O Vira-Lata

Por Paulo H. Cecconi
Data: 9 maio, 2014

O Vira-LataEditora: Peixe Grande– Edição especial

Autores: Paulo Garfunkel (roteiro) e Libero Malavoglia (arte).

Preço:R$ 69,00

Número de páginas: 440

Data de lançamento: Agosto de 2012

Sinopse

As histórias cheias de ação e sexo de um herói urbano brasileiro que deixou a exclusividade das bancas e se tornou um projeto de conscientização no presídio do Carandiru.

Positivo/Negativo

Tão ou mais interessante quanto este gibi é a história por trás de O Vira-Lata, de Paulo Garfunkel e Libero Malavoglia.

Em 1991, foi publicada a primeira história do personagem no último número da saudosa revista Grandes Aventuras Animal, publicada pela VHD Diffusion. Garfunkel queria escrever um herói de ação brasileiro com uma mistura de erotismo, e o fez com competência, auxiliado pelo traço de Malavoglia, que topou a parceria no ato ao saber que o escritor queria seguir uma linha estética à de Hugo Pratt.

Um dia, o Dr. Drauzio Varella, famoso médico que atendia voluntariamente na casa de detenção do Carandiru, em São Paulo, ao passar por uma banca de jornal, viu uma edição do Vira-Lata. Comprou, leu, gostou e entrou em contato com Garfunkel.

O médico havia tentado várias campanhas de conscientização sobre a AIDS no presídio, por meio de panfletos, que iam direto para o lixo, e palestras, às quais ninguém frequentava. Um dia, Varella fez uma proposta aos detentos: quem assistisse à palestra poderia ver um filme pornô. Resultado: lotação esgotada em ambas.

Como percebera que muitos detentos liam gibis para passar o tempo, o médico enxergou ali um canal de comunicação, e propôs ao amigo “Magro” (apelido de Garfunkel) que usassem o personagem como ferramenta educacional, direcionando as histórias para a população carcerária, informando sobre métodos contraconceptivos e o uso de drogas.

Os roteiros continuariam a ser escritos por Garfunkel e a arte assinada por Malavoglia, mas passariam pela supervisão de Varella. O personagem só faria sexo com camisinha e seria 100% repreensivo em relação a drogas injetáveis. A equipe conseguiu o apoio da UNIF – Universidade Paulista, que se encarregou da impressão do material e do pagamento dos artistas.

Os números, desde a primeira aparição do personagem em Grandes Aventuras Animal, foram distribuídos gratuitamente no presídio. Não havia periodicidade: assim que uma edição ficava pronta, era levada para o Carandiru. Com a desativação da cadeia, o gibi foi cancelado.

Houve planos de levar a iniciativa para o presídio de Curitiba, porém, mesmo com cinco mil exemplares já impressos, a censura devido ao conteúdo considerado impróprio falou mais alto e as cópias foram incineradas (a fogueira, eterno fim dos gibis censurados).

Mesmo assim, a importância da iniciativa de Varella (que até chegou a virar um personagem, em aparições surpresa na história, corroborando as atitudes corretas do Vira-Lata) e a competência dos autores causaram grande impacto e, de acordo com o médico, inegavelmente auxiliaram na diminuição do índice da doença e do uso de drogas injetáveis no Carandiru.

Sem dúvida, a maior qualidade de O Vira-Lata é o casamento entre o entretenimento e o educacional. Uma obra de caráter didático sempre corre um risco enorme de cair na pieguice e se tornar chata. As lições ficam com cara de panfletagem e lição de moral e, logicamente, o leitor não quer isso. O Vira-Lata passa longe desse problema, mesmo quando as dicas de sexo seguro são estampadas nas páginas.

Como um texto claro e fluido, Garfunkel deixa evidente a postura do personagem sobre sexo seguro e o uso de drogas injetáveis, sem perder o foco em roteiros pra lá de interessantes. Isso faz com que o gibi agrade tanto ao público-alvo (os presidiários) quanto o leitor em geral, que encontra não apenas um importante documento de uma atitude social exemplar, mas também uma baita obra dos quadrinhos nacionais.

O Vira-Lata é uma amostra de que os gibis podem ser mais do que bem escritos e desenhados, eles podem ser corretos. O meio (quadrinhos) já derrubou a barreira do mero entretenimento e assumiu um caráter artístico após muitas batalhas e graças a autores corajosos, dispostos a se arriscarem no novo. Este trabalho ultrapassou uma nova porta: a da comunicação.

As histórias do Vira-Lata são, sim, recheadas de sexo e violência. Já nas primeiras páginas, o autor deixa claro que está disposto a mostrar as cosias para as quais a cidade fecha os olhos. No primeiro número, o protagonista é apenas mais um cara, filho de uma mãe e vários pais, como é descrito no livro. Porém, numa noite qualquer, perambulando pela cidade, ele se depara com um grupo de extermínio chamado Saneamento Básico, que segue as ordens da elite para eliminar mendigos e prostitutas.

O roteiro possui uma narrativa que varia entre o passado e o presente de forma não cronológica, pedindo a atenção do leitor aos títulos, que trazem o ano em que se passa determinada parte da história. Nesse vaivém temporal, o passado do Vira-Lata, seu contexto social, a origem de sua miscigenação e o despertar de suas habilidades são revelados.

Outro ponto importante é a presença da religião do Vira-Lata: o candomblé. No enredo, ele é batizado e criado por uma mãe de santo, que incute nele a crença. O evento é marcado pela visita de um cão vira-lata à casa no momento do batismo, fato que não passa despercebido pela mulher, e outros elementos, como a presença marcante do vento, que sugere dias conturbados. Além disso, as menções que o personagem faz a Exu e Iansã reforçam a presença sutil de um caráter sobrenatural que permeia a trama.

É interessante notar a maneira poética que o escritor escolheu para contar as histórias, utilizando-se de um vocabulário que contrasta com o dos próprios personagens e até com a cruel realidade acerca deles. É uma forma pouco comum para quadrinhos, especialmente um sobre a fricção urbana da vida real. Mas isso não deve ser confundido com um equívoco. Pelo contrário, dá uma voz particular ao trabalho.

O desenho sujo e rabiscado de Malavoglia sublinha a imundície da realidade do protagonista. A maior parte das páginas contém vários painéis, divulgando um sentimento claustrofóbico de uma cidade sufocante. A arte passa por evidentes transformações a cada capítulo. O desenhista admite que trabalhar na obra foi uma escola e que seu experimento com vários caminhos estilísticos foi proposital. Da primeira aventura, com arte “poluída”, passa para um traço levemente mais limpo, porém, com contornos grossos e marcado por um jogo de luz e sombras mais rico.

No capítulo Perdas e danos, o artista mistura os estilos anteriores e aplica lindas pinceladas de aquarela em preto e branco para mostrar um momento do passado e também para ilustrar a belíssima Madalena. Enfim, a estética da obra é tão rica quanto a qualidade do roteiro, um deleite visual que se renova a cada momento.

A edição da Peixe Grande (editora de Toninho Mendes, um dos grandes nomes dos quadrinhos nacionais, responsável pela Circo Editorial, onde atuavam Laerte, Glauco, Angeli, Luiz Gê, Chico e Paulo Caruso) é belíssima, fazendo jus à obra. Além de excelentes textos de introdução (no qual a revisão deixou passar algumas vírgulas indevidas) sobre os autores e a história das publicações antigas, traz também a aventura inédita do Vira-lata na Amazônia, não publicada devido à desativação do Carandiru.

Em um trabalho conjunto, Garfunkel e Malavoglia criaram um guerreiro urbano brasileiro de imenso carisma que, mesmo com uma libido constante e aparentemente incontrolável, defende e respeita os direitos e vontades das mulheres. Com Varella no time, transformaram o personagem num eficiente modelo de divulgação de informação e propostas construtivas. O Vira-Lata é um convite para outros autores desafiarem o conceito básico do uso dos quadrinhos e experimentar fazer algo além: transformá-los tanto em objetos de qualidade como em instrumentos inclusivos. O exemplo está dado.

Classificação

4,5

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