Pigmaleão

Por Lielson Zeni
Data: 22 maio, 2015

PigmaleãoEditora: Circuito Ambrosia – Edição especial

Autor: Diego Sanchez (roteiro e arte).

Preço: R$ 19,50

Número de páginas: 48

Data de lançamento: Setembro de 2014

Sinopse

Um reencontro muito inusitado entre dois ex-namorados.

Positivo/Negativo

Quantas histórias são sobre uma garota e um garoto que se encontram (ou se reencontram), a famosa fórmula boy meets girl?

Pigmaleão, de Diego Sanchez, se enquadra nessa tradição, mas como a boa obra que é, oferece ao leitor uma novidade. E é genial que ela seja pescada em outra tradição.

A dica está no título da obra: a lenda (informada na quarta capa do gibi) fala de um escultor, Pigmaleão, que, frustrado com as mulheres que via, cria uma estátua para ser a representação perfeita do feminino e se apaixona por ela. A deusa Afrodite, com pena dele, dá vida à estátua e eles vivem juntos.

Essa lenda já foi reformatada por George Bernard Shaw, quando um aristocrata inglês aposta com um amigo que fará um vendedora de flores de rua ser uma dama de alta sociedade. O romance foi, por sua vez, adaptado para o cinema e para os palcos como My fair lady (Minha querida dama é o título brasileiro).

Diego Sanchez vai ao ponto central do mito: um homem incapaz de lidar com a realidade, sonhando com um mundo que não tem. E já que se trata de sonho, a HQ é toda leve, fluída, mutante.

A ausência de requadros concede uma liberdade e uma incerteza ao fluxo narrativo, ao mesmo tempo em que as ações são diretas, simples e tiradas do cotidiano.

Mas sempre há um grau de estranhamento. Na primeira cena, a garota chega no aeroporto. Aqui, o leitor já é apresentado ao ritmo da HQ: em vez de um corte de cena para cena, há um acompanhamento paciente de várias etapas do desembarque.

A moça entra num táxi, no banco de trás, mas a conversa com Arcádio, o motorista, é de velhos conhecidos. Esse pequeno gesto corporal de distanciamento justaposto a um texto de reconhecimento, embalado na arte sem volume de Sanchez jogam o leitor num espaço onírico e de imaginação. É um jogo simples de se criar, mas tão inteligente quanto singelo.

E eis uma característica que percorre toda a trama, a inteligência.

Boa parte da história é um diálogo dos dois personagens. O equilíbrio entre eles é notável, sendo cada um a seu próprio modo, personalizados, mas sem que narrativa penda mais a um ou outro.

Como se trata de um espaço imaginado/imaginário, os símbolos visuais trazem um narrativa entremeada que ressignifica e reforça aquilo que é mais visível, como a cicatriz em forma de mapa, por exemplo. Não é à toa que a capa da edição lembra a carta de tarô do enforcado.

Outro processo admirável é a transformação de metáforas em cenas, como a garrafa com os arrependimentos do passado lançada ao mar. E a HQ se encerra com uma cena que serviria de metáfora pra narrativa toda, invertendo a lógica.

Ela também marca outro ponto: com um enredo ligado à tradição que se resolve por meio de um objeto tão contemporâneo quanto um telefone celular. Novamente, é um movimento de amplitude na criação da história.

O texto de Sanchez varia entre o cotidiano e o lirismo e acerta bem quando faz que o poético surja do cotidiano, como a bela citação que está (também) na quarta capa: “Quando acordar restará saudade de uma memória inventada”.

Equilibrado entre o clássico e o moderno, entre um desenho leve e um texto forte, entre sonho e realidade, a obra Pigmaleão, um artefato de ficção, se faz real na experiência de seu leitor.

Classificação

5,0

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