Miracleman TP # 1

Por Marcelo Naranjo
Data: 26 julho, 2004

Miracleman TP # 1Editora: Eclipse Books – Edição encadernada

Autores: Alan Moore (roteiro), Garry Leach e Alan Davis (arte).

Preço: US$ 9,95

Número de Páginas: 80

Data de lançamento: 1988

Sinopse

A Dream of Flying – Michael Moran tem freqüentemente o mesmo sonho: ele é um homem poderoso, de uniforme, que voa. Mas tudo acaba num pesadelo, depois de uma grande explosão. Quando acorda, abalado, ao lado de sua esposa Liz, está com uma enorme enxaqueca e tenta se lembrar de uma palavra. O que ela significa?

Moran é repórter, e se vê refém de terroristas armados. A dor na cabeça fica insuportável, e ele passa mal. Subitamente, vê o reflexo de uma palavra, e se recorda: Kimota. Ao exclamá-la, o som do trovão ensurdece a todos, acompanhado de um raio. Um dos terroristas próximos quase morre eletrocutado. O jornalista não é mais um simples mortal: é Miracleman.

Com seu uniforme e poderes de volta, derrota os bandidos e retorna para sua esposa, contando tudo que sua memória trouxe do esquecimento. O surgimento de seus dons, quando um astrofísico apareceu em seu caminho, afirmando comandar a chave harmônica do universo, e lhe fornecendo poder a partir de uma palavra. Além disso, os inimigos fantasiados, os outros heróis, Young Miracleman e Kid Miracleman.

Numa cena inusitada, sua esposa começa a dar gargalhadas, e o herói, irritado, afirma que ela está rindo de sua vida. Liz afirma que tudo aquilo é impossível, já que ninguém nunca ouviu sequer falar do super-herói Miracleman. Ele próprio tem dúvidas. E tudo se complica quando ela fica grávida – do herói, não do repórter.

Já Kid Miracleman é agora um poderoso homem de negócios. Ele convida Moran para um encontro, e o repórter percebe que aquele que antes fora um herói tornou-se alguém muito mais perigoso, um vilão inescrupuloso. Um grande confronto acontece.

Mas não termina aí. Um assassino é contratado para matar Miracleman. Só não consegue, por ter interesse nas origens do herói. E ambos entram em acordo.

Em seguida, surge um novo inimigo: Big Ben é um estranho homem que acredita ser um poderoso super-herói. Só não é páreo para Miracleman.

Quando finalmente descobrem o que havia por trás de toda a história, têm uma grande surpresa ao ficar sabendo de um experimento que envolvia troca de corpos, tecnologia alienígena e uma vida toda induzida através de sonhos.

E, no comando de tudo, um cientista brilhante e maquiavélico de nome Gargunza, que retorna para terminar de vez um assunto inacabado.

Positivo/Negativo

Alan Moore é reconhecidamente um dos maiores nomes dos quadrinhos mundiais, e não é à toa. Miracleman, uma obra que foi apenas parcialmente publicada no Brasil, pela Editora Tannos, e que só agora teve seus problemas de direitos autorais resolvidos na justiça, pode entrar em quaisquer listas sobre os maiores quadrinhos de super-heróis de todos os tempos.

Moore foge de todos os clichês possíveis do gênero, inovando na narrativa a todo o momento, de maneira inesperada, para a época – num pioneirismo único. O eco deste trabalho segue até hoje, sendo influência direta para obras como Authority, de Warren Ellis, e muitas outras.

As alusões e a releitura da história do Capitão Marvel (Shazam), criando uma versão crível para os “tempos modernos”, é memorável. Moore passa rapidamente pelos principais elementos que acompanharam a gênese do Capitão, e coloca em foco seu grande inimigo: Gargunza é um Doutor Silvana muito mais cruel e real, como convém a uma nova visão de obras que perderam sua inocência de décadas anteriores.

O aspecto cientifico da trama sedimenta a possibilidade de seres como Miracleman surgirem a qualquer momento nesse tal “mundo real” – ainda que ele seja imaginário.

A Família Miracleman marca presença, com foco em Kid Miracleman, que de herói passou a vilão e, como todo indivíduo desta estirpe, é extremamente ambíguo, dado seu problema de dupla personalidade.

O personagem é uma das grandes presenças da trama. Seus poderes superam os de Miracleman, e o céu é o limite para este jovem que teve a alma completamente corrompida pelo poder.

E um dos pontos que Moore aborda com competência singular, a partir daqui, é a possibilidade desses seres poderosos estarem realmente presentes entre nós. O que poderia acontecer? Essa indagação segue nos volumes seguintes, e é abordada de modo mais complexo naquela que é considerada a grande obra deste artista, Watchmen.

Esta edição encaderna o primeiro arco da série. Os dois volumes encadernados posteriores, ainda com Moore no comando, mantiveram a qualidade e o ineditismo desta primeira obra, e ainda acrescentaram uma violência explícita e um banho de sangue poucas vezes vistos neste gênero de HQs até então.

Na introdução da edição, após comentar que as histórias de Miracleman, em caso de uma releitura, permitem encontrar coisas novas que passaram batido da primeira vez, Steve Gerber conclui com a seguinte frase: “Elas são mais que memoráveis – após seis anos, ainda são novas”.

E Gerber estava certo, pois hoje, 22 anos depois de lançadas (a série começou em 1982), mais do que atuais, as aventuras continuam surpreendentes.

Com os direitos definitivos nas mãos de Neil Gaiman, a esperança dos fãs é ter boas noticias em breve. E cresce a chance desta obra ser novamente editada, num futuro talvez não tão distante.

O gênero super-heróis deve muito a Moore. Se suas HQs passaram para o panteão dito “para adultos” e, mais que isso, para literatura gráfica, foi principalmente em função de seu texto inteligente e idéias originais. E Miracleman foi um dos primeiros passos nesta direção. Nesta obra podem ser consideradas idéias originais: os experimentos que criaram Miracleman; as referências dentro da história a comic books de super-heróis; os fortes e inteligentes diálogos entre os personagens; os ótimos coadjuvantes; a impressionante batalha entre os dois Miracleman; as constantes surpresas, como a estratégia do mercenário para matar o herói; enfim, tudo!

Seria maldade não comentar as ótimas artes de Leach e Davis, captando as nuances do texto de Moore e transformando o roteiro num grande espetáculo visual.

Todos sabem bem o que veio depois, principalmente pelas mãos de Moore. O único problema é que obras deste porte deixam os leitores de quadrinhos mal acostumados, e querendo mais. E como quase sempre, infelizmente, fica-se a ver navios, Miracleman é para ser guardado na memória como uma excelente recordação.

Classificação

5,0

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