Orquídea Negra – Edição Definitiva

Por Liber Paz
Data: 1 março, 2013

Orquídea Negra - Edição DefinitivaEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Neil Gaiman (roteiro) e Dave McKean (arte) – Publicado originalmente em Black Orchid – Deluxe Edition.

Preço: R$ 24,90

Número de páginas: 176

Data de lançamentoFevereiro de 2013

Sinopse

A super-heroína Orquídea Negra é brutalmente assassinada.

Nesse exato momento, uma nova Orquídea Negra desperta, com memórias vagas como um sonho perdido. Então, ela decide partir em uma jornada para descobrir quem é, e acaba se encontrando com pessoas que fazem parte de um passado muito familiar, mas que não é seu, e com os estranhos sujeitos que vivem a fantasia dos super-heróis e vilões.

Positivo/Negativo

Produzida em 1988, a minissérie Orquídea Negra foi um dos primeiros trabalhos da dupla Neil Gaiman e Dave McKean. Sua publicação antecedeu o lançamento do mais famoso quadrinho do roteirista, Sandman.

Gaiman conta que quando conversava com Karen Berger, editora da DC Comics, propondo uma lista de personagens com os quais tinha interesse em trabalhar, ela respondia a cada nome sugerido: “já estão trabalhando com ele”.

Então, o autor começou a apelar para os personagens mais obscuros, mas a resposta de Karen era sempre a mesma: “não está disponível”.

Sentindo-se desesperado, acabou tirando do fundo das memórias: “Orquídea Negra” (Black Orchid, no original em inglês). Quando Karen olhou confusa para ele e perguntou : “Quem? Black Hawk Kid (Garoto Águia Negra)?”, Gaiman respirou aliviado. Tinha encontrado seu primeiro título de super-herói.

A proposta de Gaiman e McKean para Orquídea Negra era romper com os estereótipos da narrativa típica de super-heróis. Isso se mostra logo na sequência de abertura, na qual a heroína original é assassinada pelo vilão.

“Eu leio gibis”, diz o bandido. “Não vou te prender no porão pra te interrogar depois. Não vou armar um raio laser supercomplicado e te deixar sozinha aí pra fugir. Eu vou te matar. Agora”. Assim morre Orquídea Negra, antes da página 10 de sua própria aventura.

Imediatamente depois, em um laboratório distante, uma nova Orquídea Negra desperta aos gritos.

E trata-se realmente de uma nova personagem. Ela não tem intenção de vingar a morte de sua antecessora ou terminar sua investigação (que fica inacabada mesmo).

Não importa punir ou combater o crime. O único interesse que ela tem é descobrir quem é e qual seu lugar no mundo.

Essa perspectiva impõe à história um ritmo intimista, lento, tranquilo e muito melancólico. Isso pode decepcionar leitores que esperam uma trama mais movimentada.

Vale ressaltar que a obra foi concebida em uma época em que as histórias de super-heróis produzidas no mercado norte-americano buscavam ser “adultas” e entendiam isso como violência, truculência e ação desenfreadas.

Orquídea Negra é praticamente uma “anti-história de super-heróis”. Gaiman e McKean deixam claro que, como o vilão do começo da trama, já conhecem todos os protocolos dos gibis e não pretendem seguir nenhum.

Por exemplo, a erotização da figura feminina, comum nas histórias de super-heróis, é praticamente inexistente. A protagonista é descrita como belíssima, mas é uma beleza sem exageros desproporcionais de seios, pernas ou bunda.

Ao mesmo tempo em que é uma planta extraordinária, Orquídea Negra também é uma mulher comum e olha com estranheza esse mundo bobo de meninos valentões. Ela não quer brincar.

Percebe-se que há muito de Violent Cases em Orquídea Negra. Por exemplo, as sequências de lembranças de infância, em que a própria arte de Dave McKean é um replay do que foi visto no primeiro álbum da dupla.

Como faria em Sandman, Gaiman cria situações cotidianas e personagens verossímeis, “pessoas de verdade”, e os contrapõem com seres extraordinários. No caso, figuras conhecidas do Universo DC, como Batman, Lex Luthor e o Monstro do Pântano.

Os diálogos transmitem uma naturalidade convincente. Revelam ao leitor o lado mais humano, as incertezas, fragilidades, tristezas e esperanças de cada figura, seja ela “comum”, como o marginal Carl Thorne, ou uma psicopata como Pamela Isley, a Hera Venenosa.

Entretanto, há trechos que falam sobre ecologia que realmente são bem chatos e, por vezes, o ritmo da história fica devagar demais.

Vale destacar a passagem de Orquídea Negra pelo Asilo Arkham, o modo despretensioso como são apresentados os internos, que parecem praticamente inofensivos e até infantis, mas também dão pinta de que podem explodir em violência a qualquer minuto.

A edição da Panini está irretocável. Um bom texto de introdução, extras apresentando páginas de roteiro e rascunhos escritos à mão por Gaiman, tudo apresentado em um material muito bem impresso e excelente acabamento em capa dura. E o preço é extremamente convidativo.

Orquídea Negra é uma obra que, às vezes, parece um tanto monótona. Em sua proposta de romper com os cânones de narrativa, pode decepcionar as expectativas de alguns leitores.

Por outro lado, apresenta uma sensibilidade e uma construção de personagens que são raras de encontrar. E a qualidade da arte de Dave McKean é indiscutível.

Trata-se de um trabalho que carrega em si as marcas de uma época, mas que tem méritos e valor em si mesmo. Uma edição belíssima e acessível, que vale a pena conhecer ou revisitar.

Classificação

4,0

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