O CABELEIRA

Por Sidney Gusman
Data: 1 dezembro, 2008


Autores: Leandro Assis e Hiroshi Maeda (roteiro, inspirado no romance
homônimo de Franklin Távora) e Allan Alex (arte).

Preço: R$ 39,90

Número de páginas: 136

Data de lançamento: Junho de 2008

Sinopse: Em 1786, José Gomes, o Cabeleira, era muito temido na
então província de Pernambuco. Ele foi um dos primeiros bandoleiros de
que se teve notícia no Brasil. Filho de mameluco, matava sem piedade e
roubava de todos – nem a igreja, tão forte e respeitada na época, escapava.

Acompanhado de seu pai, Joaquim Gomes, e de Teodósio, um preso liberto,
o Cabeleira espalhou o terror nos idos do Brasil Colônia. Sua história
sobreviveu graças à cultura oral, contada de pai para filho.

O verso abaixo foi um dos que eternizou o Cabeleira.

Fecha a porta gente.
Cabeleira aí vem,
Matando mulheres,
Meninos também.

Positivo/Negativo: A história deste álbum, o primeiro da Desiderata
desde que foi adquirida pela Ediouro, tem origem em duas outras
mídias. A primeira é evidente: o livro de Franklin Távora, de 1876, considerado
o primeiro romance regionalista ambientado no Nordeste do Brasil, no qual
a trama foi inspirada.

E a segunda é o cinema. Ou quase isso. Leandro Assis e Hiroshi Maeda escreveram
sua versão para a história como um roteiro para a telona, que foi apresentado
durante o 8º Laboratório de roteiros de cinema, realizado pelo
Sesc. Depois de receberem dicas de consultores da área, burilaram
a trama, mexendo na infância do protagonista.

E aí surgiu a Desiderata, com a proposta de publicar O Cabeleira
em quadrinhos, logo topada por Assis e Maeda, ambos fãs da arte seqüencial.
Sorte dos leitores, pois trata-se de uma das melhores HQs nacionais publicadas
nos últimos anos – em 2008, até o momento, lidera esse ranking
com sobras.

O roteiro do álbum é envolvente e a maneira como os autores construíram
a infância do Cabeleira faz toda a diferença realmente. As idas e vindas
do presente para o passado requerem um pouco de atenção na leitura, mas
é nessas passagens que Assis e Maeda mostram como foi forjado o bandoleiro.

Mas, por mais paradoxal que pareça, o que dá o ritmo cinematográfico à
história é justamente a arte do veterano Allan Alex. Ele “brinca” de tal
forma com os enquadramentos, os planos fechados e abertos e a disposição
dos quadros nas páginas, que para o leitor é quase possível imaginar O
Cabeleira
na tela grande. Seu controle sobre ritmo da trama fica evidente.

Allan Alex tem um excelente domínio das técnicas de luz e sombras e é
dono de um traço personalíssimo. Vale atentar para a forma como ele evidencia
as expressões faciais, algo que muitos desenhistas estrangeiros renomados
simplesmente não conseguem fazer.

O trabalho em O Cabeleira comprova algo que sempre se disse a respeito
de Allan Alex quando o Brasil conheceu melhor o seu trabalho, nas histórias
de Nonô Jacaré (escritas por Carlos Patati), na extinta revista
Porrada! Special, da Editora Vidente: se a sua produção
fosse maior, ou se tivesse havido espaço para isso, ele seria reverenciado
hoje como um dos maiores artistas das HQs nacionais dos últimos 20 anos.

Com este álbum, porém, a Desiderata ajuda a mostrar os desenhos
de Alex para uma nova geração. Que bom.

Aliás, O Cabeleira tem grande chance de “fazer carreira” junto
a leitores que não sejam fãs de quadrinhos. O álbum parece feito sob medida
para ser adotado em escolas e até universidades.

Isso sem contar o mercado externo, pois, além de o tema atrair muito o
interesse de estrangeiros, especialmente dos europeus, o expressivo traço
de Allan Alex seria outro trunfo para fazer essa “ponte”. Fica a dica
para a Desiderata. Afinal, não custa sonhar em ver a frase “O Cabeleira
vem aí” em outros idiomas.

Classificação:

4,0

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