A Saga do Monstro do Pântano

Por Eduardo Nasi
Data: 6 julho, 2007

A Saga do Monstro do PântanoEditora: Pixel Media – Edição especial

Autores: Alan Moore (texto), Dan Day (desenhos de Pontas Soltas), Steve Bissette (desenhos) e John Totleben (arte-final).

Preço: R$ 54,90

Número de páginas: 192

Data de lançamento: Junho de 2007

Sinopse

No combate final com Sunderland, o Monstro do Pântano é baleado e tido como morto. Para a autópsia, é chamado um velho vilão da DC: Jason Woodrue, o Homem-Florônico.

Híbrido de humano e vegetal, o cientista Woodrue descobre que a criatura nunca foi Alec Holland, e sim plantas que incorporaram a inteligência do pesquisador durante o acidente e assumiram sua identidade.

O contato com o Monstro do Pântano causa grande impacto em Woodrue, que arma um plano no qual utiliza sua capacidade de controlar vegetais para destruir a humanidade, atraindo até mesmo a atenção da Liga da Justiça.

Em outra história, um garoto autista que está no Campos Elísios, escola para crianças com problemas em que Abby está trabalhando como professora, começa a ter problemas com um monstruoso macaco branco.

Positivo/Negativo

Passados mais de 20 anos da primeira publicação do Monstro do Pântano de Alan Moore, ainda é difícil de precisar o tamanho da influência das histórias deste álbum nos quadrinhos norte-americanos. O peso vai muito além do fato de essas histórias terem motivado o então jovem e inexperiente Neil Gaiman a escrever quadrinhos – e isso já não é pouca coisa.

Monstro do Pântano fez com que Moore se tornasse um grande autor, conhecido e admirado nos Estados Unidos. A partir daí, é uma reação em cadeia. Marvel e DC promoveram a célebre “Invasão Britânica” dos anos 80.

Na cola de Moore, vieram nomes como Gaiman, Grant Morrison, Dave McKean, Mark Millar, Warren Ellis, Brian Bolland, David Lloyd. O grupo revitalizou os quadrinhos norte-americanos. Não só isso: até hoje, produz alguns dos títulos mais interessantes.

Quando a editora Image ressentiu-se da falta de bons roteiristas, foi buscar ajuda no grupo da Bretanha: chamou Moore e Gaiman para títulos como Spawn e WildC.A.T.S. (em fase recentemente publicada no Brasil pela mesma Pixel).

Também foram histórias feitas por ingleses, Moore inclusive, que tiraram a Wildstorm de Jim Lee da massaroca da Image e reposicionaram-na como um selo de prestígio, com títulos como AuthorityPlanetaryFreqüência Global e a linha ABC (de novo, liderada pelo autor).

Anos depois, quando a DC decidiu criar uma linha de quadrinhos mais sofisticados, partiu dos preceitos criados por Moore para desenvolver o selo Vertigo, em que estão títulos comoFábulasInvisíveis100 BalasPreacherHellblazer e DMZ.

No Brasil, essas histórias de Moore não marcam só a gênese de outros títulos, mas também da própria editora que as publica: sem elas, a Pixel seria muito diferente.

No resto do mercado, a influência é igualmente nítida, atingindo até mesmo as grandes editoras: não fosse pelo pontapé inicial de Moore, títulos como Grandes Astros – Superman,Sete Soldados da VitóriaSupremos e mais um punhado provavelmente não estariam por aí.

A história também apresenta pela primeira vez o que viria a ser um modelo de reformulação que os autores ingleses adotariam a seguir: olhar um personagem esdrúxulo e suas incongruências para recriar algo completamente novo. Foi assim que surgiram Sandman e o Homem-Animal. E que Alec Holland deixou de ser homem e virou uma coisa do pântano, como sugere o nome original, Swamp Thing.

Fato é que A Saga do Monstro do Pântano foi influente anos atrás, mudou tudo pra valer, mas continua sendo uma história notável. Não é algo comum de se ver.

Republicações recentes mostraram que obras consideradas revolucionárias de John Byrne na mesma época pecam por um excesso de recordatórios. Relido anos depois, Chris Claremont perde seu brilho. Mas Monstro do Pântano continua tinindo. Se fosse lançada hoje, seria memorável. E provavelmente estabeleceria um outro marco nas HQs.

O responsável pela grandeza da história não é apenas Moore. Bissette e Totleben criaram páginas inspiradíssimas. Não é só o protagonista que é orgânico: a sensação de que há algo vivo no pântano ultrapassa o roteiro e os personagens; está nos cenários, nas cores, na diagramação das páginas, na transição entre os quadros.

Ainda há muito para o time fazer em Monstro do Pântano nos próximos álbuns, mas os primeiros passos servem como uma sólida proposta de intenções.

Pixel, por sinal, planeja publicar toda a gestão de Moore neste formato. Trata-se do melhor tratamento que a HQ já recebeu no Brasil: capa dura, papel couché, cores, notas, edição cuidadosa e publicação do número 20 da edição norte-americana da revista, até então inédita por aqui.

Apesar de o começo da saga ter sido publicado diversas vezes, a série só chegou ao final na primeira vez, quando ainda era publicada pela Abril. Na época, os zelos editoriais com HQs eram menores: saiu em formatinhos mix, migrou para um formatinho próprio e, mais perto do final, ganhou enfim o formato americano. Concluí-la neste formato será um grande mérito.

A introdução que Moore escreveu para esta edição é espetacular – e tão revolucionária quanto a história. Em tese, serviria apenas para recapitular os primeiros 19 números da revista do Monstro do Pântano. Mas o inglês ocupa três páginas falando da relação entre quadrinhos, seus personagens e seus leitores.

Lembra, inclusive, que não é tão importante assim começar a ler uma história do começo e ir até o final – afinal, o próprio Universo DC surgiu antes de a maioria de nós nascer e dificilmente acabará antes de morrermos.

Mas incomoda um detalhe da última página, quando se nota uma interferência no texto do autor. Em vez de apontar como nota da equipe, a informação a respeito do ineditismo da edição 20 é atribuída ao próprio Moore. Mais uma vez, a Pixel desliza – já tinha alterado uma introdução de Gaiman em Dias da Meia-Noite para disfarçar que havia duas histórias a menos.

A edição tem outro porém: as páginas da primeira história não estão totalmente espelhadas, como o plano de publicação original contemplava. O alerta é dado em um PS no editorial, e é compreensível.

Mas dava para remanejar jogando com a capa publicada da página 30 e a página de notas, que ficou perdida no meio da revista. Mexendo ali, a história poderia ser publicada como foi concebida.

Ficaria estranho, claro, ver a história entrecortada por uma capa. Mas, até aí, bastava usar o mesmo PS para explicar a situação ao leitor.

Classificação

4,5

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