Noite na Taverna

Por Lielson Zeni
Data: 17 fevereiro, 2012

Noite na TavernaEditora: Ática – Edição especial

Autores: Reinaldo Seriacopi (roteiro), Rodolfo Zalla, Franco de Rosa, Rubens Cordeiro, Arthur Garcia, Sebastião Seabra, Walmir Amaral (arte) e Mozart Couto (capa).

Preço: R$ 28,50

Número de páginas: 96

Data de lançamento: Dezembro de 2011

Sinopse

Adaptação em quadrinhos do livro Noite na taverna, de Álvares de Azevedo. Os amigos Solfieri, Johann, Bertram, Arnold, Gennaro e Claudius Hermann embriagam-se e contam, ao redor de uma mesa, histórias escabrosas vividas por eles.

Positivo/Negativo

Há várias formas de se pensar uma adaptação literária para outra mídia. A primeira pergunta seria “para qual meio isso vai ser transposto?”. A resposta, no caso de Noite na taverna, é fácil: de texto em prosa para história em quadrinhos.

Nesse tipo de tradução intersemiótica, parte do que era visualizado na mente do leitor a partir da palavra passa a ser imaginado diante de um símbolo pictórico. E as imagens a traço substituem parcelas do texto.

E nesse jogo de o que fica, o que sai e o que caberá nas efetivas 78 páginas está o trabalho do roteirista Reinaldo Seriacopi. A tirania das escolhas o obrigou a prescindir de vários intertextos com a filosofia e a poesia, embora tenha mantido muito do texto lírico de Álvares de Azevedo.

Por mais sensato e, sobretudo, pedagógico que seja não comparar a HQ com o romance que lhe dá origem, o próprio roteirista trabalha nesses termos e a editora Ática pensa seu produto voltado para as salas de aula.

Mas aqui está o ponto de acerto da equipe editorial de Noite na taverna: o álbum pode ser projetado para listas de compras governamentais, para adoção em escolas, para agradar professores que possivelmente nada conheçam sobre histórias em quadrinhos, mas ele não abre mão de ser uma excelente HQ.

A percepção de que o romance de Azevedo se organiza com uma série de contos macabros e sinistros e entender isso como “quadrinho de terror” é brilhante. Daí para a contratação de mestres das histórias de horror brasileiras das décadas de 1970 e 1980 é quase um caminho natural.

Na capa já se sente o vento gélido e o cheiro de casarões abandonados de vida e repletos de pesadelos. A logotipia de Mateus Acioli e, principalmente, a arte de Mozart Couto atacam a memória e jogam o leitor diante de revistas como Mestres do terror, Calafrio ou Kripta, com uma moça apavorada – observe-se que ela veste muito mais roupa do que nas publicações clássicas.

Outra sacada da publicação é tão genial quanto óbvia: cada uma das histórias, que no livro são narradas por personagens diferentes, foi desenhada por um artista diferente, com a trama da taverna ficando sempre a cargo de Rodolfo Zalla.

Houve a opção consciente pela manutenção do texto de original sem adaptações, o que implicou uma história um pouco mais travada e menos fluída e a permanência do clima nefasto da obra de Azevedo.

Os quadros finais, por exemplo, são uma excelente transformação do texto em imagem.

Complementam a edição várias informações sobre a época, o processo de produção do quadrinho, os autores e as HQs de terror no Brasil. Tudo claramente direcionado para uso em sala de aula, porém sem deixar de ser interessante para o leitor fora da escola.

Como muita coisa ficou de fora, este gibi não substitui o original. O que é ótimo, pois o álbum se preocupa em ser uma baita HQ e não uma sinopse do romance de Álvares de Azevedo. E consegue.

Classificação

4,0

• Outros artigos escritos por

.

.

.