NOTAS SOBRE GAZA

Por Sidney Gusman
Data: 1 dezembro, 2010

NOTAS SOBRE GAZA

Editora: Quadrinhos na Cia.
– Edição especial

Autor: Joe Sacco (texto e arte).

Preço: R$ 55,00

Número de páginas: 432

Data de lançamento: Outubro de 2010

 

Sinopse

Dez anos depois de relatar em quadrinhos o conflito entre israelenses e palestinos, Joe Sacco volta à Faixa de Gaza para realizar seu projeto mais ambicioso até aqui: resgatar do esquecimento quase completo dois episódios ocorridos quase 50 anos antes.

Em novembro de 1956, nas cidades de Khan Younis e Rafah, centenas de civis foram mortos pelo exército israelense em uma incursão militar que tinha tudo para ser uma operação rotineira de captura de guerrilheiros palestinos.

Segundo os poucos relatórios da ONU disponíveis, os soldados teriam simplesmente entrado em pânico ao deparar com uma multidão em fuga. Já de acordo com o primeiro-ministro israelense, as tropas entraram em confronto com rebeldes armados, muito embora não tenha ocorrido uma única baixa entre suas fileiras.

Mas os palestinos têm outra versão para o que, na prática, foi um massacre.

Joe Sacco tenta reconstituir esses eventos, um dos mais importantes para a violência irrefreável em que se transformou a relação entre israelenses e palestinos.

Positivo/Negativo

Quando lançou o álbum Palestina – Na faixa de Gaza, em 1996, o maltês Joe Sacco deu nome a um gênero que, desde então, não para de crescer: o jornalismo em quadrinhos. O que lhe valeu um American Book Award

Para quem não o conhece, este jornalista vai a zonas de guerra mundo afora e retrata o que vê em quadrinhos, mostrando cenas raramente vistas em jornais e televisões, por exemplo.

Neste álbum, um “tijolão” de 432 páginas, no entanto, Sacco encara um desafio diferente: reconstituir um massacre ocorrido no distante ano de 1956. Não bastassem as dificuldades impostas pelos índices de mortandade da Faixa de Gaza e pela idade avançada dos poucos sobreviventes, há outro obstáculo bastante interessante: pela primeira vez, o jornalista conta uma história em que não foi testemunha ocular.

Em Palestina – Na faixa de Gaza e Gorazde – Área de segurança, Joe Sacco retratou o que viu e vivenciou. Desta vez, para recontar aquele trágico novembro de 1956, precisou montar as cenas baseado nas centenas de testemunhos que colheu. Não deixa de ser um belo exercício de jornalismo, mas o foco muda quando a narrativa se baseia tanto em “segundo fulano” ou “de acordo com cicrano”.

Mas Sacco já é tão experiente nesse tipo de história, que resolveu mesclar as sequências do passado com o drama atual dos palestinos que têm suas casas destruídas pelo exército israelense – há cenas em que ele corre risco de ser alvejado por tiros. Isso atenua o problema e levanta um contraponto magnífico entre 1956 e o presente. Afinal, as coisas mudaram tanto desde então?

E assim o autor segue mostrando as opiniões dos dois lados, expondo incongruências em diversos depoimentos e, principalmente, deixando claro que não importa mais quem deu início ao conflito entre palestinos e israelenses; a brutalidade é tamanha, que o discernimento é quase sempre esquecido. E o número de vítimas (em sua maioria inocentes) só aumenta.

Impressiona o cuidado que Joe Sacco teve na montagem de sua história. Apesar de ser um relato jornalístico, ele fecha os capítulos da obra de forma impactante, com frases – dele e de seus entrevistados – que mexem com o leitor. Confira algumas abaixo.

“No começo eu parti para o enfrentamento, mas depois absorvi a loucura deles.”

“Eu sei que vou morrer, sei que vou ser assassinado, mas já está demorando demais.”

“Deus quis que isso acontecesse conosco – que perdêssemos nossa terra e viéssemos até aqui para sermos assassinados.”

“Enquanto os bombardeios israelenses ressoam acima das nuvens, a chuva lava o sangue das ruas.”

“A casa dela, e todo o restante quarteirão, não existe mais.”

“Parecia o juízo final.”

Na arte, o autor dá um show. O seu traço, nitidamente inspirado na escola underground de Robert Crumb, está muito detalhista. Nas cenas abertas, vale atentar para o zelo na finalização dos desenhos.

Além disso, Notas sobre Gaza mostra um amadurecimento de Joe Sacco como quadrinhista. Em relação a seus trabalhos anteriores, ele diagrama melhor as páginas, distribui de modo mais inteligente o texto e faz os recordatórios e balões conviverem de forma mais harmoniosa com sua arte – o que não ocorria antes.

Editorialmente, o trabalho da Quadrinhos na Cia. só não é impecável, pois algumas letras de certas palavras saíram estranhamente separadas (talvez por algum problema na fonte usada), mas nada que dificulte a leitura.

Notas sobre Gaza é uma leitura densa, pesada, que faz pensar. O álbum deveria ser obrigatório não apenas em universidades, mas também em redações de jornais, revistas e TVs. Assim, todos compreenderiam (se é que isso é possível) um pouco mais do conflito entre israelenses e palestinos.

Classificação:

4,0

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