Mensur

Por Milena Azevedo
Data: 2 março, 2018

MensurEditora: Quadrinhos na Cia. – Edição Especial

Autor: Rafael Coutinho (roteiro e arte)

Preço: R$ 54,90

Número de páginas: 208

Data de lançamento: Março de 2017

Sinopse

Gringo é um andarilho que percorre cidades brasileiras em busca de bicos e trabalhos manuais. E é também um dos últimos praticantes do mensur, uma luta de espadas surgida na Alemanha do Século 15, entre estudantes universitários.

Enquanto lida com seus próprios fantasmas e obsessões, um caso amoroso pode colocá-lo em conflito com seu passado e com segredos que jamais deveriam vir à tona.

Positivo/Negativo

Houve um tempo em que ostentar cicatrizes no rosto conferia status aos homens.

Porém, quando as cicatrizes externas são menores do que as internas, e essas levarem àquelas, poderá esse homem se orgulhar de seus feitos?

Tomando esse questionamento como princípio, Rafael Coutinho narra uma história de fôlego sobre um jovem médico, cujo passado mal resolvido e o apego às tradições de uma antiga luta de espadas germânica o levam a uma vida errante, submetendo-se aos mais variados bicos para sobreviver.

O anti-herói de Coutinho não tem nome próprio, e é apresentado ao leitor pelo apelido, Gringo, indicando ser um homem que não pertence aos lugares por onde passa, seja Caxambu, Ouro Preto ou São Paulo.

A trama tem início com um flashback e segue avançando no presente, com alguns lampejos de lembranças e/ou sonhos do Gringo, até levantar o conflito maior do personagem: a questão da honra. O protagonista precisa acertar as contas consigo mesmo e com aqueles que mancharam sua honra (e continuam desonrando outros), resgatando-a para si.

É essa busca pela honra que o faz ser receptivo a todo e qualquer mensuren que o procura, mesmo tendo decidido não mais voltar a duelar, e traz sua espada de volta, nas duas tentativas de se desfazer dela.

O encontro de Gringo com seu ex-professor de faculdade e mentor do mensur, sete anos após o incidente em Ouro Preto, o faz regressar à cidade para rever a mãe e alguns antigos amigos, desencadeando os eventos da trama.

E aqui o comentário feito pelo Gringo, sobre uma barata voadora, serve de metáfora para si próprio: “Bicho burro. Não consegue ir embora. Gira, gira e termina no mesmo lugar”.

Nesse primeiro regresso a Ouro Preto, Gringo se envolve em outro incidente. E, tal qual antes, sua escolha é simplesmente ir embora.

Contudo, passado e presente vão se debater dentro dele, e um novo amor o fará entender ser necessário parar de baixar a cabeça e enfrentar quem nunca havia dado valor a honra, palavra e gratidão.

Coutinho pesquisou bastante sobre o mensur, e levou quase seis anos produzindo o álbum. Esse longo tempo de feitura, intercalado com outros trabalhos, teve seus prós e contras.

A passagem do tempo, em Mensur, nem sempre é explícita, porque intercala presente, passado e/ou sonho com o mesmo layout, desorientando o leitor, embora as transições entre algumas cenas sejam sublimes, como a que sai de um duelo do Gringo com o Professor, e segue acompanhando o movimento das lâminas no ar, intercalando-o com o voo de uma barata ao redor de uma lâmpada acessa.

Outro fator que complica o entendimento da passagem do tempo são alguns erros de continuidade. Por exemplo, no primeiro retorno do Gringo a Ouro Preto, Coutinho se esqueceu de desenhar o gesso em seu braço, para depois reaparecer quando Gringo está no bar.

Essa ausência do gesso faz o leitor se questionar sobre a cena na qual Gringo recupera sua espada pela primeira vez, pouco antes de chegar a Ouro Preto, porque dá margem para interpretação de ser tanto um flashback quanto um sonho, haja vista que o protagonista já está de posse da espada anteriormente em Caxambu (a cena da policial entrevistando-o comprova isso).

Por mais que as coincidências de encontros do Gringo com personagens importantes na trama sejam recorrentes, o estranhamento maior fica por conta de tantos grupos de mensur pipocarem por onde ele passa, como se fosse uma modinha clandestina.

A prática do mensur ainda ser comum na Alemanha é algo plausível, mas no Brasil contemporâneo não se justificam tantos praticantes, principalmente fora do ambiente acadêmico. Essa licença poética foi um tanto quanto forçada, embora a crítica aos jovens de hoje que acham cool resgatar costumes, símbolos, ideais e práticas de outrora sem a devida contextualização, contida nas entrelinhas, seja um ponto positivo.

Outros pontos positivos são a forma como Coutinho extrai voz e dá personalidade aos cenários (num jogo de luz e sombra fantástico), e o bom uso do coloquialismo nos diálogos, principalmente dos figurantes, causando um contraponto entre a poluição sonora externa e o silêncio interior de Gringo.

A trama minimalista elaborada por Coutinho remete bastante aos filmes do cineasta alemão Wim Wenders, nos quais há personagens deslocados, muitas vezes desenraizados, que vagam tentando consertar ou fugir de erros pregressos, com as paisagens atuando como personagens e as ações por coincidência por vezes dando o tom.

Gringo é um forasteiro de si mesmo, e a culpa que carrega pelos erros dos outros o macula (a metáfora do nome sujo devido a uma conta paga, mas não computada pelo sistema, é um ótimo recurso para externar o conflito interno), a ponto de se contentar com uma vida simplória, fazendo trabalhos manuais, bem aquém de suas qualificações.

A inserção da “garota bêbada” na trama vem nortear a vida do Gringo, mesmo a personagem parecendo ser uma bússola quebrada.

Filho de mãe solteira, Gringo se comove ao saber da existência do pequeno rebento da “garota bêbada”. A cada encontro, ele vai nutrindo uma afeição ascendente por ela (diferente dos demais homens, que a tratam como um “pedaço de carne”, ele enxerga sua dor e quer aliviá-la).

E isso o leva a finalmente encarar um ajuste de contas com seu passado, o qual garantirá um futuro diferente ao menino, dando ao Gringo certa paz de espírito.

No entanto, Gringo ainda precisa arcar com as consequências de uma ação cometida apenas por ele (ação evocada pelo flashback de abertura do álbum). E sua jornada lhe mostrou não ser mais viável fugir.

Classificação

4,0

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