Questão – Zen e a Arte da Violência

Por Lielson Zeni
Data: 2 março, 2012

Questão - Zen e a Arte da ViolênciaEditora: Panini Comics – Edição especial

Autores: Dennis O’Neil (roteiro), Denys Cowan (desenho), Rick Magyar (arte-final) e Tatjana Wood (cor) – Publicado originalmente em The Question – Vol. 1 – Zen and violence.

Preço: R$ 49,90

Número de páginas: 176

Data de lançamento: Agosto de 2009

Sinopse

Conheça o recomeço, no final dos anos 1980, para o antigo personagem da editora Charlton, o Questão. Aqui, Vic Sage precisará renascer e mudar sua mente e seus métodos para combater o crime. E esses ensinamentos vieram da filosofia Zen.

Este encadernado compila as seis primeiras edições publicadas mensalmente nos Estados Unidos em 1987.

Positivo/Negativo

O Questão é um personagem criado em 1967, para a editora Charlton, por Steve Ditko – mais conhecido como desenhista do Homem-Aranha.

No começo da década de 1980, a DC comprou os personagens da Charlton, que incluem, além do Questão, Besouro Azul, Capitão Átomo, Pacificador, Lady Fantasma e diversos outros.

(Sem falar que a própria Charlton já havia comprado personagens de outras editoras. Mais detalhes nesta boa matéria de Roberto Guedes para o site HQ Maniacs.)

Esses personagens chegaram e foram jogadas na Terra 4 do multiverso da DC, no meio da Crise nas Infinitas Terras. Alguns acabaram na Liga da Justiça após o final da série. Mas acabaram mais conhecidos como os “moldes” que o roteirista Alan Moore usou para os personagens de Watchmen.

Inicialmente, o autor inglês usaria os personagens da Charlton para a série, porém, havia outros planos editoriais para eles e Moore teve de criar seus próprios superseres. Desse modo, em vez de Besouro Azul, Pacificador, Capitão Átomo, Thunderbolt, Sombra da Noite e Questão, surgiram, respectivamente, Coruja, Comediante, Dr. Manhattan, Ozymandias, Espectral e Rorschach.

Atualmente, a máscara sem face do personagem é vestida por René Montoya. Ela assumiu a identidade na série 52, após a morte de Vic Sage, o Questão original e o personagem deste encadernado.

Voltando no tempo, ao final dos anos 1980, que é quando a DC resolve apostar no Questão. Para isso, contratou o experiente roteirista Dennis O’Neil e o talentoso desenhista Denys Cowan e lançou uma revista mensal do personagem.

A vida editorial foi de três anos, com a revista se encerrando na edição # 36. Nos Estados Unidos, todo esse material está reunido em seis encadernados. Será que a Panini publicará os outros cinco por aqui?

Vale lembrar que a Abril publicou muitas histórias dessa fase na saudosa revista Caçadores – que contava ainda com HQs do Arqueiro Verde, de Mike Grell e Ed Hannigan, e do Sombra, de Gerard Jones e Eduardo Barreto.

Neste encadernado com desnecessária capa dura, o leitor encontra as seis primeiras edições norte-americanas da revista The Question. Na primeira história, O’Neil apresenta o cenário – Hub City, uma cidade corrompida e violenta – e mata o personagem, para fazê-lo renascer na trama seguinte.

Por mais que hoje soe muito forçado e clichê, na época, morte e ressurreição de super-heróis não era uma prática tão comum quanto fila de supermercado. E há uma motivação no roteirista pra fazer seu personagem morrer: era preciso mudá-lo.

Esse conceito se ligou a toda filosofia Zen que O’Neil usou como base para essa fase do personagem, substituindo o Objetivismo (disciplina fundada por Any Rand), que Ditko associou ao personagem quando o criou.

Essa mudança de base filosófica muda por completo o direcionamento do herói.

Quanto ao roteiro, vale lembrar que O’Neil escreveu grandes histórias do Batman, a aclamada fase do Lanterna Verde e do Arqueiro Verde rodando pelos Estados Unidos, o Sombra, Demolidor, Superman vs. Muhammad Ali, entre muitos outros. Ele é o autor até do guia que ensina como escrever roteiros da DC.

Ou seja, não lhe falta experiência ou conhecimento técnico. E as histórias, do ponto de vista da estrutura e da distribuição das ações, são verdadeiras aulas para roteiristas iniciantes. Há, contudo, um porém.

A mesma década de 1970 que influenciou O’Neil a colocar Arqueiro Verde e Lanterna Verde on the road e lhe trouxe uma carga de conhecimento sobre o Zen-budismo, carregou o autor com uma experiência e visão de quadrinhos um tanto inocente. E isso se reflete fortemente em alguns personagens.

Se nos quadrinhos atuais há muitos roteiristas com problemas de ritmo e distribuição das ações, também há pouquíssimos que constroem personagens planos e dicotômicos, que se dividem entre bons e maus. Há sempre um ou outro elemento que misture ambos os aspectos.

O’Neil não deixa de ser um roteirista de sua época, embora talvez seja o melhor deles. Há várias motivações e atitudes que parecem inverossímeis aos leitores de hoje. Isso gera uma queda na qualidade do material, mas nem de longe o invalida.

Já a arte de Denys Cowan começa meio esquisitinha e vai melhorando. Conforme o desenhista pega o jeito do personagem, as expressões, cenas de ação e até mesmo o traço melhoram.

A iniciativa da Panini de publicar este material é louvável. A opção pelo acabamento que empurra o álbum pra quase R$ 50,00 é questionável. E a continuação da série no Brasil é pouco provável. Afinal, dois anos e meio depois, nem sinal do segundo volume.

Deve ter se juntado ao limbo dos cancelamentos não anunciados: Starman, Liga da Justiça de Grant Morrison, Poder Supremo, Shazam – Sociedade do mal, Batman de Neal Adams, Biblioteca Histórica Quarteto Fantástico, XIII, Blacksad, Superman – Crônicas

Mas há de se encarar de modo zen essa situação: que o leitor aproveite o que existe de fato e não aquilo que se espera. Esta edição vale o investimento.

O bom trabalho de um roteirista clássico como Dennis O’Neil merece ser conhecido e louvado pela qualidade que tem. Assim como a arte do sumido Denys Cowan.

Classificação

4,0

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