Persépolis Completo

Por Ricardo Malta Barbeira
Data: 11 abril, 2008

Persépolis CompletoEditora: Companhia das Letras – Edição especial

Autora: Marjane Satrapi (roteiro e desenhos).

Preço: R$ 39,00

Número de páginas: 352

Data de lançamento: Dezembro de 2007

Sinopse: Em 1979, aos dez anos de idade, Marjane Satrapi testemunha o início da revolução islâmica no Irã.

Crescendo em meio à guerra com o Iraque e vendo um movimento de esquerda tornar-se uma ditadura religiosa, ela é mandada por seus pais para a Áustria, para completar seus estudos.

Após conhecer um pouco mais do mundo que só havia visto em livros, ela retorna ao seu país.

Incerta acerca de quase tudo em sua vida, uma vez mais a Europa entra em seu caminho.

Positivo/Negativo: Persépolis era a capital do Império Persa que foi destruída há mais de 2.300 anos, e empresta seu nome ao relato da trajetória de Marjane Satrapi.

O álbum começa com uma introdução assinada pelo quadrinhista francês David Beauchard (também conhecido como David B. e autor de Epiléptico, entre outras obras), que em poucas linhas faz um resumo sobre a história do Irã desde os tempos da Pérsia em 642 d.C. até 1979.

Em 16 de janeiro deste mesmo ano, devido a uma revolução perpetrada por esquerdistas, religiosos e liberais, o Xá abandona o país. Pouco depois, em um plebiscito de resultado um tanto duvidoso, a maioria da população opta por uma democracia islâmica. Estava instalada a República Populista Teocrática Islâmica sob o comando de Ayatollah Ruhollah Khomeini.

Aos dez anos de idade, junto com as outras colegas de escola, Marji se vê obrigada a utilizar um véu para cobrir seu rosto, sem fazer a mínima idéia do porquê disso. Meninos e meninas que até então dividiam a mesma sala de aula são separados. E estas são apenas algumas das mudanças em sua vida após a revolução.

A primeira parte de Persépolis, que mostra a derrocada do Xá e a radicalização do regime islâmico, é a melhor e mais pungente de todo o livro. Uma das razões é por mostra ao leitor o que ocorre no país pelos olhos de uma criança.

A habilidade narrativa da autora neste ponto é tamanha, que apesar de a trama ir algumas vezes do presente ao passado de maneira abrupta e sem explicações, isto pouco atrapalha a fluência do texto. Ela conecta o que ocorre em Teerã e no restante do país ao seu dia-a-dia, fazendo o leitor de tornar seu cúmplice.

Some a isto o fato de este período específico da história iraniana ser interessantíssimo e pouco conhecido, e tem-se um registro histórico e humano único.

O que marca o final deste primeiro trecho é a chegada e a eventual partida do Tio Anuch. Sublime tanto na delicadeza das relações familiares quanto no caráter político que modificavam mais e mais a face do país.

A seguir, com o começo da Guerra Irã-Iraque, Marji testemunha de perto o drama dos refugiados, assim como o medo diante dos constantes ataques aéreos.

Um valioso aspecto tem vez aqui, quando os iranianos colocam suas diferenças de lado, e se unem contra o inimigo comum, o Iraque de Saddam Hussein. No entanto, nos momentos em que a poeira baixa, todos os excessos e mentiras de um governo ditatorial e reacionário são mostrados. Noticiários e jornais que distorcem os fatos e criam suas próprias verdades, jovens e adultos obrigados a lutar em uma guerra que não compreendem, um governo que recusa propostas de paz por motivos mesquinhos e a criação de mártires com o objetivo de enganar e motivar a população a continuar acreditando em mentiras. Como cita Marji em dado momento, este era um dos slogans mais impressionantes do regime: “Morrer como mártir é injetar sangue nas veias da sociedade”.

Pouco depois, quando Marji começa a ter freqüentes problemas na escola, devido ao seu jeito franco de ser e de falar, seus pais decidem mandá-la para um liceu francês em Viena, na Áustria. E é exatamente aí, quando o Irã deixa de ser o pano de fundo da trama, que Persépolis começa a perder o brilho inicial.

Claro que há partes interessantes, como quando ela faz novas amizades e aprende mais sobre as inconsistências de várias linhas de pensamento, principalmente daqueles pseudo-seguidores do anarquismo e das várias correntes marxistas. Mas, no todo, trata-se da passagem dela para a vida adulta, e aí a própria personalidade da protagonista mostra ser algo que não vale tanto a pena conhecer.

Ela é uma jovem que foi estudar na Áustria e vive da mesada enviada por seus pais, que, por sinal, são de classe alta na sociedade iraniana. Eles são politizados, têm clara consciência do que é certo e errado e com o decorrer do tempo perdem parte do seu poder aquisitivo na nova realidade do governo islâmico. Por isso mesmo, estão muito longe de pertencerem aos verdadeiros excluídos da nação.

Não que fosse melhor se ela viesse de uma família menos abastada, mas a verdade é que, apesar de levar o Irã consigo aonde quer que vá, a trama que tinha como principal interesse uma nação em transformação, muda de foco para uma jovem tornando-se mulher. E não há como negar que Marjane Satrapi é bem menos interessante do que o país que tanto ama.

Se a parte na Europa ainda rende uma ou outra boa passagem, quando Marji retorna ao Irã, e poderia se pensar que a história melhoraria, é que a coisa desanda de vez. Ao voltar para os braços dos pais, ela começa a ter as mesmas dúvidas que qualquer adolescente e comete bobagens das mais variadas.

Um momento emblemático é quando, para desviar a atenção dos Guardiães da Revolução, acusa injustamente um homem próximo de tê-la ofendido. Ele é levado pelos guardas, enquanto implora para que ela diga que aquilo não é verdade. Depois que é preso, não se sabe o que ocorre, mas certamente não deve ter sido nada muito agradável.

Verdade seja dita, a autora não se orgulha disto e tudo leva a crer que seja uma forma de redenção ter colocado isto em imagens. Mas é inegavelmente um ato da mais pura canalhice. O que se segue até o final é apenas um pálido reflexo do que foi mostrado no começo da obra.

No que se refere à arte, o andamento é similar ao do roteiro. Enquanto as duas primeiras partes são excelentes, as duas últimas apresentam uma perceptível queda de qualidade. Na maioria dos quadros, os desenhos estão finalizados de modo mais grosseiro, como se feitos às pressas.

Um detalhe importante, que inclusive já foi comentado pelo jornalista Eduardo Nasi no review de Persépolis # 1, é que a arte tem muito em comum com as xilogravuras dos cordéis nordestinos. Boa parte do encanto da obra está exatamente nisso.

Quanto à edição, a Companhia das Letras realizou um ótimo trabalho ao compilar as quatro edições da série num único álbum a um preço bem convidativo. O único senão é que a editora poderia ter dividido a trama em partes dentro do próprio encadernado, ou ao menos ter publicado as capas originais no miolo.

Apesar de evoluir de maneira irregular ao ter uma primeira metade muito superior à segunda, é inegável que Persépolis é um belíssimo álbum, quase didático, que tem como principal força mostrar de forma inédita nos quadrinhos o que ocorreu nas últimas décadas em uma região que já foi um dos maiores impérios da humanidade.

Classificação

4,0

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