Reportagens

Por Audaci Junior
Data: 23 dezembro, 2016

ReportagensEditora: Quadrinhos na Cia. – Edição especial

Autores: Joe Sacco (roteiro e desenhos) e Rhea Patton (cores) – Originalmente em Journalism (tradução de Érico Assis).

Preço: R$ 49,90

Número de páginas: 200

Data de lançamento: Agosto de 2016

Sinopse

Coletânea de relatos sobre conflitos ao redor do mundo, produzidos entre os anos de 1998 e 2011. Histórias sobre refugiados africanos em Malta, contrabandistas palestinos, criminosos de guerra e suas vítimas.

O autor faz ainda uma incursão com o exército norte-americano no Iraque, em que vê de perto a miséria e os absurdos da guerra, relatando os horrores e as esperanças da humanidade.

Positivo/Negativo

Depois de verdadeiros livros-reportagens em quadrinhos sobre conflitos em áreas da Palestina e Bósnia Ocidental, Joe Sacco apresenta uma coletânea com reportagens mais sucintas, o que não quer dizer que sejam menos intensas ou denunciativas.

Publicado no Brasil desde o começo dos anos 2000, com obras de fôlego, como Palestina – Uma nação ocupada, Área de Segurança Gorazde e Notas sobre Gaza, o jornalista-quadrinhista faz, pela primeira vez, um manifesto em forma de introdução sobre a forma que se vale para produzir suas obras.

A fim de justificar e legitimar a sua instrumentação por meio dos quadrinhos, Sacco se despe da camisa de força da repressão editorial vigente na maioria dos meios de comunicação e confronta questões como a inerente subjetividade dos desenhos perante a captura literal de um momento real da fotografia.

Ele analisa também como é complicado fazer o material, já que na mídia impressa/digital se pode descrever resumidamente em poucas palavras uma cena en passant ou simplesmente ligar o record e gravar na mídia audiovisual. A pesquisa imagética para a “verdade essencial” nos quadrinhos pode ser bem mais complicada e trabalhosa, feita em vários processos.

O autor defende os princípios éticos aprendidos tanto na Academia como no batente, mas também intercede pelo grau de parcialidade do intercâmbio pessoal de ser um personagem na sua própria reportagem.

Cânones jornalísticos como objetividade e equilíbrio de uma matéria também são colocados em pauta no manifesto, sempre com uma preocupação de reflexão em cima dessas equações.

Analisando o texto introdutório, pode-se avaliar que o jornalismo em quadrinhos – uma mídia “inerentemente interpretativa”, nas palavras de Sacco – pode muito bem estar junto das outras formas “alternativas” de se fazer tal atividade, vide o Jornalismo Gonzo (sempre questionado se realmente é um modelo), no qual o narrador torna-se personagem da obra; e o Jornalismo Comunitário, feito por moradores locais.

Deixando de lado o pano pra manga da discussão funcional do estilo jornalístico, o álbum serve como um megafone para diversas vozes silenciadas e oprimidas ao redor do globo, que geralmente estão fora do radar das televisões ou à margem dos grandes veículos de comunicação.

Perante uma mídia cada vez mais rasteira e apressada, com leitores desatentos que não passam da manchete ou das primeiras palavras de um parágrafo inicial, um dos fatores cruciais sobre o jornalismo praticado pelo autor (que pode muito bem ser seguido nos outros modelos) é a “decantação” do tema.

Sem pressa, Sacco procura ouvir um grande número de pessoas, colhendo depoimentos, repassando dados de pesquisa e formando cenários para situar melhor o leitor nos pequenos dramas que configuram uma problemática maior.

Em meio aos cenários realistas, os traços mais cartunescos das pessoas retratadas pelo autor – influenciado por nomes do underground como Robert Crumb – faz com que essa variação icônica cause uma melhor identificação do leitor com os personagens.

Outro trunfo é a utilização da ferramenta da entrevista como fio condutor, complemento de informações ou abrir para a possibilidade de diálogo e não no sentido de interrogatório.

Curiosamente, as primeiras histórias (mais curtas, inclusive) são coloridas. O que se pode atestar no uso das sóbrias paletas é que não há realmente uma necessidade do seu uso. As cores não agregam em nada nas audiências jurídicas sobre as atrocidades nos Bálcãs (Julgamentos de guerra) ou na sua visita à cidade mais conflituosa da Cisjordânia (Por dentro da cidade de Hédron).

Um dos nomes citados na HQ de abertura é do líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic, acusado de genocídio. Essa figura política foi protagonista de outra história curta de Sacco, intitulada Natal com Karadzic, publicada por aqui na coletânea Comic Book – O Novo Quadrinho Norte-Americano (Conrad, 1999).

Como adendo em cada final de reportagem, a edição traz um pequeno texto do autor, como uma espécie de bastidores, no qual são apontados acertos, erros, impressões, decepções, justificativas e outras curiosidades da cobertura. Sacco não se acanha de afirmar que Por dentro da cidade de Hédron seja sua pior matéria no jornalismo em quadrinhos até então (tanto que ele não aparece nela).

Mais perto da narrativa dos outros álbuns, a reportagem A guerra e as chechenas mostra o cotidiano dos refugiados internos na República Russa de Inguchétia, região do Cáucaso Norte, originados das ações políticas e conflitos desde o colapso da União Soviética, no final dos anos 1980.

Para situar melhor o leitor, o autor promove uma passagem didática histórica sem deixar de lado o que é geralmente suprimido por outros meios: o lado humano das vítimas, as atrocidades perpetradas pelos russos e os exemplos de descaso nos precários campos de refugiados chechenos.

Em Complacência mata e Desce! Sobe!, o jornalista inverte a abordagem para mostrar a tensão das patrulhas de fuzileiros dos Estados Unidos em busca de insurgentes no Iraque e como iraquianos da Guarda Nacional são treinados duramente por oficiais norte-americanos “valentões”, respectivamente.

Mais interessante do que essas duas coberturas é Trauma de empréstimo, na qual Sacco posteriormente nas notas revela toda a sua frustração por não obter mais detalhes de dois cidadãos iraquianos, que foram torturados por soldados estadunidenses e entraram com processo contra o secretário de defesa norte-americano na época.

O extremamente delicado e atualíssimo tema das imigrações é abordado em Os indesejáveis. No mar mediterrâneo, o pequeno arquipélago de Malta é o destino não planejado de centenas de africanos que fogem das suas terras natais por causa de guerras ou dos quadros de precárias situações econômicas.

Em circunstâncias completamente diferentes, o próprio autor já passou por isso: nascido em Malta, Sacco foi muito novo para a Austrália e depois para os EUA, onde vive até hoje.

Revelando uma “bomba-relógio” prestes a explodir, é colocada em evidência a falta de estrutura política e social do local, o preconceito dos malteses com os expatriados (que vai além da nacionalidade e entra na questão racial) e a burocracia que engessa e discrimina os imigrantes.

Vale observar que o quadrinhista promove um “equilíbrio” jornalístico, alvo de suas críticas no manifesto introdutório da coletânea, ouvindo também as múltiplas e distintas opiniões do povo maltês.

Por fim, em Kushinagar, a fome das castas mais pobres da Índia é denunciada perante uma extensa teia de corrupção que desvia recursos dos programas governamentais. Bem distante do suntuoso conjunto arquitetônico do Taj Mahal e da produção massiva de filmes da Bollywood, os pesados relatos ocorrem em paralelo com a censura das classes mais relegadas.

Mesmo passando por várias leituras e graus de situações bastante problemáticas com base em conflitos, a reportagem no segundo país mais populoso do mundo é a que mais desola, pelo seu clima de total desesperança e resignação das vítimas. Elas não esperam o final de uma guerra ou uma ajuda que vem de fora, no caso, na figura de um jornalista. É o desfecho mais pungente em relação aos outros.

A edição do selo Quadrinhos na Cia. tem capa cartonada fosca sem orelhas, formato 19,5 x 26,5 cm, papel off-set de boa gramatura e impressão. A editora tem que tomar mais cuidado com os deslizes de revisão, como erros primários de digitação de palavras juntas.

Nos tempos de um jornalismo cada vez menos humano, mais mecânico e constantemente enrolado nas suas camisas de força, Reportagens pode ser reconhecida como uma documentação cada vez mais madura do jornalismo em quadrinhos, sem abrir mão da reflexão.

Um modelo que revela rostos reais nos seus desenhos, coloca detalhes revoltantes nos seus recordatórios tortos como blocos autoadesivos e oferece voz com seus balões aos anônimos desfocados na hora da foto, cortados na edição por falta de espaço ou simplesmente ignorados pelos “formadores de opinião”.

Classificação

4,5

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