O DECÁLOGO # 7 – OS CONJURADOS

Por Sidney Gusman
Data: 1 dezembro, 2008


Autores: Frank Giroud (roteiro), Paul Gillon (arte) e M-P. Alluard (cores).

Preço: 15,50 euros

Número de páginas: 56

Data de lançamento: Fevereiro de 2004

Sinopse: Em 1822, numa França mal conduzida por seus governantes, o romantismo emergente transtornava muita gente. Especialmente Hortense Fleury, que, no calor de um tumulto, se apaixona pelo charmoso tenente Odilon Vitrac. Não apenas porque ele é jovem e belo, mas também porque parece partilhar os sentimentos dela e por pertencer à fascinante Carbonária – uma sociedade secreta cujo objetivo é derrubar a monarquia.

Mas dois obstáculos se interpõem a esta mútua atração: um filho que ela não quer magoar e um marido doente por quem tem um respeito quase religioso. Iludindo os seus próprios sentimentos, Hortense decide canalizar o fervor desta paixão para a defesa da causa Carbonária, à qual se dedica de corpo e alma.

E é tanto para defender esta causa como para esquecer o belo oficial, que ela propõe a edição de uma obra fora do comum, destinada a perdurar como um marco da história da literatura: Nahik. Como na época tudo que reportava ao Egito chamava a atenção, e a história do texto se passava justamente naquele país, a venda do livro serviria para arrecadar fundos para a Carbonária.

Positivo/Negativo: O Decálogo é um grande sucesso na Europa. A série foi inicialmente lançada na França, pela Glénat, a partir de janeiro de 2001. No 17º Festival de Amadora, em Portugal, por exemplo, uma bela exposição dedicada à obra era uma das que mais chamava a atenção do público.

A trama gira sempre em torno do Nahik, um livro definido como um romance excepcional, um objeto de arte, um tesouro bibliográfico, um tomo sagrado, um instrumento político ou, simplesmente, uma ponte entre dois seres.

No Nahik estaria presente o equivalente muçulmano dos Dez Mandamentos do cristianismo. E teriam sido escritos sobre a omoplata de um camelo, em árabe Hidjâzì. Seriam eles:

1) Não matarás;

2) Saberás escutar a tua consciência, para nela ouvir a voz de Deus;
3) Não atribuirá a Deus nenhuma imagem;
4) Não prestarás falso testemunho;
5) Perdoarás os teus inimigos;
6) Honrarás pai e mãe;
7) Não enganarás os que te amam;
8) Mostrar-te-ás caridoso com os fracos, os diminuídos e os pobres de espírito;
9) Não cobiçarás o bem do próximo;
10) Farás amar Deus pelo exemplo e não pela força.

A série é formada por dez álbuns independentes, mas que possuem uma ligação. Assim, podem ser lidos isoladamente ou como uma saga. Em comum, todos mostram as paixões e ganâncias que movem o homem desde a aurora dos tempos e também suas incertezas frente ao Além e às suas relações com o divino.

Neste sétimo tomo, enfim, começa a ser desvendada a origem do misterioso Nahik. A história apresenta a impressão inicial do livro e a bela Hortense faz revelações importantes. Primeiro que o desaparecido pintor francês Fernand Desnouettes deu as belas aquarelas que compõem a obra ao irmão dela, Eugène, durante uma expedição ao Rio Nilo – o que é mostrado em detalhes no novo álbum.

Depois, ela revela que o autor do texto era um antigo pretendente que
ocupava um posto elevado à frente do governo e queria sigilo. E teria
dado a Hortense os direitos da obra. No oitavo
tomo
, o leitor descobre que a coisa não foi bem assim.

O roteiro de Giroud é muito bem construído. O texto, mesmo nas passagens mais lentas, prende a atenção do leitor, que é surpreendido algumas vezes por reviravoltas na trama. Um bom exemplo disso está nos recordatórios que aparecem desde o começo do álbum. É fácil deduzir que é Hortense quem está “falando” ali, mas nas páginas finais vêm a comprovação do engano.

O relato do amor proibido de Hortense e do tenente Vitrac dá um contrapeso muito inteligente ao outro plot, que é focado na revolta contra o rei Luís XVIII e o conde de Villèle (Jean-Baptiste Guillaume Joseph Marie Anne Seraphin), que ocupava o cargo de primeiro-ministro da França.

E é justamente quando o autor revela que o garoto Benjamin não é filho de Hortense, mas sim de sua irmã Ninon (já falecida) com o coronel Fleury, que a trama ganha em emoção. Especialmente pela participação decisiva do garoto no trágico desfecho.

E, para os supersticiosos de plantão, o Nahik mostra neste tomo que já “nasce” maldito – não é à toa que atraiu tanta desgraça a todos que acabaram se envolvendo com ele. Afinal, sua primeira impressão é marcada por uma tragédia (um incêndio criminoso na gráfica destrói a maioria dos exemplares) que, ao mesmo tempo, acaba conferindo à obra uma raridade imediata.

Os desenhos, bastante competentes, são do veterano francês Paul Gillon, que completa 82 anos em maio de 2008. Ele já foi publicado por aqui no álbum A Sobrevivente, da Coleção Ópera Erótica, da Martins Fontes. Seu traço é bonito, com boa caracterização de personagens e cenários, e tem uma narrativa eficaz. No entanto, a diagramação de suas páginas segue o padrão mais rígido dos europeus.

As cores sóbrias de Alluard pouco interferem no desenho e apenas reforçam o clima “carregado” que permeia toda a trama. A capa da edição segue o bonito projeto gráfico da coleção, mas sua arte pouco diz ao leitor. Definitivamente, não seria um álbum que alguém compraria por ficar impressionado com a capa.

Na parte gráfica e editorial, o trabalho da Asa foi perfeito: capa dura, papel de luxo, minibiografias dos autores e bom tratamento de texto.

Como há muitas editoras interessadas em trazer mais HQs européias ao mercado nacional, O Decálogo é uma excelente pedida para pintar nas nossas livrarias. Fica a sugestão.

Classificação:

4,0

• Outros artigos escritos por

.

.

.