração e no pós-guerra, o contato com um lado ainda mais intimista do próprio Spiegelman, que escancara inúmeras neuroses, como o sentimento de culpa supracitado, que aumentou com o enorme sucesso da primeira parte do livro. As duas edições saíram no Brasil inicialmente pela Brasiliense.

Maus não é apenas a primeira obra em quadrinhos agraciada com o Prêmio Pulitzer, mas principalmente um magnífico testemunho impresso do que aqueles anos hediondos significaram para seus sobreviventes e descendentes.

É uma obra-prima em todos os aspectos, já que transcende as palavras e as imagens, nos levando a ficar pensando por muito tempo sobre o horror que ousamos infringir uns aos outros.

Classificação

5,0

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