O fantasma de Anya

Por Audaci Junior
Data: 21 agosto, 2013

O fantasma de AnyaEditora: Jangada – Edição especial

Autores: Vera Brosgol (roteiro e desenhos) – Originalmente em Anya’s Ghost (tradução de Humberto Moura Neto e Martha Argel).

Preço: R$ 24,90

Número de páginas: 224

Data de lançamento: Maio de 2013

Sinopse

Imigrante russa nos Estados Unidos, Anya é uma adolescente que tenta se adaptar desde pequena. Ela enfrentar típicos problemas da puberdade, como acme, a balança, a popularidade na escola e uma paixão.

Sua vida vira de cabeça pra baixo quando ela cai em um buraco na floresta e encontra o fantasma de uma garota chamada Emily, morta há 90 anos.

Em virtude da sua partida prematura, Emily é uma alma ressentida. Quando consegue seguir Anya até a sua casa, procura maneiras de ser útil e convencê-la a ficar.

Anya começa a desfrutar dos benefícios de uma amiga invisível, prometendo ajudá-la a solucionar o seu possível assassinato.

Positivo/Negativo

Assim como a protagonista, Vera Brosgol nasceu em Moscou, Rússia, e emigrou para os Estados Unidos quando criança.

Com uma propriedade semibiográfica, a quadrinhista tem a liberdade de aprofundar sua personagem com os sentimentos que cresceu com ela durante a adaptação em uma terra estrangeira.

Na escola, Anya fuma escondido dos responsáveis para ser descolada, não diz seu complicado sobrenome russo, evita ter contato com Dima, um nerd baixinho que também é imigrante russo, e tenta controlar a balança e os hormônios fugindo das frituras feitas pela devotada mãe. O esforço é tão grande que ela consegue até perder o seu sotaque.

Totalmente deslocada, ela só tem uma amiga irlandesa chamada Siobhan até cair no buraco e dar de cara com Emily. Presa há nove décadas no local, a fantasma vê em Anya a possibilidade de explorar o “novo mundo” moderno. Em certo ponto, a própria protagonista enxerga a entidade como um reflexo, comparando-a com uma imigrante do além.

Brosgol sabe conduzir e brincar com os clichês do gênero. Anya sente inveja da garota mais bonita e popular do colégio e cobiça o seu namorado perfeito, atleta do time de basquete. Quando confessa a Siobhan, ela dispara: “Meu, ele é um tipo de cara por quem as garotas se apaixonam num filme adolescente ruim”.

A autora vai além quando não oferece mecanismos de compaixão e empatia barata do leitor com a personagem. Anya sente ciúmes, inveja e raiva da sua condição de “estrangeira”, mas em nenhum momento a garota popular ou a sua paixão secreta fazem pouco ou são antipáticos com ela.

Mais à vontade com a amiga invisível que ajuda na cola da prova e na sua investida amorosa, pouco a pouco as semelhanças de Anya com Emily vão se dissipando como fumaça de cigarro, com boas reviravoltas.

A “pegada” de O fantasma de Anya é bem parecida com o estranho mundo de Coraline, livro escrito por Neil Gaiman (autor que oferece aspas elogiosas na capa desta HQ). Vera Brosgol também assinou as artes conceituais da adaptação cinematográfica da obra infanto-juvenil de Gaiman.

Em tons azulados, sua arte também flerta com as animações, limpa, bonita e fluida. Os enquadramentos e a narrativa oferecem um ritmo arejado que casa com a proposta.

Debute da editora Jangada no gênero, o álbum tem um papel couché de boa gramatura e um preço bem doce em comparação a tantos cifrões salgados por aí.

Infelizmente, nem tudo é positivo no quesito editorial, que deixou muito a desejar em tópicos importantes.

Em algumas páginas, a impressão está “lavada” (desbotada, como se faltasse tinta) e outras apresentam um desalinhamento (linhas duplas), dificultando a nitidez dos desenhos.

Outro fator é a questão da fonte e balonamento da edição. Em alguns casos, os espaçamentos entre as linhas e a aproximação do texto com o limite do balão não “respiram”, espremendo-se no espaço e causando um estranhamento na leitura.

Fora alguns erros primários de desatenção na revisão textual: um “muando” em vez de “mundo” na página 49; uma preposição “até” a mais, na 63; e o artigo “uma” também é repetido na 72.

Uma pena, pois esses descuidos editoriais interferiram na cotação do título vencedor do prêmio Harvey em 2012 como melhor publicação gráfica original para jovens e do Eisner na categoria melhor publicação para jovens adultos.

Classificação

3,5

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