Muiraquitã

Por Lucas "Poderoso Porco" Ed
Data: 18 fevereiro, 2011

MuiraquitãEditora: Independente – Edição especial

Autores: Wellington Srbek (roteiro) e Laz Muniz (desenho e arte-final).

Preço: R$ 20,00

Número de páginas: 120

Data de lançamento: Outubro de 2006

Sinopse

Para comemorar seus 20 anos de envolvimento com as HQs, Wellington Srbek, roteirista responsável (ao lado do falecido Flavio Colin) por Estórias Gerais, decide contar uma inusitada história, misturando mito e alguma metáfora sobre o quadrinho produzido no Brasil.

Numa viagem científica à floresta amazônica, o jovem estudante de biologia Miguel Andrade se envolve numa estranha trama sobrenatural, quando um amuleto em forma de rã ganha vida e se une a ele.

Procurando respostas, Miguel conhece o professor Cornelius Flamarion, que lhe abre as portas para uma realidade na qual mulas sem cabeça, lobisomens, sacis e curupiras não só existem como correm imenso perigo!

Positivo/Negativo

Não são poucas as pessoas que algum dia sonharam em contar suas próprias histórias em quadrinhos, falando de coisas do Brasil, sem superseres mascarados rasgando os céus com sua moral inabalável além dos limites do possível.

Por que não fazer HQs com a cultura brasileira, a exemplo do que Neil Gaiman fez com emSandman. Pretensioso? Bastante. Mas Wellington Srbek ousou pisar nesse terreno.

Este especial conta como o biólogo Miguel Andrade, numa visita à floresta amazônica, literalmente, “abre os olhos” (e tem a cor deles mudada) após ter fundido ao seu corpo um estranho amuleto em forma de rã.

Este artefato permite que ele veja tudo o que se supõe lenda, folclore. Agora chamado “Miguel Muiraquitã”, o rapaz pode ver o que se esconde por baixo dos panos do País.

Para tanto, ele conta com a ajuda do professor Cornelius Flamarion (desenhado à semelhança do mestre Flavio Colin, e com o sobrenome quase igual ao do astrônomo Camille Flammarion, um controverso homem de ciência adepto do espiritismo kardecista), presidente da Sociedade de Estudos Sobrenaturais, e de sua equipe de colaboradores e amigos, que inclui uma cartomante que é a cara da escritora Clarice Lispector.

Ao falar de mitos e lendas brasileiras, Srbek faz uma quase sutil metáfora sobre o palco dos quadrinhos no Brasil. Nas figuras gastas e cansadas da Iara, do Ipupiara, do Curupira, do Saci, é difícil não perceber a combalida produção nacional que, entre 2002 e 2004 (quando a obra foi produzida) passava longe de atingir as comic shops como hoje. E ficava ainda mais distante das bancas, como ocorria décadas atrás.

Mais: o autor coloca uma misteriosa ameaça estrangeira a devorar esse substrato cultural – e sem deixar claro se existe outro motivo para isso que não a aniquilação pura e simples.

O roteiro de Srbek é competente. Se não chega ao quase brilhantismo naturalista de Estórias Gerais, ao menos deixa de lado a empolação dos escritores brasileiros em início de carreira. Seus personagens parecem pessoas de verdade, fazem besteiras, somem, são derrotados sem chance de revanche.

Infelizmente, talvez pelas próprias condições de publicação, ou pelo esforço extra que uma produção independente exige de seu autor para chegar até o fim, Muiraquitã sofre um pouco no seu desfecho, que soa repentino, apressado e exausto. Mas nada que desmereça a obra.

Mesmo porque, o verdadeiro ponto fraco do trabalho está na arte. Ainda que não seja de todo ruim, o desenho de Laz Muniz não acompanha o roteiro: sua narrativa e enquadramentos são óbvios demais; e seus personagens, inconstantes demais.

A exceção é o trecho em que se narra a origem do amuleto que Miguel carrega fundido a si, em que Laz assume um tom mais simplista, quase infantil, mas tão bem proposto que chega a surpreender.

Difícil de ser encontrado fora de Belo Horizonte, onde residem os dois autores, Muiraquitã é um gibi que vale a pena, seja pela ousadia bem-sucedida de contar histórias com personagens “infantis” sem ser infantil, seja pelo enaltecer que dá à cultura da terra – meio abafada, desacreditada e sendo engolida.

Classificação

4,5

Lucas “Poderoso Porco” Ed é colaborador do Melhores do Mundo

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  • ARNALDO MOTA

    Óbidos, Monte Alegre e Santarém são (cientificamente) os locais mais prováveis de origem do elemento muiraquitã presente em algumas lendas amazônicas que antigos romancistas e folcloristas, por conta própria, estenderam para outras localidades. A outra única possibilidade de origem seria da tese asiática, no entanto essa é defendida por uma minoria extremamente pequena de pesquisadores.