Na vida real

Por Milena Azevedo
Data: 21 dezembro, 2015

Na vida realEditora: Jupati Books – Edição especial

Autores: Cory Doctorow (roteiro) e Jen Wang (arte e cor) – Originalmente em In real life (tradução de Flávia Gasi e Felipe Della Corte).

Preço: R$ 48,00

Número de páginas: 192

Data de lançamento: Novembro de 2015

Sinopse

Anda adora Coarsegold Onine, um RPG massivo no qual passa boa parte de seu tempo livre. É um lugar onde ela pode ser uma líder, uma lutadora, uma heroína. Onde pode encontrar pessoas do mundo todo e fazer novos amigos.

Só que as coisas começam a ficar um pouco complicadas quando Anda fica amiga de um gold farmer.

Positivo/Negativo

Uma pesquisa da Game Brasil em 2015 mostrou que as mulheres somam 47,1% dos gamers brasileiros. Mas, apesar disso, poucas costumam jogar com avatar (imagem do jogador) feminino, em decorrência do comportamento agressivo da maioria dos jogadores homens.

Fato similar ocorre com garotas gamers de diversas partes do mundo, e isso é retratado logo no início da trama da graphic novel Na vida real, publicada pela Jupati.

Anda toma conhecimento do MMO (RPG Massivo, jogado de forma on-line) Coarsegold Onine, durante a visita de uma gamer profissional à sua escola para uma palestra que tinha o objetivo de recrutar meninas para jogar “como meninas”, dentro de uma guilda, no referido jogo. Dessa forma, a jovem pede autorização à mãe e inicia sua aventura.

Logo a garota vira uma guerreira excepcional e fica sabendo que alguns gamers ganham dinheiro de verdade executando gold farmers (gamers orientais de classes baixas, que são contratados para “farmar” ouro e vendê-lo a jogadores que podem pagar com dinheiro real para assim conseguir itens facilmente).

Então, Anda faz algumas dessas missões, até começar uma amizade com um gold farmer chinês e ser informada sobre as injustiças atreladas à sua condição social.

Na colorida fantasia virtual, Anda acaba descobrindo os tons de cinza do mundo concreto, e sua perplexidade lhe faz mobilizar a primeira em prol do segundo, pois marcar pontos na vida real vai se mostrar uma experiência totalmente singular.

O roteiro de Na vida real é redondinho e envolvente, com o mérito que apresentar uma empática protagonista feminina e ser dirigido a gamers e leigos de qualquer sexo e idade. Adaptado do conto Anda’s Game, escrito pelo próprio autor, o jornalista e escritor Cory Doctorow, denuncia os bastidores nada sedutores dos jogos on-line, onde o bullying, o preconceito e a prática de atividades ilícitas é uma constante, desvirtuando a emoção da diversão sadia e do prazer de ganhar algo por merecimento.

No entanto, fica claro que o objetivo de Doctorow não é alarmar os pais, pois é mostrado o lado bom desses jogos – amizade, trabalho em equipe, senso de responsabilidade, estudos de estratégia, liderança, confiança, aprendizado de idiomas –. A ideia é fazer o leitor refletir sobre o quanto de sua vida ele leva para o virtual, enfatizando que o problema não é o jogo em si ou o escapismo, e sim a forma como alguns se apropriam dele e da competitividade entre os gamers para incutir conceitos do mundo real por lá. Ou seja, se você vem de uma condição social não muito favorável, será assim também no game, trabalhando para que os mais abastados possam pagar para trapacear.

O traço estilizado de Jen Wang ajuda a narrativa a fluir, e as cores foram pensadas para demarcar o real (tons mais sóbrios) da fantasia (mistura de cores quentes e frias, com direito a efeitos de aguada em alguns quadros).

A edição nacional pecou pela falta de uma revisão mais atenta, pois há uma porção de erros de digitação (tanto no texto introdutório de Doctorow quanto na HQ em si), mas acertou em chamar a especialista em games Flávia Gasi para fazer a tradução a quatro mãos com Felipe Della Corte.

Classificação

4,5

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