O VIRA LATA

Por Tiago Pavinato Klein
Data: 1 dezembro, 2012

O VIRA LATA

Editora: Peixe Grande – Edição especial

Autores: Paulo Garfunkel (roteiro) e Libero Malavoglia (arte).

Preço: R$ 69,00

Número de páginas: 440

Data de lançamento: Agosto de 2012

 

Sinopse

Coletânea das nove revistas publicadas do personagem Vira Lata. Representando a miscigenação brasileira, ele surge enfrentando matadores de moradores de rua e outros tipos urbanos marginalizados.

Positivo/Negativo

Este é um dos grandes lançamentos do ano, recuperando toda a trajetória dos quadrinhos do personagem Vira Lata. A Peixe Grande acerta a mão, publicando também um extenso dossiê sobre os autores e a obra.

O personagem surgiu no álbum O Vira Lata, escrito por Paulo Garfunkel e desenhado por Libero Malavoglia, publicado dentro da Coleção Grandes Aventuras Animal # 8 (o último da série), em novembro de 1991. Nele, é contada a origem do protagonista, que não sabe ao certo quem é seu pai, além de mostrá-lo enfrentando um grupo que eliminava moradores de rua, prostitutas etc.

O que engrandece o personagem, porém, veio depois. O doutor Drauzio Varella, que na época prestava atendimento no presídio do Carandiru, entrou em contato com os autores para um projeto de prevenção, utilizando o Vira Lata.

O médico convivia com o alto índice de infectados pelo vírus HIV no local, percebia o desinteresse dos detentos pelas campanhas de conscientização, ao mesmo tempo em que os via lendo gibis nas celas. Por isso, sugeriu que as aventuras do Vira Lata enfrentassem esta realidade.

Assim, entre 1993 e 2000, saíram sete edições distribuídas exclusivamente no presídio (uma oitava, que ficou inédita com a desativação do presídio, está incluída no livro). O personagem torna-se um ex-detento, envolvendo-se em histórias com muita ação e sexo explícito, sempre anunciando a importância do uso da camisinha – inclusive com algumas “dicas” e comentários espalhados nas aventuras, com o desenho de um doutor. Os roteiros foram adaptados para os códigos dos detentos, dirigindo-se diretamente para eles.

Os autores contam que a revista era distribuída para todos os presos, de cela em cela, um processo que levava horas. Com tiragem de dez mil exemplares, as edições tinham o patrocínio da Universidade Paulista – UNIP.

A série é importante por mostrar como uma obra em quadrinhos pode ter um uso educativo sem cair no pedantismo didático. Apesar de serem nítidas as diferenças entre o primeiro álbum e os outros (nos produzidos para o presídio, os roteiros são mais diretos e a carga de sexo explícito aumenta a cada número), a série não perde em qualidade ao dirigir-se a um público específico.

Se o leitor não soubesse que a ideia que permeia as histórias era a prevenção da AIDS, pouco mudaria, pois os autores conseguem incorporar a “tarefa” na trama de forma natural, sem pausas para explicações didáticas.

Os roteiros são variados, com o personagem sendo motorista de caminhão, viajando pela Amazônia (em uma aventura com o clássico tema em busca de tesouro perdido), mas sempre se envolvendo com muitas mulheres.

A edição é caprichada, e optou por ser fac-similar as edições originais. Apenas alguns problemas com esta opção: os erros de português são mantidos (como “sozinho”, na página 339, “boca” e “flor”, na página 396 etc.). Foram usados também todos os textos publicados nas revistas na época da primeira publicação, como os prefácios originais, que se repetem em alguns volumes. Nada disso, porém, desmerece a compilação.

No dossiê publicado nas páginas finais, o leitor conhece um pouco mais da produção do gibi, das influências de Hugo Pratt nos desenhos, além de informações sobre a continuidade do personagem.

O Vira lata é um álbum que merece estar nas estantes dos apreciadores de bons quadrinhos. É um projeto interessante de uso social das HQs, com roteiros bem construídos e uma bela arte, tudo pensado conforme o público-alvo.

 

Classificação:

4,0

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