Saga – Volume Um

Por Audaci Junior
Data: 14 outubro, 2016

Saga – Volume UmEditora: Devir – Edição especial

Autores: Brian K. Vaughan (roteiro) e Fiona Staples (arte) – Originalmente publicado em Saga # 1 a # 6 (Tradução de Marquito Maia).

Preço: R$ 65,00

Número de páginas: 168

Data de lançamento: Outubro de 2014

Sinopse

Soldada de Aterro, o maior planeta da galáxia e o mais avançado tecnologicamente, Alana se apaixona por Marko, guerreiro de Grinalda, o único satélite de Aterro, onde os habitantes utilizam magia.

Uma vez que a destruição de um arruinaria a órbita de outra, a guerra ocorre de forma terceirizada em outros planetas.

Logo após o nascimento da sua filha, Hazel, o casal tenta escapar do planeta Fenda, mas é pego entre o fogo cruzado de equipes de cada um de seus mundos, que acabam massacrando uma à outra, na tentativa de capturá-los. Uma chacina cuja culpa é atribuída aos dois fugitivos.

Os seus povos não acreditam que os dois acasalaram voluntariamente e eles são perseguidos tanto pelos aterrienses quanto pelos grinaldenses. No planeta Aterro, o Príncipe Robô IV é escolhido pelo próprio pai para prendê-los e entra em atrito com sua contraparte de Grinalda, o mercenário conhecido como O Querer.

Positivo/Negativo

Saga é uma das suas séries mais conhecidas, ao lado de Y – O último homem e Ex Machina, de Brian K. Vaughan, que deve muito ao seu professor de matemática por ele não ser bom o bastante para prender a atenção do roteirista quando criança.

Boa parte das ideias de Saga foram concebidas quando o então aluno estava entediado com tais aulas.

Outro fator decisivo foi o autor norte-americano ser pai e – a partir dessas experiências – colocar como ponto de partida o nascimento da narradora onipresente da obra, a pequena Hazel.

Em vez de mostrar todo o encontro, flerte, sexo e o pacote do romance, Vaughan vai logo para o que seria um eventual “final feliz” para começar sua premiadíssima aventura.

Saga é amparada num popular subgênero da ficção científica denominada space opera, termo usado pela primeira vez em 1941 para definir (pejorativamente) uma história mais aventuresca, sem o rigor científico, com ar épico e cenários exóticos para traduzir guerras de extermínio entre raças na tentativa de manter a supremacia.

A diferença de percurso é o tipo de pavimentação modernizada usado nessa jornada: anos-luz de distância da asséptica e muitas vezes ingênua sci-fi (com exceções, lógico!), a série é revestida com diálogos mais desbocados e ácidos, sequências bem mais violentas e várias passagens despudoradas.

Sem nenhum sinal de timidez, pode-se observar momentos “críveis” logo nas páginas iniciais, com direito ao bebê envolto do cordão umbilical (que é cortado com os dentes, pelo pai) e a pronta amamentação da cria, uma cena que chegou a ser reproduzida em close numa das capas do encadernado, não vista neste volume, apesar de a criança aparecer sutilmente mamando na capa.

De certa forma, esse tipo de franqueza e “naturalidade”, pouco vista no gênero, faz com que a obra se destaque e conquiste a simpatia do público pelos paralelos com pequenos e épicos dramas de planos familiares, vide escolher um nome para o bebê ou iniciá-lo num determinado costume cultural em que apenas um dos pais está habituado.

Herdando os chifres do pai e as asas da mãe, a recém-nascida Hazel vira um novo personagem, que é jogado no olho do furacão em que estão seus genitores, Alana e Marko, soldados que eram para estar em lados opostos de uma longa guerra intergaláctica.

Com os bonitos e expressivos desenhos da canadense Fiona Staples, Saga deixa bem claro que nunca quis ser um Romeu e Julieta espacial, frequentemente lembrando que é uma HQ de aventura, com humor, cinismo e sutis críticas que fazem alusão ao mundo real.

A crueldade desse universo pode ser vista no preconceito nada velado que as raças têm entre si, presentes nos discursos. Independentemente da cor de pele (Alana é negra, por sugestão da desenhista, para romper com esses padrão do “herói caucasiano”), a discriminação vem de outros fatores genéticos e culturais inexistentes na nossa realidade, mas que pode muito bem provocar reflexões.

Pode-se notar como os perfis do casal vão além das suas características físicas. Marko tem uma índole inicialmente pacifista e é mais aberto. Não é sem propósito que seu povo domina a magia, algo mais ligado ao sobrenatural, menos tecnológico.

Já Alana tem uma personalidade mais forte, é briguenta e racional, com asas que servem mais de adorno para permanecer seus pés no chão. Ele carrega uma espada; ela sempre está munida de uma arma atordoadora.

Toda a sensibilidade implícita de Alana é evidenciada naquilo que ela lia quando estava nas fileiras aterrienses: aqueles livros baratos, melodramáticos e cheios de clichês que eram vendidos em bancas de jornais, do tipo Júlia ou Sabrina.

Nesses primeiros seis capítulos, percebe-se como Vaughan começa a mexer as peças dos coadjuvantes para serem confrontadas mais para frente, além de ter um razoável gancho para o próximo volume.

Outro destaque é a inventividade de seres que povoam a trama: gigantescos gatos detectores de mentira, prostitutas com enormes cabeças e sem troncos, príncipes militares que têm uma televisão no lugar da cabeça, caçadores freelancers aracnídeos e fantasmas babás que arrastam suas tripas ectoplásmicas são alguns exemplos que esperam na leitura desse encadernado.

A edição luxuosa da Devir tem capa dura, formato 18,4 x 27,2 cm (maior que o chamado “americano”), papel couché com boa gramatura e impressão. Poderia ter algum material extra além das capas que entrecortam os capítulos, como a biografia dos autores ou um texto apresentando a repercussão da obra lá fora, que chegou a ganhar vários prêmios em diversas categorias (comumente como Melhor Série), dentre eles o Eisner, Harvey, Hugo e o British Fantasy.

Saga não é nenhuma “invenção da roda” e talvez não empolgue os que estavam em ebulição com as expectativas pela repercussão da série em virtude da crítica e público. Mas Brian K. Vaughan e Fiona Staples transparecem que estão deixando redondo uma narrativa que garante entretenimento, encanto e atenção. Por que não chamar de uma novíssima e revisada space opera?

Classificação

4,0

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• Outros artigos escritos por

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  • Anderson Fernandes

    Nem fala. li os dois volumes e agora fico igual um drogado sem droga esperando os proximos volumes que não chegam nunca.

    Vamos lá Devir, ajuda aê o/

  • Claudia Barros Herdeiro

    Não sei como pode avaliar com 4 apenas uma HQ tão grandiosa como Saga. É 5 estrelas e ponto final! Um dos melhores lançamentos dos últimos tempos!

  • Jared Sagaz

    Quatro volumes já, aos poucos a Devir tá lançando as traduções. Série muito boa.