Poema em Quadrinhos

Por Raquel Cozer
Data: 18 fevereiro, 2011

Poema em QuadrinhosEditora: Cosac Naify

Autor: Dino Buzzati (roteiro e desenho).

Preço: R$ 42,00

Número de páginas: 224

Data de lançamento: Novembro de 2010

Sinopse

Lançado em 1969 pelo escritor e artista plástico italiano Dino Buzzati (1906-1972), o livro reconta a história milenar de Orfeu e Eurídice, transpondo para o século 20 a saga do músico que parte em busca da amada no mundo dos mortos

Positivo/Negativo

Passados mais de 40 anos do lançamento na Itália, ainda é difícil definir esta única incursão de Dino Buzzati nos quadrinhos. Só isso já permite ter uma dimensão do que representou, em fins da década de 1960, a busca do autor por recorrer à alta literatura em uma forma narrativa então considerada artisticamente menor.

Jornalista e romancista elogiado, Buzzati, por uma dessas ironias do destino, considerava a escrita apenas um hobby. Dizia que seu verdadeiro trabalho estava na pintura e no desenho, artes pelas quais não se sentia reconhecido.

A ideia de juntar seus dois talentos em uma única obra resultou numa experiência de vanguarda capaz de agregar ao gênero densidade literária impensável naqueles tempos de quadrinhosunderground, abrindo caminho, com décadas de antecedência, para nomes como Art Spiegelman e Marjane Satrapi.

Adaptar para os dias correntes o mito grego de Orfeu e Eurídice não seria, por si só, uma iniciativa radical. Aqui mesmo no Brasil, 15 anos antes de Buzzati, Tom Jobim e Vinicius de Moraes transplantaram a sombria saga para o morro carioca.

O grande diferencial é que, com Buzzati, a história milenar de Orfi e Eura ganha aspectos terrivelmente modernos, colocando-se para os quadrinhos como Blow Up está para o cinema. Assim como no filme de Antonioni, um universo de orgias e rock’n’roll, imerso em cores tão chamativas quanto gélidas, ocupa boa parte da trama e revela-se um obstáculo ao objetivo do protagonista.

Recursos cinematográficos, por sinal, aparecem na graphic novel desde as primeiras páginas, quando um narrador indefinido apresenta um casarão que, segundo consta, sofre metamorfoses conforme a hora do dia.

Numa sequência de cinco quadros – ocupando metade da página ou a página inteira do volume de 13 x 20,5 cm -, o leitor conhece cinco formatos com os quais a construção teria sido testemunhada, num sintoma do estranhamento que permanecerá no centro dos acontecimentos até o fim da narrativa.

Referências da cultura do século passado – inclusive da cultura pop – aparecem em suas mais diversas formas ao longo das páginas seguintes, seja nas mulheres avantajadas como protagonistas de filmes de Fellini, seja no surrealismo de cenários deformados no estilo Salvador Dalí.

A poesia de vanguarda em alguns momentos lembra letras de músicas psicodélicas, tanto elas quanto as imagens evocando solidão, medo e abandono. No mundo em quadrinhos de Dino Buzzati, no qual textos e imagens intercalam-se em importância, a existência humana se revela um enorme e assustador vazio.

Classificação

4,0

Raquel Cozer é jornalista do O Estado de S.Paulo e responsável pelo blog A biblioteca de Raquel

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