Rescate – Las historietas perdidas de Solano Lopez

Por Paulo Floro
Data: 17 março, 2014

Rescate – Las historietas perdidas de Solano LopezEditora: Domus Editora – Edição especial

Autores: Rodolfo Walsh, Guillermo Saccomanno, Carlos Sampayo, Robert Boyd, Alfredo Grassi, Omar Panosetti, Pol Maiztegui e Gabriel Solano López.

Preço: US$ 25,00 (em sebos online)

Número de páginas: 128

Data de lançamento: Janeiro de 2007

Sinopse

Reunião de histórias pouco conhecidas ou inéditas de Solano López, feitas entre 1970 e 1990. Cada HQ vem com um comentário do autor.

Os roteiristas que trabalham com o mestre nesta coletânea são: Rodolfo Walsh, Guillermo Saccomanno, Carlos Sampayo, Robert Boyd, Alfredo Grassi, Omar Panosetti, Pol Maiztegui e Gabriel Solano López.

Positivo/Negativo

O desconhecimento do mercado e dos leitores brasileiros da produção de quadrinhos da América Latina já não é novidade. Apesar da proximidade, por aqui sabe-se pouquíssimo da importância dos clássicos das HQs da Argentina, Chile e outros países, assim como de seus mestres.

Um dos mais importantes autores argentinos, Solano López (1928-2011), mesmo tendo morado no Brasil durante os anos 1980, ainda é um ilustre desconhecido em nosso país. Ele é mais lembrado por ser o desenhista da primeira versão de O Eternauta, marco da produção argentina escrita por Hector Oesterheld.

Mas a carreira do desenhista foi marcada pela versatilidade de estilos e temas, como pode ser visto nesta coletânea Rescate, lançada pela editora argentina Domus em 2007.

López sofreu influência de todos os lugares onde morou. Em suas duas passagens pela Europa, percebeu-se uma evolução de seu traço. Ao longo de Rescate, é possível ver uma mudança que tende ao experimentalismo em alguns momentos e se adapta à força emotiva das histórias. Poucos artistas se transmutaram tanto para dar vida às HQs que desenharam.

As nove tramas da coletânea abordam diversos gêneros, como ficção-científica, policial, suspense e drama histórico. E em todas pode-se ver aspectos psicológicos que mostram a preocupação das HQs argentinas com um roteiro denso e que dialogue com questões humanas maiores.

Já na abertura há uma história futurística que faz uma alegoria das tensões existentes no mundo na época da Guerra Fria (inspiração para muitos trabalhos do período). O traço de Solano lembra seu trabalho na primeira parte de O Eternauta, sem muito invencionismo estético, mas carregado de carga dramática.

Com roteiro de Alfredo Grassi, La Ultima Batalla mostra um grupo de militares em um submarino a uma profundidade nunca antes alcançada. A grande surpresa é que outro submarino, de uma nação inimiga, conseguiu o mesmo feito. E pior: a tecnologia utilizada é praticamente idêntica.

Ao invadir as instalações desse oponente, é revelado um perigo ainda maior, que pode significar o fim da espécie humana. E o desenho de López consegue expressar o horror no rosto dos personagens frente a um mal que parece inexorável.

O pequeno conto reflete o temor de uma extinção global frente ao poderio das nações e mostra uma melancolia pouco vista nas HQs de ficção-científica da época, mais focadas no tom aventuresco.

A história seguinte, Avenida Corrientes, escrita por Guillermo Saccomanno, foi feita quando Solano morava na Espanha, nos anos 1970. É fácil perceber um traço mais próximo do que estava sendo feito nos quadrinhos europeus de então, com uma linha mais fina.

São duas aventuras dessa série que aborda momentos da vida de pessoas anônimas e o resultado de escolhas feitas. A primeira é de uma sensibilidade tão marcante, que funciona como uma aula de como criar envolvimento emocional com o leitor em apenas seis páginas.

O livro ainda abre espaço para duas HQs históricas desenhadas por Solano López. A primeira, sobre a Guerra do Paraguai, foi feita em parceria com seu filho, Gabriel, que assina o roteiro. A trama se dedica aos momentos finais do conflito, quando o exército brasileiro caçava o marechal homônimo dos autores, Solano López. Interessante notar que, além da preocupação em fazer um registro da História, há um tom poético na narrativa, evidenciado pelo olhar dos personagens.

A segunda HQ é sobre a resistência clandestina à ditadura argentina e foi escrita por Omar Panosetti, a partir de texto de Rodolfo Walsh. Como lembra Solano na introdução, o trabalho foi feito durante sua passagem pelo Brasil, quando morou no Rio de Janeiro. Aqui, o desenhista assumiu um traço ultrarrealista, que evidenciou a violência dos massacres e detenções dos militares.

Rescate traz dois suspenses escritos por Carlos Sampayo, nome conhecido das HQs argentinas e que também se refugiou na Europa por questões políticas. A primeira é uma história do detetive Evaristo, que se tornou popular nos anos 1980, quando foi editado na Itália e França. A segunda é Clown, uma intrincada trama sobre uma garota de circo vidente, na época do nazismo.

La Vision é outra aventura feita no Brasil, em parceria com Pablo “Pol” Maiztegui. É um belo conto sobre morte e renascimento que remete às origens dos povos originais da América do Sul.

A HQ final da coletânea é, sozinha, um clássico. Boya 77 foi escrita por Robert Boyd e feita para a Dark Horse, nos anos 1990. Assim como várias obras feitas por López, foi desenhada no Brasil e se passa no litoral de alguma praia de nosso país.

A trama fala de uma boia desaparecida de um navio norte-americano que passava por ali. O comandante decide oferecer uma recompensa de 100 dólares, o que equivale a 4.500.000 cruzeiros, uma pequena fortuna para a comunidade local de pescadores.

O roteiro mostra como a vida das pessoas foi totalmente transformada na busca por essa boia, o que acarreta mortes, brigas entre amigos antigos, trapaças e chantagens. A sensibilidade do texto faz referência ao desequilíbrio da balança entre países pobres e ricos e dos limites da luta pela sobrevivência. A expressão no rosto dos personagens fica marcada na mente do leitor por horas após fechar o livro.

O álbum traz ainda detalhes interessantes sobre o processo criativo dessas histórias e de como o próprio Solano Lopez tinha pouco acesso ao seu próprio material. O editor Andrés Accorsi revela que, para levantar as nove histórias da edição, foi feita uma verdadeira operação de guerra, já que parte do material estava perdido.

Além disso, muito do que Solano desenhou quando esteve no Brasil acabou não chegando às suas mãos.

Obras como esta mostram a importância de tornar acessíveis obras de autores importantes para os quadrinhos. Que sirva de inspiração para editores fazerem o mesmo com quadrinhistas brasileiros.

Classificação

5,0

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