O DECÁLOGO # 8 – NAHIK

Por Sidney Gusman
Data: 1 dezembro, 2008


Autores: Frank Giroud (roteiro), Lucien Rollin (arte) e J-J. Chagnaud (cores).

Preço: 15,50 euros

Número de páginas: 56

Data de lançamento: Fevereiro de 2004

Sinopse: 1813. Alexandre e Ninon Fleury retornam à França após a derrota do exército imperial. Eles se refugiam na casa de Hector, irmão de Ninon e romancista famoso, que vive numa estranha mansão onde cada cômodo transpira angústia e mistério.

Mas o mal-estar que se vive durante o dia em nada se compara ao terror que se instala a cada pôr-do-sol, quando ressoam pela casa os gritos do ex-capitão Eugène Nadal, irmão de Hector e de Ninon, que, por causa da sua demência, foi encarcerado num torreão isolado.

Todas as noites, o repouso de Eugène é perturbado por uma hedionda criatura, um ser maléfico, surgido de um crime do passado e da sua imaginação delirante. Um ser abominável e poderoso, um monstro temível a que se chama… Nahik.

Por isso, Ninon decide buscar uma cura para Eugène, mesmo contra a vontade de Hector.

Positivo/Negativo: O Decálogo é um grande sucesso na Europa. A série foi inicialmente lançada na França, pela Glénat, a partir de janeiro de 2001. No 17º Festival de Amadora, em Portugal, por exemplo, uma bela exposição dedicada à obra era uma das que mais chamava a atenção do público.

A trama gira sempre em torno do Nahik, um livro definido como um romance excepcional, um objeto de arte, um tesouro bibliográfico, um tomo sagrado, um instrumento político ou, simplesmente, uma ponte entre dois seres.

No Nahik estaria presente o equivalente muçulmano dos Dez Mandamentos do cristianismo. E teriam sido escritos sobre a omoplata de um camelo, em árabe Hidjâzì. Seriam eles:

1) Não matarás;

2) Saberás escutar a tua consciência, para nela ouvir a voz de Deus;
3) Não atribuirá a Deus nenhuma imagem;
4) Não prestarás falso testemunho;
5) Perdoarás os teus inimigos;
6) Honrarás pai e mãe;
7) Não enganarás os que te amam;
8) Mostrar-te-ás caridoso com os fracos, os diminuídos e os pobres de espírito;
9) Não cobiçarás o bem do próximo;
10) Farás amar Deus pelo exemplo e não pela força.

A série é formada por dez álbuns independentes, mas que possuem uma ligação. Assim, podem ser lidos isoladamente ou como uma saga. Em comum, todos mostram as paixões e ganâncias que movem o homem desde a aurora dos tempos e também suas incertezas frente ao Além e às suas relações com o divino.

Logo nas páginas que antecedem a HQ, Frank Giroud conta ao leitor que este tomo deveria ter sido o primeiro da série, pois teria sido pensado inicialmente como uma edição one-shot. Ainda bem que isso não deu certo. Narrada fora da ordem cronológica, a trama da série ganhou corpo e deu ao Nahik um tom de mistério que conquistou os leitores.

Neste álbum, a história volta mais alguns anos no tempo e começam a aparecer
personagens recorrentes. A protagonista Ninon é citada no álbum
anterior
, bem como o pequeno Benjamin e seu pai fazem uma ponta.

Finalmente, descobre-se a origem do texto original do Nahik. E, ao contrário do que chegou a parecer em outros álbuns, não há nada de místico ou religioso em sua autoria. No entanto, Giroud explora bem a “maldição” que cerca a obra, pois ela é escrita por Hector Nadal a partir da cruel exploração que ele impõe ao irmão Eugène, que voltou demente e com problemas para falar (a razão é explicada no nono livro) de sua expedição ao Nilo. Por isso, relembrar esses fatos lhe traz muita dor e angústia – a seqüência em que imagina seu cérebro sendo “sugado” é uma das melhores.

A trama é envolvente, mesmo perdendo um pouco do impacto pelo fato de o leitor já saber que Ninon vai morrer (isso é relatado no volume anterior, por sua irmã Hortense). Mas a forma como a moça vai tomando coragem para enfrentar o irmão é um dos pontos altos da história. E o destino de Hector só reforça a aura maldita do Nahik.

Aliás, também é revelado o que significa Nahik, mas a explicação não é das mais criativas. Talvez em francês (idioma original em que O Decálogo foi publicado) faça mais sentido, mas em português a saída ficou um pouco forçada.

O desenhista Lucien Rollin, nascido em Burkina Fasso, na África, mas que construiu sua carreira na França, é desconhecido no Brasil. Seu traço segue um estilo bem tradicional, com narrativa morosa e diagramação pouca ousada. E ele deixa a desejar especialmente nos rostos dos personagens. Mas vale ressaltar seu cuidado na retratação dos cenários e o bom uso das onomatopéias, como parte integrante das cenas.

Ao contrário do que costuma acontecer geralmente nas revistas em quadrinhos, as cores de Chagnaud ganham tons mais vivos justamente quando são narrados os flashbacks de Eugène. Nas cenas que se passam no presente dos personagens, prevalecem os tons pastéis e mais escuros.

Faltando apenas dois tomos para o final de O Decálogo, Giroud ainda precisa explicar o mistério da omoplata de camelo e dos “mandamentos” que o profeta Maomé teria escrito nelas. O desfecho promete. Principalmente porque será o momento no qual o autor abordará o surgimento da fé no que teriam sido os últimos preceitos do profeta para o seu povo.

Classificação:

4,0

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