A Pior Banda do Mundo # 1 a # 6

Por Marcelo Alencar
Data: 19 dezembro, 2008
MATERIAL IMPORTADO

 

A Pior Banda do Mundo # 1 - O Quiosque da UtopiaEditora: Devir Livraria – Edições especiais

Autor: José Carlos Fernandes (roteiro e desenhos).

Preço: 10 euros cada volume

Número de páginas: 56 a 72

Data de lançamento: 1998 a 2007

Sinopse

A série retrata o cotidiano melancólico de uma cidade sem nome onde as pessoas cultivam hábitos pouco ortodoxos.

Movidos por manias, medos, neuroses, paranóias ou pela simples excentricidade, os moradores de um lugar sem localização exata e aparentemente estagnado entre as décadas de 1940 e 1950 tocam suas vidinhas vazias sem grandes sobressaltos.

Em meio a esse populacho urbano nada comum, um quarteto de jazz ensaia três horas por dia no porão de uma alfaiataria (desativada em 1958) buscando um entrosamento improvável.

Positivo/Negativo

A série A Pior Banda do Mundo tem seis títulos publicados: O Quiosque da Utopia, O Museu Nacional do Acessório e do Irrelevante (ambos em 1998), As Ruínas de Babel (2003), A Grande Enciclopédia do Conhecimento Obsoleto (2004), O Depósito de Refugos Postais (2005) e Os Arquivos do Prodigioso e do Paranormal (2007).

Sarcástico, o texto explora a psicologia e o comportamento humanos em caráter individual e coletivo, reforçando a crença popular segundo a qual de perto ninguém é normal.

Nos álbuns, enquanto os burocratas do Ministério da Ergonomia aferem pesos e medidas de produtos inúteis, bibliófilos deleitam-se com versões ultracondensadas de romances obscuros e um crítico gastronômico com aversão a comida tece comentários barrocos sobre quitutes que jamais provará.

A Pior Banda do Mundo # 2 - O Museu Nacional do Acessório e do IrreverenteA Pior Banda do Mundo # 3 - As Ruínas de Babel

Alheio a tudo isso, o líder do Partido Idiossincrático discursa para as moscas, na esperança de que sua retórica distorcida afastará os potenciais eleitores. E um astrônomo amador concentra seu desespero na inevitabilidade do apocalipse cósmico – que deve ocorrer daqui a alguns bilhões de anos – sem perceber que, no próprio entorno, seu mundo particular desaba.

Em meio a isso, a formação da Pior Banda do Mundo ajuda o leitor a compreender sua má-fama: Sebastian Zorn, serrilhador de selos, sopra o sax; Idálio Alzheimer, verificador meteorológico, dedilha o piano; Ignácio Kagel, fiscal municipal de isqueiros, arranha o contrabaixo; e Anatole Kopek, criptógrafo de segunda classe, castiga a bateria.

Desprovido de swing, ritmo e carisma, o conjunto fez uma única apresentação pública, num restaurante – com resultados catastróficos, claro. E agora estuda uma proposta para tocar num parque de perversões sadomasoquistas.

José Carlos Fernandes, nascido em 1964 na região do Algarves e diplomado em engenharia ambiental, despontou nos fanzines lusitanos no fim dos anos 1980, com uma paródia cômica de Alix, quadrinho épico de Jacques Martin.

A Pior Banda do Mundo # 4 - A Grande Enciclopédia do Conhecimento Obsoleto A Pior Banda do Mundo # 5 - O Depósito de Refugos Postais A Pior Banda do Mundo # 6 - Os Arquivos do Prodigioso e do Paranormal

Em A Pior Banda do Mundo, lançada simultaneamente pela Devir em Portugal e na Espanha, o autor exercita sua capacidade de síntese em episódios de duas páginas cada um. Lidos isoladamente, eles apresentam narrativas autônomas com início, meio e fim bem definidos. Somados, porém, os enredos ganham força de um conjunto intrincado, complexo e profundo. E divertidíssimo.

O vocabulário esdrúxulo do quadrinhista funciona como uma faca de dois gumes. Para quem está disposto a ampliar o próprio repertório, os recordatórios e diálogos repletos de expressões como nefelibata, psicotroponauta, hipnopedia, gravítico, inflectir e ictiofauna são um convite a um mergulho num universo fantástico digno de Julio Cortázar em dias inspirados.

Para aqueles que não têm familiaridade com a etimologia da língua nem costumam consultar dicionários, no entanto, o texto se torna um obstáculo quase intransponível.

O desenho, caricato e colorido por tons de sépia, reforça a noção de que as ações transcorrem num passado recente. A indumentária dos personagens, seus veículos, a arquitetura e os objetos do dia-a-dia têm um ar nostálgico que remete ao período imediatamente posterior à Segunda Guerra. Mas os calendários mostrados em cena confirmam: as histórias são atuais. Mais uma contradição que faz pensar.

Classificação

4,5

Marcelo Alencar, jornalista e responsável pelos textos complementares da coleção O Melhor da Disney – As Obras Completas de Carl Barks

• Outros artigos escritos por

.

.

.