Para Tudo se Acabar na Quarta-Feira

Por Marcus Vinicius de Medeiros
Data: 10 fevereiro, 2012

Para Tudo se Acabar na Quarta-FeiraEditora: Draco – Edição especial

Autores: Octavio Aragão (texto) e Manoel Ricardo (arte).

Preço: R$ 24,90

Número de páginas: 64

Data de lançamento: Dezembro de 2011

Sinopse

No meio de uma guerra pelo poder entre traficantes cariocas, Guilherme Matheus Renhe é convidado por um misterioso homem de terno preto a ingressar na poderosa Megiddo Incorporações. A partir de então, sua vida dá uma guinada fatal em que tempo, espaço e a própria realidade não são o que parecem.

Positivo/Negativo

O projeto Intempol teve sua gênese em 1998, quando foi publicado o conto Eu matei Paolo Rossi, assinado pelo hipercriativo Octavio Aragão, na antologia de ficção científica nacional Outras Copas, Outros Mundos. A história misturava futebol e viagens no tempo, e logo chamou atenção por sua abordagem nada ortodoxa ao conceito de uma polícia temporal.

Seu grande diferencial era o tempero bem brasileiro, já que os agentes da Intempol, em suas missões para proteger a linha cronológica, apresentam-se como os arquetípicos malandros, canalhas e corruptos tão presentes em nosso imaginário.

A ideia cresceu e, em novembro de 2000, Aragão lançou o livro Intempol – Uma antologia sobre viagens no tempo, com histórias de diversos autores, marcando assim o nascimento do primeiro universo partilhado de ficção científica tupiniquim. Após a conquista do Prêmio da Sociedade Brasileira de Arte Fantástica, houve planos para adaptações em desenho animado e um RPG, mas foi nos quadrinhos que Intempol ganhou nova vida.

Primeiro foi a vez da webcomic A maldita maldição da múmia, seguida pelo álbum The long yesterday e, finalmente, Para tudo se acabar na quarta-feira, história do criador Octavio Aragão com desenhos de Manoel Ricardo.

No lugar do futebol, outra paixão nacional: o carnaval, aliado a um problema constante da realidade brasileira, os traficantes de drogas. Ambientada no Rio de Janeiro nos dias da festividade, a trama é violenta e cheia de reviravoltas, com tantas ideias diferentes sendo jorradas, que captura a atenção do leitor e faz malabarismos com sua mente.

O protagonista Guilherme Matheus já começa desafiando facções poderosas do tráfico, de modo que, ao surgir o convite para a Megiddo, ele já havia se firmado como homem destemido e pragmático.

Essa definição de caráter é essencial ao desenvolvimento da narrativa, do modo como ele encara fenômenos científicos inauditos até suas decisões finais. E a ciência da Intempol, vale dizer, vai muito além dos passeios pelo passado e o futuro que caracterizam boa parte dos contos de ficção. Aqui, os personagens tornaram-se mestres da vida e da morte, de realidades alternativas e até mescladas por criações artísticas ficcionais. A “origem secreta” de Guilherme é prova do ponto longínquo a que chegam as tramoias dessa força temporal.

A maior qualidade do texto de Octavio Aragão talvez seja a forma com que ele insere conceitos fantásticos e citações de cultura pop e erudita numa realidade tão popular e reconhecível. A começar por cenas introdutórias com um quadrinhista que revelou os segredos do universo em sua revista. Com alusões a Will Eisner, o álbum vai muito além do convencional.

Revigorando a ficção científica brasileira e abrindo novas dimensões para os quadrinhos nacionais, Aragão apresenta uma amostra fulminante de seu universo. Sentimentos como amor, honra e o desejo de vingança surgem com força notável, temperados por rajadas de metralhadora de homens ensandecidos.

Numa história em quadrinhos de leitura rápida e caráter escapista, há pano de fundo para reflexões maiores que, contudo, não tiram o lugar do entretenimento.

Para tudo se acabar na quarta-feira foi publicado originalmente em prosa, na antologia portuguesa Por universos nunca dantes navegados, e a adaptação para quadrinhos levou seis anos. Como o próprio roteirista faz questão de frisar no texto que encerra o volume, a contribuição do artista Manoel Ricardo foi fundamental. Ilustrador polivalente e ex-fanzineiro, ele mescla influências diversas que vão do mangá à animação mais tradicional, o que resulta num traço limpo e bastante cinético, em preto e branco.

Assim como os agentes da Intempol, a arte de Manoel Ricardo está longe de ser certinha, e combina bem com a trama. A edição conta com caderno de esboços do artista, além de um texto introdutório por Phillip Ellis Jackson, biografias dos autores e posfácio por Octavio Aragão. Ao final, o escritor deixa o leitor ansioso pelo próximo álbum. E torcendo para que não seja preciso viajar ao futuro para conferi-lo.

Classificação

4,0

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