Piteco – Ingá

Por Milena Azevedo
Data: 29 novembro, 2013

Piteco – IngáEditora: Panini Comics– Edição especial

Autor: Shiko (roteiro, arte e cor).

Preço: R$ 19,90 (capa mole) e R$ 29,90 (capa dura)

Número de páginas: 80

Data de lançamento: Novembro de 2013

Sinopse

O povo de Lem se vê obrigado a migrar porque o rio próximo à aldeia secou. Mas o valente caçador Piteco decide não ir, pois precisa resgatar Thuga, que foi raptada pela tribo dos homens-tigre.

Positivo/Negativo

No período Quaternário, entre o final do Pleistoceno e o início do Holoceno, coexistiram três modos de organização socioeconômica: os caçadores-coletores-pescadores, os coletores-caçadores-pescadores e os primeiros agricultores, cujas crenças ditavam sua forma de pensar o mundo e agir.

Com a paulatina extinção da megafauna, tornou-se mais prático garantir a sobrevivência por meio da intervenção do homem na natureza e, assim, o processo de criar vínculos e raízes com a terra que lhe dava água, comida e abrigo teve início.

De forma soberba, Shiko retrata esse contexto de mudanças pré-históricas em Piteco – Ingá, fechando em grande estilo a primeira leva do selo Graphic MSP.

Na trama, três povos (outrora irmãos) disputam poder e território: os homens-tigre (caçadores-coletores-pescadores), o Povo de Ur (coletores-caçadores-pescadores) e o Povo de Lem (agricultores centrados na religião matriarcal).

Quando o rio seca, Thuga, sacerdotisa do povo de Lem, avisa que é chegada a hora de partir e procurar um novo rio, conforme os antigos registraram simbolicamente no paredão rochoso da Pedra do Ingá e no chão próximo a ele. Em tempo: hoje o rio próximo do local se chama Bacamarte.

Thuga tenta preparar a todos para as mudanças que virão, mas o caçador Piteco dá de ombros e mantem-se reticente ao seu modo de vida tradicional, sem saber que sua atitude iria influenciar a decisão da sacerdotisa em se deixar capturar pelos homens-tigre.

Como geralmente só se dá valor ao que se perde, Piteco une forças com os amigos Beleléu e Ogra para resgatar Thuga, enquanto o povo de Lem, retirantes pré-históricos, segue à procura do mítico rio vermelho.

Sabendo que, na natureza, “a beleza é o melhor disfarce da morte”, os três amigos enfrentam as armadilhas do povo de Ur, além de cruzar com divindades indígenas brasileiras (reinterpretações do Boitatá e do Curupira) e maia (Camazotz), bem como exemplares da megafauna, entre eles um Anhanguera, numa licença poético-temporal, haja vista essa espécie de pterossauro ter existido durante o período Cretáceo.

Será no embate entre as crenças e divindades dos homens-tigre e do povo de Lem que tudo se resolverá (numa ousada sequência, cujo desfecho surpreenderá os leitores acostumados ao “padrão Mauricio de Sousa”, mas totalmente em sincronia com a trama).

Na busca pela terra nova, margeada por um outro rio, os três povos voltarão a ser um só. Ao compartilhar experiências e conhecimentos, registrarão sua história com uma nova técnica: não mais sulcando a rocha, mas pintando-a com tinta vermelha e preta. E Piteco vai aprender que o amor leva até mesmo um caçador a momentos únicos de “plantar, esperar e colher”.

Curioso é o fato de que, embora Piteco – Ingá retrate a pré-história do Nordeste do Brasil, é a mais europeia das Graphic MSP, fruto da absorção da cultura do Velho Mundo por Shiko, ao fixar residência em Firenze, na Itália, há mais de três anos.

Por isso, mais do que traços precisos, embelezados pelo domínio das pinceladas em aquarela, o que salta aos olhos nesta obra é o processo de pesquisa para a escrita do roteiro.

Shiko homenageou um dos registros rupestres mais antigos feitos no Brasil, os petróglifos da Pedra do Ingá, na Paraíba, que datam aproximadamente de seis mil anos atrás. Esses petróglifos são divididos em cinco categorias: antropomorfos, zoomorfos, fitomorfos, astronômicos e abstratos, e desde o título e os créditos da primeira página (que simulam a técnica do baixo-relevo na rocha), passando por todo o discurso de Thuga, foram sagazmente selecionados e trabalhados para criar um pequeno relato mitológico.

O estudo antropológico para a caracterização da cultura de cada um dos três povos também merece destaque. Os adornos, as vestimentas, os cortes de cabelo e as armas mostram as diferenças e semelhanças entre os homens-tigre e os habitantes de Ur e Lem, com base em seus respectivos estilos de vida.

Sem falar no fato de que Shiko criou uma narrativa pré-histórica pelo viés feminino, na qual Thuga é uma heroína centrada em seu sexto sentido, e o elemento que faz por onde a ação acontecer e os conflitos serem solucionados.

Isso já basta para tornar essa história em quadrinhos um rico material a ser estudado em sala de aula, principalmente na Universidade.

Uma grande obra se faz com pequenos detalhes e, em Piteco – Ingá, Shiko comprova por que é um dos exímios mestres da arte sequencial contemporânea.

Classificação

5,0

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