O grande livro do terror

Por Toni Rodrigues
Data: 17 março, 2014

O grande livro do terrorEditora: Argos – Edição especial

Autores: Rudolf Piper, Helio Porto, Jayme Cortez, R. F. Lucchetti, Flavio Colin, Julio Shimamoto, Sérgio Lima, Freddy Galan, E. T. Coelho, Roberto Negreiros e Eça de Queiroz.

Preço: Cr$ 25,00 (valor da época)

Número de páginas: 128

Data de lançamento: Fevereiro de 1978

Sinopse

Segredo macabro – Aniceto Almeida, um gentil português se casa com a moça mais bonita de sua aldeia e descobre tragicamente o segredo por trás da beleza dela.

Pacto macabro – Madame Flenchey se apaixona perdidamente por um homem bem mais jovem, que não corresponde o seu amor por querer uma mulher mais nova. Para conquistá-lo, Flenchey faz um pacto com o diabo.

O segredo do Dr. Roger Blackhill – O bom Dr. Roger Blackhill vive feliz com sua esposa Érica em uma mansão vitoriana, na companhia dos criados e de um grande mastim, Cérebus. Um dia, Lady Érica desaparece misteriosamente…

Diversão sinistra – O Grande Marvo e sua casa dos horrores são uma atração decadente num Parque de Diversões. Mas Marvo fará o que for preciso para voltar a ter sucesso, nem que para isso precise fazer um pacto com o além.

O cavalo encantado – Antes de os homens brancos habitarem os pampas, duas tribos de índios minuanos acampam na Lagoa de Parobé. Nhuvoiti, a filha de um cacique, é desejada por dois bravos guerreiros. A moça, porém, amava apenas um deles e ao seu rival resta só uma esperança de tê-la como noiva: domar o potro mágico com olhos de fogo!

Cobiça e morte – Um anúncio de jornal procurando dama de companhia para uma idosa muito rica era a chance que Gina queria para se dar bem. Mas as coisas não correm exatamente como ela esperava.

O fantasma do Barba Azul – O temido Barba Azul não poderá deixar este mundo até que consiga matar sua sétima esposa. Mas isso é mais complicado do que ele gostaria.

O Barão Herzog – Um jornalista é encarregado de entrevistar o velho Barão Herzog, que, pelas contas de todo mundo, já deveria ter morrido há muito tempo. Qual seria o seu segredo?

O tesouro – Em todo o reino das Astúrias, não havia fidalgos mais falidos do que os irmãos Medranhos: Rui, Guannes e Rostabal. Mas, um dia, sua penúria acaba, pois no meio de um bosque eles encontram um estranho tesouro.

Positivo/Negativo

A partir do início dos anos 1950, o terror sempre fez muito sucesso no Brasil, especialmente após a estreia oficial da revista Terror Negro. No entanto, por volta de 1975 já não se encontrava revistas do gênero nas bancas.

Isso porque a censura dos sucessivos governos militares vinha batendo incessantemente nas pequenas editoras paulistas, as que mais publicavam terror, praticamente forçando o seu fechamento e, consequentemente, o fim de todas as revistas no Brasil.

A censura não se incomodava com as histórias em si, nem com as cenas de sexo que havia em algumas delas. Isso era apenas uma desculpa para perseguir os donos das editoras, pois alguns eram considerados “perigosos subversivos de esquerda”. Não era verdade, embora houvesse entre alguns, como Miguel Penteado, dono da GEP, que era “comunista de carteirinha”.

Tudo isso mudou de uma hora para a outra quando a Rio Gráfica Editora (hoje Globo) lançou, em setembro de 1976, Kripta, com histórias ótimas oriundas da Warren Comics norte-americana.

O lançamento contou com uma bela campanha publicitária na TV Globo, na qual se afirmava que “com Kripta qualquer dia é sexta-feira, qualquer hora é meia-noite”. Foi um imenso sucesso. E, graças a isso, o terror voltou às bancas, pois todas as editoras queriam um pedacinho desse sucesso.

A Bloch, sozinha, lançou mais de 15 revistas, todas com histórias de terror da Marvel. Na Vecchi, a excelente Spektro misturava materiais de diversas fontes, HQs antigas e, em pouco tempo, aventuras nacionais. Até mesmo a Ebal lançou timidamente sua Histórias de Assombração, com material da DC. E editoras menores não ficaram atrás, empacotando e lançando rapidamente o que podiam para surfar nessa onda. De repente, havia uma inflação de títulos de terror nas bancas.

E todo esse sucesso chamou a atenção de Hélio Porto, veterano escritor do gênero desde a lendária Editora Outubro, que há muito tinha migrado para o jornalismo, trabalhando em alguns dos principais periódicos de São Paulo, como o Noticias Populares, o Diário de S.Paulo e o Última Hora. Em 1978, ele havia decidido se tornar editor e abriu a Argos.

Porto tinha na cabeça lançar uma coleção dedicada à “nostalgia gráfica”, como descreve em seu editorial no número de estreia de O grande livro do terror, de fevereiro de 1978. Esta revista fazia parte da Coleção Memória Gráfica e, se tivesse havido um segundo número, este teria sido dedicado aos quadrinhos da Gazetinha, de Messias de Melo e outros.

Também havia planos para edições sobre cinema musical brasileiro, pin-up girls brasileiras como Virginia Lane e Leonora Amar, o que leva ao segundo nome importante deste O grande livro do terror: Rudolf Piper.

Hoje atuando como empresário de shows no Rio de Janeiro, depois de uma carreira internacional no show business, Piper era, em 1978, um dos maiores conhecedores e pesquisadores de cinema e quadrinhos do Brasil, com um conhecimento vasto e profundo. Ele havia acabado de lançar dois livros sobre a época áurea das chanchadas e dos shows musicais: Garotas de papel e Filmusical brasileiro – Chanchada.

Convidado por Hélio Porto, Rudolf Piper fez o maior levantamento sobre o gênero nos quadrinhos do Brasil até então. Simplesmente todas as revistas, desde Terror Negro até a edição da Argos, foram listadas. Um belo texto sobre como o terror foi lançado aqui acompanha a edição.

E as coisas não pararam por aí. Alguns dos maiores autores do gênero participam de O grande livro do terror. Em cada capítulo, seguidas de uma entrevista, foram publicadas duas histórias de cada convidado, uma antiga e uma nova, especialmente feita para a edição, além de um pequeno perfil biográfico. Algo inédito até então e extremamente bem feito.

Dentre os convidados estavam: Sérgio Lima, Julio Shimamoto, Flavio Colin, R. F. Lucchetti, além de Jayme Cortez, que apresenta uma história e um perfil de seu mestre Eduardo Teixeira Coelho, excepcional desenhista português.

Cortez ainda assina uma matéria em que detalha como fez um pôster para um filme de José Mojica Marins e decupa completamente sua história O retrato do mal. De quebra, algumas de suas HQs de uma página, feitas para a Outubro, foram republicadas.

A revista ainda teve a estreia de Freddy Galan, um desenhista chileno que fez algum sucesso por aqui na época e voltou para o seu país na década seguinte, uma matéria sobre Boris Karloff com uma lindíssima ilustração de Jayme Cortez e um belo cartum do então iniciante Roberto Negreiros, que ficaria muito famoso anos depois.

Dentre os quadrinhos publicados estava a primeira história de Flavio Colin desde a sua “aposentadoria” do gênero nos anos 1960. Depois dela, o autor voltaria a produzir mais e mais e acabaria por trocar a segurança das agências de propaganda pelas HQs novamente.

Na revista há também uma das primeiras histórias de Shimamoto em sua nova fase de experimentação com novos materiais, quando ainda usava muito aerografia e colagens, depois de também passar um tempo atuando em publicidade. Já Sérgio Lima, lendário desenhista de Lobisomem e Múmia na GEP, contribui com uma das últimas HQs que assinou, em belas aguadas. Ele morreria algum tempo depois, de pneumonia.

Esta é uma revista de perder o fôlego. Provavelmente, uma das melhores já feitas sobre quadrinhos no Brasil, não apenas do gênero terror. O único porém é a sua encadernação, que não é das melhores. Por isso, hoje é bem difícil de encontrar edições integras nos sebos. Mas se você achar, compre sem pestanejar.

Classificação

4,5

 

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