Ms. Marvel – Nada Normal

Por Audaci Junior
Data: 29 fevereiro, 2016

Ms. Marvel – Nada NormalEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: G. Willow Wilson (roteiro), Adrian Alphona (arte) e Ian Herring (cores) – Originalmente em Ms. Marvel # 1 a # 5 e All-New Marvel Now! Point One # 1 (tradução de Rodrigo Barros e Paulo França).

Preço: R$ 18,90 (capa cartonada) e R$ 26,90 (capa dura)

Número de páginas: 128

Data de lançamento: Janeiro de 2016

Sinopse

Kamala Khan é uma adolescente mulçumana de New Jersey, até que subitamente ganha dons extraordinários. Mas quem é realmente a nova Miss Marvel?

Ao descobrir os perigos associados aos seus recém-descobertos poderes, Kamala precisa lidar também com o segredo que existe por trás deles. Estará a mais nova heroína pronta para utilizar seus imensos dons? Ou o peso do legado que tem a carregar será mais do que pode aguentar? Nem ela mesma sabe ao certo.

Positivo/Negativo

Para analisar esse arco inicial da nova Miss Marvel, é preciso saber um pouco mais da sua escritora, a norte-americana G. Willow Wilson.

A autora divide seu tempo entre artigos e ensaios sobre religiões modernas e a carreira como roteirista de quadrinhos. Fã dos comics, seu primeiro contato com o universo de super-heróis foi aos 11 anos, quando se debruçou num exemplar de The Uncanny X-Men.

Na escola, costumava se vestir como a Morte, de Sandman, mas se indignava por não existir nas publicações uma personagem feminina principal forte, sem ser uma mera ajudante, uma figura ingênua ou o interesse amoroso de alguém.

Assim como a protagonista de Ms. Marvel, ela nasceu em New Jersey, em 1982. Começou sua carreira de escritora aos 17 anos, como freelance de crítica musical. Cursando História na Universidade de Boston, conheceu e se converteu à religião Islâmica. Após a formatura, mudou-se para o Cairo, capital do Egito, e foi a primeira mulher ocidental a entrevistar Ali Gomaa, o então Mufti (máxima autoridade do Islã) da República egípcia.

Ela mesma se considera uma mulçumana atípica, apesar de executar as práticas ortodoxas, como jejuar durante o Ramadã – o nono mês do calendário islâmico.

Todas essas características do perfil de G. Willow Wilson se refletem neste novo trabalho que leva o selo da Nova Marvel, a reformulação dos quadrinhos da “Casa das Ideias” que estão saindo pela Panini, numa série de encadernados como este.

Além de não ser gratuito ou puro modismo apresentar uma personagem de uma doutrina “exótica” para o Ocidente, a jovem Kamala Khan pode ser vista logo de cara como uma “mulçumana atípica” (como a roteirista), ao se contentar em apenas cheirar os sanduíches de gordurosos bacons.

Por saber onde está pisando – vivendo os dois lados da moeda por ser uma norte-americana convertida –, essa característica forte da protagonista não é colocada de forma panfletária ou forçada.

Basta analisar o comportamento de uma das colegas de escola, chamada Zoe, tudo que Kamala queria ser. Por causa dessa projeção, ela não enxerga o bullying que sofre da “simpática amiga”, que morde e assopra nos seus comentários maldosos acerca do islamismo.

Ao mostrar essas formas de preconceito de forma orgânica e até certo ponto velada, Wilson joga uma luz sobre a ignorância (da maioria) dos leitores sobre o tema. Não coloca o leitor no lugar do agressor, mas as situações fazem refletir e ter curiosidade sobre os conceitos e elementos do Islã.

O núcleo familiar de Kamala também é destaque na série. A mãe acha que ela está acabando com a família tentando fazer coisas que adolescentes rebeldes corriqueiramente fazem. O pai chega a dialogar, mas não abre mão da educação religiosa da filha. Expectativas e protecionismos típicos de pais em qualquer parte do globo.

Os primeiros capítulos apresentam também a origem da personagem, ligada a uma misteriosa névoa que envolveu New Jersey quando ela voltava de uma festa. Esse fato faz parte de algo que está ligado às consequências na cronologia e em outros títulos da Marvel. No entanto, a autora não quis entregar de bandeja e mantém o suspense. Ponto também para a Panini, por não incluir nenhuma nota de rodapé ou observações após os eventos apresentados neste volume. Ao que tudo indica, as dúvidas serão sanadas no seu devido tempo.

A admiração pelos Vingadores – especialmente a Capitã Marvel – justifica o porquê de a garota adotar o manto de Miss Marvel. Aliada aos seus recém-adquiridos poderes transmorfos e ao desnorteio da exposição à névoa, aquela mesma equivocada “projeção de perfeição” que Kamala tem pela colega Zoe é colocada aqui.

Com leveza e bom humor, há momentos bastante inusitados, mas bem longe dos choques culturais: repare no comentário e na ação da personagem quando indaga ao amigo onde foi parar uma bala depois de ser alvejada num desastroso assalto.

A HQ ganha força com o refinado traço do canadense Adrian Alphona, o mesmo da série Os Fugitivos. Com ajuda da arte e a sutileza ao redor dos cenários nos detalhes críticos, Wilson cutuca o sistema, a exemplo da caixa de cereais “transgênicos” da página 52. Dá gosto de ver.

Outra curiosidade é a capa, bem parecida com o número de estreia da Supergirl pós-Crise, de Peter David e Gary Frank, publicada no Brasil no título do Superboy (2ª Série) # 16, no formatinho da Abril.

Até agora, o ponto mais fraco da trama está nos asseclas do antagonista e suas parafernálias habituais. Apesar do seu aspecto diferente, que ajuda na mise-en-scène, o vilão chamado Inventor tem um discurso bem clichê na sua primeira aparição.

Sobre o projeto editorial, há uma pequena escorregada na edição da Panini, que coloca “Parte quatro de cinco” por duas vezes.

Este primeiro volume de Ms. Marvel ganhou o Hugo Awards 2015 na categoria Melhor História Gráfica e este ano ganhou como Melhor Série no Festival Internacional de Angoulême, na França.

Com a primeira publicação de um trabalho de G. Willow Wilson no Brasil, tomara que este seja o passaporte para outras obras da autora, como a graphic novel da Vertigo Cairo, a série Air, também para o selo adulto da DC (ambas ilustradas pelo turco M.K. Perker), e Return of the Lion, uma minissérie passada na África envolvendo a super-heroína membro da Liga da Justiça Vixen (com arte do espanhol Cafu).

No território em que impera a supremacia masculina, tanto no campo das ideias quanto no das equipes criativas, Ms. Marvel mostra a pluralidade de uma escritora inquieta, que se indignava por não existir personagens femininas fortes, sem ser uma mera ajudante, uma figura ingênua ou o interesse amoroso de algum altivo super-herói que salva o dia.

Classificação

4,0

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• Outros artigos escritos por

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  • André Ribeiro de Oliveira

    A arte é legal, mas o roteiro é fraco. Achei muito legal a premissa de usar uma garota muçulmana e mostrar essa cultura, mas penso que o roteiro poderia ter sido melhor desenvolvido. Tudo bem que é uma HQ voltada para o público adolescente, mas esperava mais. Daria nota 3 de 5.

  • Beto Magnun

    Bom ler uma HQ de super heróis leve , descontraída e bem desenhada. Longe de ser pretensiosa e ruim como os 470 títulos do Batman e X-Men espalhados por aí.

  • Heberton Arduini

    Uma surpresa. Não esperava muito de um titulo da nova marvel. Uma boa serie, recheada de detalhes sutis.