Rugas

Por Audaci Junior
Data: 28 setembro, 2018

RugasEditora: Devir – Edição especial

Autor: Paco Roca (roteiro e arte) – Originalmente publicado em Arrugas (tradução da Devir, com adaptação de Leandro Luigi Del Manto).

Preço: R$ 59,00

Número de páginas: 104

Data de lançamento: Novembro de 2017

Sinopse

Como sua família não consegue mais lidar com as dificuldades provocadas pelo Alzheimer, Emílio é internado num asilo para idosos. Ex-gerente de banco, ele agora encara a vida comunitária como uma prova difícil de ser vencida.

Mas Emílio aceita rapidamente o seu novo ambiente e decide lutar para escapar à decadência a que sua doença o levará: os assistidos no primeiro andar.

O desgaste de toda uma vida o cobre de rugas, e alguns veem as letras das suas páginas se apagarem, folha após folha, até ficarem totalmente brancas. Apesar disso, as emoções mais intensas sobrevivem, preservadas como um tesouro escondido numa ilha distante.

Positivo/Negativo

O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa e incurável, que provoca o declínio das funções cognitivas, reduzindo as capacidades de socialização e trabalho do indivíduo, chegando a interferir no seu comportamento e na sua personalidade.

De acordo com a Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz), cerca de 6% da população acima dos 60 anos no Brasil têm a doença, que é a causa mais comum de demência. A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta uma estimativa de que aproximadamente 50 milhões de pessoas sofram de algum tipo de demência no mundo inteiro (estatística na qual o Alzheimer se encontra).

A enfermidade é caracterizada pela piora progressiva dos sintomas, mesmo tendo períodos de maior estabilidade. Dividida em três fases, inicialmente a pessoa começa a perder sua memória mais recente, que é apenas uma das características, vale lembrar. É o caso de Emílio, que se encontra nesse estágio inicial.

Diferentemente do que a maioria deva pensar, o Alzheimer não é uma exclusividade dos mais idosos, apesar de terem a porcentagem maior nas pesquisas sobre a doença. O espanhol Paco Roca mostra nesta obra um cenário bastante duro sobre o envelhecer, que poderia se situar em qualquer lugar do globo, “noves fora” as situações sociais, econômicas e culturais distintas em cada país ou região.

“Dizem que quando você se olha no espelho e começa a se parecer com seu pai é sinal de que está envelhecendo”, escreveu o autor no posfácio, explicando que catou e colecionou várias histórias e “tiques” acerca da patologia por meio dos relatos de familiares e amigos.

Rugas tem o cuidado de equilibrar a gangorra com o peso do drama e do cômico. Há momentos de leveza e humor, mas que também convivem com a amargura disfarçada, ora mais severa e escancarada para uns, ora mais maquiada no pancake da negação para outros.

O que se notabiliza realmente é a reflexão em cima dos depoimentos e ações em forma de justificativas, reclamações ou desabafos. As inatividades física e mental como bengalas da rotina fazem com que doenças se agravem, dentro das limitações do que a instituição oferece aos seus pacientes.

O quadrinhista só assume o tom explicativo quando há espaço para isso, o que acontece quando o protagonista conversa com um médico. Em outras sequências, o leitor é apresentado aos universos distintos nos quais muitos coadjuvantes pensam viver, presos nas grades circulares do cotidiano que praticamente se resume a comer e dormir.

São mundos onde há intermináveis viagens a bordo do Expresso Oriente, alienígenas servem de metáforas para a solidão e o soldado presta continência como bom subordinado a qualquer hora. Ao mesmo tempo – no mundo real –, a curiosidade é cutucada com outros detalhes ao redor do asilo, que servirão de reflexão ou mero efeito narrativo para enfatizar o discurso do autor sobre o tema.

Dentre vários exemplos e graus de Alzheimer, Roca mostra um bastante comum, que é o mote principal de um dos contos da canadense e Nobel de literatura Alice Munro, O urso atravessou a montanha (dentro da coletânea Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento), que originou a ótima versão cinematográfica Longe Dela (2006), indicado na época ao Oscar de Melhor Atriz (Julie Christie, de Fahrenheit 451) e Melhor Roteiro Adaptado (da diretora Sarah Polley).

Preste atenção em como são construídos esses personagens, como o companheiro de quarto de Emílio, o aproveitador e bonachão Miguel. Ele tem atitudes aparentemente egoístas e amargas, mas é muito mais do que isso. Com o passar do tempo/páginas, o leitor passa a enxergá-lo sem as maquiagens.

A arte limpa e cartunesca de Roca se adapta bem à diagramação sóbria e sem grandes composições. Outra sutileza é o uso dos tons pastéis, que são amenizados e enfatizados ou trocados para dar o efeito desejado. Destaque para a retratação da doença em certo estágio e a bela capa, uma metáfora que se estende à história em si.

A edição da Devir, sob o selo Biblioteca de Alice (publicado aqui e em Portugal), tem capa dura com laminação fosca, formato 20 x 26 cm, papel couché de ótima gramatura e impressão, além de um breve texto do autor e alguns esboços. A editora precisa tomar cuidado com alguns pequenos escorregões na revisão envolvendo acentuação e uso do hífen, por exemplos.

Rugas faturou diversos prêmios, como Melhor Álbum no Festival de Lucca, na Itália, e o Prêmio Nacional de Quadrinhos na Espanha, ambos em 2008. Três anos depois, a obra ganhou um igualmente premiado longa-metragem em animação, com roteiro do próprio Roca e dirigido por Ignacio Ferreras (do famoso curta Como lidar com a morte).

Ponto também para a Devir por ser a primeira a trazer esse que é um dos destaques do cenário espanhol. Há muitas obras de Paco Roca para serem exploradas pelos leitores brasileiros, que vão desde bastidores do mercado espanhol de quadrinhos, passando por batalhas históricas, até dramas mais intimistas envolvendo as memórias de onde ele viveu.

Ao final da leitura de Rugas, é inevitável a reflexão dos nossos caminhos daqui a algumas décadas, quando assumiremos as feições (de)marcadas dos nossos pais, possivelmente nos alimentando do nosso passado, contentando-nos com o mínimo de atenção ou simplesmente negando a realidade. Esperando por algo que é a única certeza que chegará nesta vida.

Classificação:

5,0

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