Purgatoire

Por Talita Grass
Data: 21 dezembro, 2018

PurgatoireEditora: Vents d’Ouest – Edição especial

Autor: Christophe Chabouté (roteiro e arte).

Preço: 127,30

Número de páginas: 192

Data de lançamento: 2009

Sinopse

Em uma avalanche de azar, Benjamin Tartouche perdeu sua casa, seu trabalho e passou a morar nas ruas. Mas os verdadeiros problemas começaram após o terrível acidente que interrompeu a sua vida.

Positivo/Negativo

A existência humana é condenada ao conjunto de erros e acertos, ao desejo de encontrar o amor e aos milhares de momentos alegres e tristes que se intercalam. Mas, se existe algo dentro de nós que nos constitui como indivíduos, e se chamássemos isso de alma, qual seria o futuro delas após a morte?

Em Purgatoire, com seu estilo tão característico e diplomático, Chabouté constrói um painel que mostra como imagina o futuro dos indivíduos sem vida.

Benjamin Tartouche tem um trabalho confortável, possui uma casa para morar e, infelizmente, não tem coragem de falar com a mulher que ama. Após um incêndio, perde seu lar e, depois de uma série de infortúnios com sua seguradora, torna-se um morador de rua.

Desprovido de qualquer dinheiro, ele vaga pelas ruas até tornar-se invisível perante a sociedade e, por uma ironia da vida, é atropelado. E morre.

Após o leitor acompanhar o declínio dramático do protagonista, que culmina na sua morte, Chabouté apresenta o purgatório. O tom da narrativa se altera, um pouco mais de acidez em sua construção de um lugar livre de considerações religiosas – lá, todos os humanos são recebidos sem distinção de crenças. Assim, o autor escapa de maneira engenhosa das críticas religiosas.

Para alcançar sua redenção, o protagonista volta ao mundo dos vivos, mas em forma de consciência – como um anjo da guarda. Sua missão é encontrar um único indivíduo que lhe foi designada para guiar, mas a vida (ou a morte?) não foi muito generosa com ele e será a consciência da pessoa que ele menos gostaria de ter por perto.

As ilustrações são coloridas, porém com uma paleta bastante reduzida – tons escuros e terrosos. O tão engenhoso preto e branco do autor é o escolhido para materializar as almas sem vida, todas vagando sem cor em meio aos vivos. Pode-se ver, também, outras almas em busca de redenção – Chabouté aproveita para retratar almas de algumas ilustres figuras.

A melancolia está sempre presente. A face do protagonista consegue esboçar a amargura e o ressentimento de tudo que poderia ter feito em vida – ele dedica vários momentos somente para observar sua amada e sente a dor de não poder tocá-la.

Após a morte, sua visão de mundo torna-se apurada e sensível, Benjamin Tartouche adquire um outro nível de consciência e percebe com mais força a beleza da vida e do amor.

Os cenários são muito bem construídos, com profundidade, melancolia e certo ar poético. Apesar de ser um mestre do silêncio, o autor consegue ousar e tocar a alma do leitor também com as palavras. O texto é enxuto e eficiente, apesar de ser uma história longa e dividida em três partes – foi publicada assim originalmente, mas esta resenha é sobre a edição integral. A narrativa é veloz, caótica e deixa evidente o desespero do protagonista.

A temática das obras de Chabouté sempre perpassa pelos sentimentos mais humanos. Aqui não é diferente e, com delicadeza e habilidade, ele fala sobre a morte. Abordando a complexidade da existência e o potencial que o ser humano tem de sempre recomeçar.

Classificação:

5,0

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  • Muito interessante. Lembra, vagamente, Midnight Nation do Straczynski. Espero que seja publicado no Brasil (claro que estou falando da editora Picoca & Nanquim).