O EDIFÍCIO

Por Diego Calazans
Data: 1 dezembro, 2004


Título: O EDIFÍCIO (Editora Abril) – Graphic novel

Autores: Will Eisner (texto e arte).

Preço: NCz$ 2,00 (preço da época)

Número de páginas: 80

Data de lançamento: Fevereiro de 1989

Sinopse: Uma história sobre a vida e morte de um edifício, por intermédio de quatros personagens que tiveram seus destinos unidos ao dele.

Positivo/Negativo: O que representa para as histórias em quadrinhos uma graphic novel de Will Eisner? Não há comparações plausíveis que se possa buscar nas outras artes, porque, se é possível atualmente falar em “outras” artes, muito se deve a esse homem. Graças a ele, pode-se falar em uma “arte seqüencial” (termo que cunhou para unificar e transcender os antigos – e por vezes inadequados – comics, banda desenhada, HQs, entre outros).

Sua defesa apaixonada e precisa dos quadrinhos, na metade do século passado, pode não ter surtido o mesmo efeito que a dos cinéfilos europeus quanto ao contemporâneo cinema (alçaram-no, de mera “distração das massas”, ao posto de “sétima arte”), porém foi mais que suficiente para convencer inúmeros bons autores a testar seu tão pouco explorado potencial. Se peixes graúdos como Alan Moore podem contar com a admiração frenética até dos sisudos narizes das Academias, devem isso a ele.

Eisner é o criador do termo ghaphic novel (romance gráfico), que define o que seria uma obra em quadrinhos fechada, tratando uma história completa (em oposição à infinitude das tiras e das revistas tradicionais).

A idéia era trabalhar graficamente temas complexos, como os de um romance (ou “novela”, no sentido original do termo). Ele não ficou só na teoria. Durante toda sua longa vida (tem mais de 80 e ainda segue na ativa), Will Eisner concebeu dezenas de obras primorosas, que o colocam, sem dúvida, como o mais importante quadrinhista vivo. O Edifício é uma delas.

Tocante, profunda em sua simplicidade, a obra apresenta quatro belas e tristes histórias humanas, ligadas a um velho edifício nova-iorquino. A primeira é sobre um senhor pacato movido à caridade, pela culpa de não ter evitado que um menino fosse alvejado por mafiosos na sua frente.

Em seguida, uma jovem, amante de um poeta, que mantém seu casamento com um desinteressante dentista por conveniência. Depois, um velho que dedicou sua vida ao violino e agora toca para aquecer os romances, dirimir querelas ou mesmo reanimar derrotados. Por último, a história do dono do edifício, P. J. Hammond, e de sua obsessão/identificação por/com ele. Enfim, o prédio é demolido, e constróem outro em seu lugar, mas as quatro fortes presenças, como fantasmas, permanecem.

O modo como Eisner conta a história, usando todos os recursos à mão, mas com tamanha simplicidade, é, para dizer o mínimo, sublime. Da fuga dos quadros comuns pelo uso de plataformas como base para os personagens até a singela seqüência de suicídio de Hammond, nada sobra ou falta. É tudo adequado, ou melhor, genial.

Para qualquer aspirante a quadrinista, O Edifício (ou qualquer outra obra do autor) é a melhor faculdade. Analisar cada página, quadro (ou sua contínua ausência), expressão, a linguagem corporal, enfim, é preciso estudá-lo esmiuçadamente, como um pintor estuda Rafael; e um poeta, Dante. Afinal, Eisner é para os quadrinhos um mestre, como o são os tantos das outras artes.

Pode-se argumentar que, por meio do termo graphic novel, Eisner buscava a aceitação dos quadrinhos ante a infame (mas eterna) comparação com sua irmã mais cortejada, a literatura. Há um fundo de verdade nessa alegação, mas é preciso lembrar que aqui se trata do responsável por definir uma linguagem própria para a “nona arte”.

Se Eisner se rendeu mais de uma vez ao apelo das adaptações desnecessárias dos grandes clássicos da literatura, na velha idéia de fazer dos quadrinhos uma “introdução às belas letras”, há de se perdoá-lo. É preciso sempre desculpar os gênios por seus deslizes, pois seus acertos são incomensuravelmente maiores (e isso fica mais do que óbvio em seu caso).

O Edifício é uma prova da genialidade do autor e um atestado de seu caráter artístico. Para quem ama os quadrinhos em si, e não apenas esse ou aquele personagem ou estilo.

Classificação:

4,0

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