O GOSTO DO CLORO

Por Milena Azevedo
Data: 1 dezembro, 2012

O GOSTO DO CLORO

Editora: Leya / Barba Negra – Edição especial

Autor: Bastien Vivés (roteiro e arte) – Originalmente em Le Goût du Chlore.

Preço: R$ 49,90

Número de páginas: 144

Data de lançamento: Março de 2012

 

Sinopse

No interior de uma piscina pública, um jovem com problemas na coluna começa a nadar para melhorar a sua saúde. Sem experiência, sofre entre corpos anônimos para conseguir algum progresso no esporte.

Durante uma de suas tentativas fracassadas de dar algumas braçadas, conhece uma garota que decide ajudá-lo na empreitada, dando dicas para melhorar a sua técnica.

Semana após semana, aula após aula, a amizade entre os dois começa a crescer, e o rapaz não tarda a desenvolver uma afeição que deseja extrapolar as bordas da piscina.

Positivo/Negativo

O contato inicial com o cloro causa desconforto porque irrita os olhos, afeta a respiração e pode levar à ingestão involuntária da água da piscina.

Mas o personagem principal de O gosto do cloro, primeira graphic novel do francês Bastien Vivés, recebe um ultimato de seu fisioterapeuta: ou pratica natação ou nem tão cedo suas constantes dores na coluna, fruto de uma escoliose aguda, serão sanadas.

A contragosto, o jovem passa a frequentar uma piscina pública todas as quartas-feiras.

O incômodo dele é latente, tanto que passa a maior parte do tempo junto à borda da piscina. Quando esboça uma tentativa de nado de costas, mostra-se desajeitado (“tromba” em uma senhora que nadava na direção oposta), e volta e meia interrompe as braçadas para coçar os olhos.

As coisas mudam a partir do momento em que ele vê uma moça nadando com grande desenvoltura. Ela lhe ensina a forma correta do braço entrar e sair da água, a importância de manter as pernadas, e a inspirar pela boca.

Aos poucos, ele vai ganhando confiança e o cloro passa de elemento de repulsa a vício.

Quando o rapaz se cansa, imerge até o fundo da piscina e experimenta a sensação única de conforto proporcionada por uma quase ausência dos ruídos externos e movimentos em câmera lenta dos nadadores vistos em contra-plongèe, a qual é quebrada apenas quando a falta de ar nos pulmões exige que ele suba à superfície.

Aqui, o cloro faz alusão a uma droga tão forte quanto o amor. E o leitor enxerga o sentimento, que tanto o rapaz quanto a moça não têm coragem de externar. A beldade, insegura, chega a balbuciar algo timidamente sob a água, mordendo os lábios por não ter certeza do que está realmente sentindo e acaba fugindo (não se sabe se com medo de si ou do outro rapaz misterioso que a acompanha às vezes e parece exercer certo poder sobre ela).

Na verdade, o sentimento do rapaz pela nadadora é a força motriz para sua superação. A emoção da espera por aquele encontro semanal faz com que a obrigação de nadar se transforme em prazer de nadar bem.

A súbita ausência da moça faz com que o rapaz nade cada vez melhor (como que se preparando para ficar à altura dela), o que é mostrado de forma discreta, quando ele troca o nado de costas pelo crawl, faz a virada e passa a competir com os nadadores mais experientes. A próxima etapa é o autodesafio: atravessar toda a piscina embaixo d’água, num fôlego só.

Vivés foi extremamente técnico e construiu uma minitrama redondinha, em ritmo contemplativo. O leitor acompanha pormenorizadamente cada braçada dos personagens, de uma extremidade a outra da piscina, sendo conduzindo a um instigante final aberto.

O trunfo do autor foi respeitar o silêncio dos personagens em meio a todo o barulho que os cerca. Mesmo quando falam, os diálogos são econômicos, como se substituídos pelas tentativas de sincronia dos seus braços e pernas na água.

Quando menos se espera, Vivés empurra o leitor para o fundo da piscina e só o solta quando o ar parece desesperadamente faltar. Assim, é possível sentir na pele a angústia do rapaz e seu esforço para vencer a si próprio e encarar a vida, com as conquistas e os dissabores que ela traz.

Realmente, o álbum fez jus ao prêmio Revelação Essencial, que ganhou no Festival de Angoulême, na França, em 2009.

 

Classificação:

4,0

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