Os vampiros

Por Audaci Junior
Data: 24 dezembro, 2018

Os vampirosEditora: Sesi-SP – Edição especial

Autores: Filipe Melo (roteiro) e Juan Cavia (arte e cores) – Originalmente publicado em Os vampiros (adaptação de Mario Santin Frugiuele e Monique Gonçalves).

Preço: R$ 89,90

Número de páginas: 232

Data de lançamento: Maio de 2018

Sinopse

Guiné, dezembro de 1972. Durante a reta final da Guerra Colonial, um grupo de soldados portugueses é destacado para uma operação secreta no Senegal. Porém, à medida que vão sendo consumidos pela paranoia e pelo cansaço, essa missão aparentemente simples se transforma em um pesadelo.

Embrenhados na selva, esses homens terão de confrontar sucessivos demônios – os da guerra e os que trouxeram com eles mesmos.

Positivo/Negativo

Entre os anos de 1961 a 1974, Portugal teve seus conflitos armados com as províncias ultramarinas de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Assim como muitas guerras pelo globo, esta foi duramente criticada por causa dos milhares de mortos, feridos e com sequelas, além do montante financeiro investido nos combates e das condições de vida das pessoas que pioravam com o passar do tempo.

O embate entre as forças armadas lusitanas e as organizadas pelos movimentos de libertação das províncias findou com a Revolução dos Cravos em Portugal, ocorrida no dia 25 de Abril de 1974. Com a mudança política do país, o empenhamento militar foi enfraquecido e deixou de fazer sentido perante a democratização e as reivindicações de independência das colônias.

A Guerra Colonial portuguesa ou Guerra da Libertação – denominação mais usual para os africanos – teve seu auge no início dos anos 1970. Ela virou tema de vários filmes, livros e artes plásticas, como nos cartuns e charges de João Abel Manta.

Na ótica do terror, o roteirista português Filipe Melo e o desenhista argentino Juan Cavia colocam mais definições no vocabulário desse cenário, caminhando também para o lado simbólico do termo “vampiro”.

O contexto histórico como pano de fundo afasta o tom mais cômico visto em outra obra do gênero dos autores, As incríveis aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy (Devir, 2014), que poderia até ser evocado na postura mais caricatural do traço de Cavia. Porém, aqui fica mais para a seriedade assimilada da série O conflito do Vietnã, capitaneada por Doug Murray, Michael Golden e outros quadrinhistas (lançada pela Abril entre 1988 e 90).

Contudo, a obra vira refém de algumas estruturas já vistas no cinema, como os batismos dos soldados, a personalidade distinta de cada personagem (o inexperiente em combate, o carniceiro, o bom moço, o durão etc.) e algumas situações limites bem similares a filmes como Platoon (1986), de Oliver Stone.

Ao mesmo compasso, há uma vantagem cinematográfica herdada dos autores, já que Melo fez roteiros, produção e direção na área e Cavia participou de projetos como diretor de arte, inclusive como set designer do argentino O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella, que venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010.

Essa experiência rende muitos ângulos interessantes, diagramação massivamente em panorâmica (eles colocam também um filtro como de super-8 nas recordações e sonhos) e sequências muito bem executadas de suspense na escuridão, enfatizando detalhes como uma torneira pingando e tendo como fonte de luz apenas lanternas e flashes de uma câmera fotográfica.

Aliada às páginas com calhas negras, essa condução garante uma imersão cada vez mais envolvente no enredo, deixando de lado os chavões bastante comuns no gênero de guerra.

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Outro ponto positivo é ser uma conjuntura menos conhecida para os leitores brasileiros. Termos, táticas e objetivos chegam a ser novidades, como o exemplo do superior pedir para ser chamado pelo nome e não pela patente, para preservar a sua integridade na selva. Ou ainda todo o preconceito e ódio concentrado entre colonizador e colonizado.

Além de todos esses aspectos que provocam a curiosidade de saber o desfecho da história, a suavidade com que os autores tratam o tema central do terror eleva ainda mais a atenção. Para se ter uma ideia, mal se fala o termo “vampiro” e pouco se revela este inimigo – para desnudar mais os outros “antagonistas”.

Dividida em três partes, além de Herman Melville (1819-1891) e o Padre Antônio Vieira (1608-1697) complementa as epígrafes a canção que remete ao título da obra, composta por José Afonso (1929-1987). Os vampiros, a música, viria a se tornar um dos símbolos de resistência anti-Salazarista da época.

A edição da Sesi-SP tem formato 17,2 x 25,7 cm, capa cartonada com orelhas, papel couché brilhoso de ótima gramatura e impressão. O álbum ganhou o Prêmio Anual Comic Con BD e o Prêmio Excelência na Escrita de BD, na Comic Con Portugal 2016.

Ao final da leitura, percebendo que as mazelas de todas as guerras pelo mundo podem muito bem ser a fórmula das mais batidas, pode-se até justificar esse constante déjà vu de filmes sobre o tema assombrando as páginas do gibi.

Afinal, “Eles comem tudo e não deixam nada” termina sendo um denominador comum em todos os modelos de conflito.

Classificação:

4,0

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  • 0-Drix

    História excelente que merecia uma adaptação cinematográfica!
    Pena que o Paulo Guedes vai acabar com esta editora de quadrinhos. Mas é pelo “bem” do país, taokei?!